
Desafio à vista: Raquel se prepara, agora, para a 20ª edição da mostra
Festival este ano levou 35 mil pessoas à cidade histórica
Tiradentes (MG) – Pergunto a Raquel Hallak aonde quer chegar. Aparentemente tímida, ela ri e logo se apressa: “Já cheguei. E extrapolei. Estou levando a Mostra de Cinema de Tiradentes para São Paulo. Aqui, cinema contemporâneo é o foco. Tratamos de preservação em Ouro Preto e de mercado em Belo Horizonte. São eventos complementares. Agora é manter e ter o cuidado de gestar cada edição.” E findada a edição deste ano do festival na cidade histórica, o desafio é pensar na 20ª edição. Um trunfo num país onde continuidade e solidez não são palavras correntes no meio cultural.
“Comecei minha carreira tendo programas com continuidade, metas e finalidade. Quando abri a produtora, falava que não queria ser gestora de artistas. Não consigo fazer um show e terminar ali. Sempre quero um diálogo a mais, que as coisas tenham um legado, que haja a possibilidade de fazer a transformação”, diz a mineira de São João del Rey, responsável por levar 35 mil pessoas a um evento com 117 filmes, 25 seminários e dez oficinas. “Penso sobre o que podemos refletir nesses 20 anos, deixando registrado. Com 15 anos, fizemos um livro, mas ainda não pensei nos 20, porque está tão difícil o financiamento na área cultural que não conseguimos programar a longo prazo”, lamenta.
Refém das leis
Para os que passaram pela simpática Tiradentes durante os nove dias do festival, com as sessões pontuais e uma infra-estrutura milimetricamente pensada, torna-se estranho pensar que, em dezembro, um dos maiores patrocínios ainda era incerto, já que a lei estadual havia excedido sua possibilidade e fez-se necessário, então, transferir o patrocínio para a lei federal, ação um tanto burocrática. “Não sofremos no final das contas, mas ficamos o tempo todo no risco”, conta Raquel. Segundo ela, trata-se de uma organização cultural difícil de superar. Por isso, se equilibra fazendo eventos empresariais. “É como no cinema: para produzir um filme, é preciso fazer um vídeo publicitário para se manter”, comenta.
Com mais de duas décadas de experiência na área cultural e considerada uma das principais incentivadoras do cinema no país, Raquel chama atenção para a necessidade de se pensar a médio e longo prazo. “Na área cultural, a gente fica muito preso à lei de incentivo, que é a forma de financiamento no país. Acho lamentável. Sempre estou disposta a contribuir com os governos para pensarmos num modelo de gestão no qual o gestor cultural possa sobreviver sem ser refém das leis”, observa, citando o fechamento da Embrafilme, nos anos 1990, paralisando a cena, como um exemplo a não ser seguido e nem replicado.
Em dia com a tecnologia
Para ela, uma das saídas para a polêmica Lei Estadual, que o secretário de cultura Angelo Oswaldo prometeu reformular, é criar critérios mais rigorosos, de forma a aprovar apenas o montante disponível para captação (tem sido corrente a aprovação de muitos projetos, quando a capacidade de renúncia fiscal é menor). Outra solução importante, na opinião da codiretora da Universo Produção, é pensar no incentivo em dois momentos no ano, contemplando, assim, ações durante os 365 dias. Contudo, ainda que produzir seja tarefa árdua, Raquel é otimista e entusiasmada. Como o festival, sempre atento ao momento, sempre retrato de uma produção nacional.
“Por mais que a cidade não tenha a infra-estrutura adequada, como Gramado, que fez o Palácio dos Festivais, acompanhamos a tecnologia. Quando a galera falou que não tinha diferença do vídeo para o curta, nós adotamos. Quando veio o digital, com milhões de formatos, também acolhemos. Acompanhamos a produção e quem está fazendo filmes”, orgulha-se. Cinéfila? Nega. Mas afirma: “De todas as artes, acho que o cinema é o mais poderoso”. Por curiosidade, pergunto sobre os filmes que mais lhe marcaram. “Foram dois filmes: ‘Serras da desordem’ (de Andrea Tonacci, o homenageado do festival neste ano), por ser a quebra da fronteira do real para a ficção. E ‘Lavoura arcaica’, que foi um filme extremamente difícil e ganhou o júri popular, impressionante tanto pela nova forma de fazer cinema, quanto pela resposta do público”, responde a voz que ajuda o cinema brasileiro a existir.
* O repórter viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

