
Saulo Silveira apresenta “Cartografias do presente” neste domingo
A gestação durou oito meses, de fevereiro a outubro. Agora, ganha a luz, do palco. Cinco companhias, cinco propostas e investigações que apontam para um sem número de caminhos. Financiadas pelo edital de Incentivo à Criação e Pesquisa em Dança para Artistas e Grupos Locais, elas receberam mensalmente um subsídio de R$ 800 para pesquisar e criar projetos cênicos que dizem da identidade da dança em Juiz de Fora. Inicialmente, o mecanismo de apoio serviria como pontapé para a construção de uma bienal, que substituiria o Festival de Dança, extinto em 2013. “Com os revezes econômicos no país, mesmo tendo aprovado o projeto da bienal na Lei Rouanet, optamos por fazer um evento simbólico, embora bastante significativo, que funciona como um recorte que envolve formação, debate e apresentação de produções locais”, pontua o superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, anunciando o “JF em dança”, que começou ontem e segue até terça-feira (veja programação).
O sonho de ter um evento de grandes porte e repercussão na cidade foi abortado – segundo Toninho, não está certo que e 2016 haja a bienal -, mas não a mobilização. Desenvolvido pela Prefeitura em parceria com a Comissão de Dança, o “JF em dança” confirma a boa fase de uma classe engajada não apenas no aspecto político, mas, também, em termos de linguagem artística. “A dança na cidade está vivendo um momento histórico. Mesmo sem a bienal, estamos fechando um edital de pesquisa que foi plenamente vivido. Foi uma construção conjunta”, comenta a dançarina e membro da comissão Silvana Marques.
De acordo com Letícia Nabuco, dançarina e pesquisadora, também da comisão, a formação da comissão, em 2012, se deu no desejo de abrir espaço para a reflexão na mesma medida que para o fazer. Mediadora das cinco propostas eleitas pelo edital, ela destaca a liberdade para interferências entre os envolvidos, que se abriram para a troca em prol de uma cena fortalecida e original.
A crítica como impulso
“É a partir da crítica que a arte se desenvolve, se abre, se descobre. É preciso ter uma abordagem reflexiva”, analisa Letícia Nabuco, destacando que os espetáculos resultantes de oito meses de debates foram exaustivamente questionados tanto pelos integrantes das companhias quanto pelos colegas da classe. “Aprendi a ouvir minha intuição e a captar inspiração a todo momento, me atentando para as ferramentas do meu trabalho artístico. Quis sair da zona de conforto, fugir um pouco da dança de salão, ainda que, no fundo, o salão esteja dentro do trabalho, muito mais orgânico, como expressão e não como uma técnica fechada”, aponta Silvana Marques, que em “Metades” leva sete dançarinos para a releitura de “O banquete”, de Platão.
Em “Viveza”, de Rita Viana, Carolina Oliveira e Camila Resende, ex-integrantes da Cia. Cos’é? de Dança, se reúnem para retratar exatamente o tema do reencontro, levando para o palco a solidão de um palhaço (Marcos Marinho). “Pique”, da Corpus Núcleo de Dança, parte das obras “A poética do espaço” e “Metapoética dos quatro elementos”, de Bachelard, formando um jogo entre dança, espaço e imagem. Graduado em educação física em Juiz de Fora, mestre na Bahia e professor em Belém do Pará, Saulo Silveira apresenta sua “Cartografias do presente”, enquanto a Cia. de Dança Inércia Zero mostra sua contemporaneidade em “Sete”.
Maduras sementes
Iniciado em 2012, dentro do Festival Causa, que o Diversão & Arte promove anualmente, “De novo”, de Letícia Nabuco, recorre à relação entre “eu e o outro” para a criação de movimentos em diálogo. “A ideia é descobrir possibilidades do novo. O que é o fim? O que precisa ser destruído para que o novo apareça? Daí começo a entrar numa investigação dos diversos tipos de mortes e nascimentos que temos ao longo da vida, tanto na natureza quanto nas dinâmicas das relações. Meu interesse está em como isso pode chegar no movimento, no corpo, na relação. O que pode existir de novo no que já consideramos velho, não no sentido de idade, mas do que deve ser transformado?”, questiona ela, que como ponto de partida se espelhou nos movimentos do filho de 6 anos e da avó, de 96. “O espetáculo não é narrativo nem literal, mas trago para o meu corpo o que via nessas relações. Observei coisas frescas brotando em minha avó e em meu filho. Em termos motores, eles viveram fases muito parecidas, por mais estranho que seja”, comenta.
De alguma forma, a reflexão de Letícia representa o momento atual na cidade desta classe em contínuo e fervilhante movimento. “Sinto que existe um amadurecimento”, aponta Toninho Dutra. “A dança é a classe que, atualmente, está mais articulada politicamente, arregaçando as mangas, entendendo que ‘uma andorinha sozinha não faz verão’. Não dá para só gritar, só reclamar”, afirma Letícia Nabuco, para logo completar: “A classe está caminhando no entendimento de que são os artistas da dança quem vão fazer a dança em Juiz de Fora.”

