
Para celebrar o Dia Nacional do Idoso e o Dia Internacional das Pessoas Idosas, o coletivo Quinquaginta apresenta, nesta quinta-feira (1º), o espetáculo de dança contemporânea “Im/per-feições”. A apresentação está marcada para as 20h, no Teatro Paschoal Carlos Magno, contando com tradução em Libras e roda de conversa. Os ingressos podem ser adquiridos na plataforma Uniticket.
O espetáculo “Im/per-feições” foi criado pelo coreógrafo e professor Herbert Hischter em parceria com a dançarina Iêda Loureiro, que se apresenta durante 45 minutos em formato solo. Por meio da performance da artista sexagenária, temas como a maturidade, a passagem do tempo e o envelhecimento da figura feminina são colocados no centro da reflexão.
A obra é voltada para o público multietário, que será convidado a participar de uma roda de conversa após a apresentação. Temas como memória, longevidade e processos de criação poderão ser debatidos, enquanto depoimentos e percepções diferentes são esperados.
Não há idade para ser jovial
O coletivo Quinquaginta, palavra que significa cinquenta em latim, nasceu, como conta a dançarina, da ausência de um espaço em Juiz de Fora que proporcionasse experiências artísticas para pessoas idosas. Iêda Loureiro relata que não encontrava nada instigante ou artístico, e a maioria das aulas era de dança de salão ou estereotipadas.
Com seus então 51 anos, ela procurou Herbert para criar esse espaço, que colocasse os movimentos da pessoa idosa em uma linguagem artística. A parceria é de longa data e o projeto chegou a ter encontros antes da pandemia. Em seguida, o grupo produziu uma videodança, premiada pelo edital Janelas Abertas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
O grupo retornou às atividades em 2023, mas, com mudança nos integrantes, Herbert sugeriu que ele e Iêda seguissem em um novo projeto. Assim, nasceu “Im/per-feições”, solo baseado na trajetória da sexagenária e em seus movimentos.
Inicialmente, Iêda pensou que o espetáculo seria um dueto, mas aceitou o desafio do solo, mesmo nunca tendo dançado sozinha antes. A apresentação é toda baseada em seus movimentos e em seu gestual, adaptados para a linguagem da dança por Herbert, processo que levou cerca de um ano para ser concluído.
“É um processo inverso do que acontece na maioria das coreografias, em que o coreógrafo chega com tudo pronto para a dançarina”, explica Iêda. Era a aluna quem ditava o ritmo para o professor.
Foi a partir desse momento que o que antes era visto como uma limitação de um corpo em processo de envelhecimento se tornou o protagonista. O modo como Iêda se move, sua força e precisão nos movimentos são, justamente, o que faz o espetáculo ser o que é.
“Im/per-feições” também é marcado pela filosofia do grupo, que distingue a juvenilidade, entendida como um dado biológico, da jovialidade, definida como um estado existencial. “Ser jovial é uma conquista da maturidade que transcende a limitação física e reivindica o protagonismo intelectual e artístico do idoso”, destacam.
Em cima do tapete
A apresentação vem em um momento de aumento do envelhecimento populacional: Juiz de Fora ocupa o 13º lugar no ranking dos grandes municípios brasileiros com maior percentual de idosos, segundo o último censo do IBGE.
A cenografia da apresentação de dança também foi pensada de forma a traduzir uma história. Iêda dança em cima de um tapete de quatro centímetros de diâmetro, e Herbert brinca: “Nós não empurramos o etarismo para debaixo do tapete”.
Elementos lúdicos e figurino também comunicam, como a roupa vinho que Iêda usa, uma alusão à bebida, conhecida por ficar melhor na medida em que envelhece. Projeções em vídeo, figurino modular e o uso de objetos cotidianos também se transformam em parceiros de cena.
A coreografia inicialmente seria de 20 minutos, combinando uma linguagem híbrida de movimentos da dança contemporânea, flamenco, dança de salão, música disco e brincadeiras infantis. Ao longo dos ensaios, Herbert e Iêda foram construindo juntos quase uma hora de espetáculo.
“A coreografia conta comigo, mas no momento em que a música começa, aí o crédito é todo da Iêda, ela é uma guerreira”, conta o coreógrafo e educador físico.
O encontro entre diferentes gerações também marca a produção, algo que Iêda e Herbert concordam ser essencial. A sexagenária explica que se sente provocada a pensar diferente e o coreógrafo revela aprender algo novo todo dia.
Finitude infinita
O nome do espetáculo, “Im/per-feições”, vem da junção das palavras “imperfeição”, “perfeição” e “feições”. Imperfeito porque a dança é performada por um corpo que não alcança a perfeição, exigida normalmente por companhias de dança, em especial de formações clássicas. O gesto se subverte e a perfeição vem, justamente, disso. Já a feição, diz respeito às pressões estéticas sofridas pelas mulheres e a busca por uma beleza eternamente jovem.
“Quando comecei a ouvir expressões pejorativas como ‘bigode chinês’, ‘pé de galinha’ e ‘código de barra’, fiquei assustadas”, conta Iêda. Ela destaca que há uma busca incessante por esconder coisas consideradas como imperfeitas, mas questiona se realmente precisa ser assim.
Iêda explica que o tom não é de crítica para quem faz preenchimentos e outros procedimentos estéticos, mas de reflexão: o que nossas feições dizem sobre nós mesmos e nossas experiências?
“Im/per-feições” busca levar o público, especialmente os idosos, a perceber que a pessoa idosa pode contribuir para a sociedade, aprender e se arriscar, sem limite de idade e sem se prender a estereótipos.
Serviço
Im/per-feições – Coletivo Quinquaginta
Quinta-feira (1º), às 20h
No Teatro Paschoal Carlos Magno (Rua Gilberto de Alencar, 1 – Centro)
Tradução e interpretação em Libras
Ingressos via Uniticket
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy

