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Tão perto, tão longe

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Marlon e Mylena Sá Freire têm 11 anos. Por dois anos consecutivos, durante as férias, os irmãos fizeram um passeio pelo parque do Museu Mariano Procópio, mas o que eles conheceram da instituição se restringe aos limites impostos pelos tapumes que impedem a entrada aos prédios históricos. "Eles não têm o museu como referência, não sabem o seu valor. Quando eu estudava, ia com os amigos de escola para conhecer o interior do espaço, e a professora tentava contextualizar o conteúdo da disciplina. A memória fotográfica era mais importante que qualquer aula expositiva. Infelizmente, não sei dizer se essa nova geração vai defender o museu como a gente defendia", reflete o tio Tiago Vitor.

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Se num passado distante, a imponente construção erguida por Mariano Procópio e transformada em museu particular por seu filho, Alfredo Ferreira Lage, integrava a memória e a história do juiz-forano, hoje já não se sabe se os filhos da terra têm, diante de um dos seus mais suntuosos pontos turísticos, a mesma sensação de pertencimento daqueles tempos. Nas décadas de efervescência, transitaram por lá cientistas, estadistas, personalidades e viajantes de renome, como os membros da família Imperial. Neste domingo em que a Tribuna completa 32 anos, o jornal inicia a série de reportagens intitulada "O museu é nosso".

A decisão derradeira de impedir a circulação pelo conjunto arquitetônico ocorreu em 2008. Até então, desde janeiro de 1983, quando o local foi reaberto após ter sido fechado durante 12 meses também para obras, os vários problemas de infraestrutura se arrastavam a olhos vistos. Em um dos momentos mais graves, o forro do teto desabou. Falta de funcionários também provocou a paralisação das atividades. Desta última vez, o parque foi fechado em setembro de 2006, tendo um terço reaberto no segundo semestre de 2008. Neste mesmo ano, em janeiro, o prédio do Museu Mariano Procópio, por apresentar trincas e fissuras, foi trancado.

Dois meses depois, devido a vazamentos de água em vários cômodos e queda de estuques, após forte chuva, a Villa Feira Lage teve suas portas cerradas. Desde lá, várias são as promessas de investimento na reabertura do local – segundo maior guardião do acervo referente ao período imperial (o primeiro é o Museu Imperial de Petrópolis) -, mas nenhuma, por enquanto, acena para medidas conclusivas. O montante necessário para a concretização dos trabalhos chega à casa dos R$ 30 milhões. "O museu está presente na sociedade através das ações desenvolvidas com a população. Nossa meta é mantê-lo vivo no imaginário das pessoas, inclusive, com circulação da coleção. Queremos transformar o discurso em realidade", garante o diretor-superintendente do museu, Douglas Fasolato.

 

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Formação de público

Conforme dados repassados pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), das 1.700 instituições cadastradas espontaneamente no site da organização, 212 declaram-se fechadas, e os motivos, em sua maioria, passam por problemas de falta de recursos e necessidade de reformas. "Quando o comércio tem outros concorrentes, se você fecha para fazer uma obra, sua freguesia vai para outro lugar. Os museus no Brasil estão cada vez mais numerosos, mas custam a se firmar. É preciso um investimento muito grande não só para recuperar o museu, mas também para mantê-lo", diz Solange Godoy, ex-diretora do Museu Histórico Nacional (RJ) e curadora da exposição "Doce França – Recortes da vida privada do Museu Mariano Procópio", realizada no Museu de Arte Murilo Mendes em 2010.

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Seguindo o conselho da museóloga, a direção do Museu Mariano Procópio tem investido em programações culturais e educativas para o público frequentador do parque. Só em 2012, foi registrado o número de 215 mil visitantes em projetos, como "Férias no museu", "Clube ecológico", "Caça ao saci" e "Música no parque." "Estamos lutando para não perder a clientela", assegura Fasolato.

"Essas iniciativas não agregam um outro público. Vou lá e vejo sempre as mesmas pessoas, é sempre o mesmo recorte", sentencia o historiador de Juiz de ForaTadeu Silva. "Os políticos são sensíveis aos votos, e quem financia o museu é o contribuinte. Se ele expandir seu diálogo, interesse e criatividade, ele se habilitará à aposta dos governantes", contesta Tadeu.

 

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Nascida em Juiz de Fora, a pequena Eliza Cristina Freitas Carvalho, 7 anos, não teve opção. Não havia completado 2 anos quando o museu fechou. Mesmo que sua mãe a levasse para conhecê-lo, a pouca idade não seria suficiente para dar o valor necessário à experiência. Um pouco mais velha, a irmã Luiza Cristina, 11 anos, podia ter passado por lá, mas, na primeira vez em que esteve no parque, as cercas já estavam levantadas. O mais próximo que as duas conseguiram chegar dos prédios aconteceu na última sexta-feira, durante ensaio fotográfico para ilustrar esta reportagem. "A Luiza fez um passeio turístico por Juiz de Fora e, como o museu não estava no roteiro, ficou me questionando: ‘Mãe, por que não posso entrar lá?’ Depois, me pediu para levá-la a Ouro Preto e Diamantina para conhecer as instituições dos municípios históricos. Lamento não ter atentado antes para isso. Agora, só me resta esperar", queixa-se a mãe, a contadora Shirlei Carvalho.

"O pouco que conheço do acervo é através de algumas matérias na imprensa. Na faculdade, até tive interesse pelo local, mas um professor me informou não ser possível entrar lá. As fotografias seriam uma ótima ferramenta de estudo do passado do município" diz Lucas Di Giovanni, cozinheiro, de 26 anos. O estudante José Eduardo Brum, 26, também acrescenta à discussão a ausência de uma política voltada para o turismo. "A cidade sai perdendo muito, pois deixo de levar meus familiares de fora para conhecer os pontos históricos. Falta estímulo e determinação do Poder Público para que o museu se mantenha aberto", comenta o aluno de direito da UFJF.

 

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Alguns foram impedidos de conhecer o museu, outros, porém, deixaram de fazê-lo por vontade própria. A fotógrafa Lara Toledo veio de mala e cuia para Juiz de Fora aos 19 anos. Com 32 anos, confessa que esteve no museu uma única vez antes de ele ser isolado, mas não aproveitou a oportunidade de ver o que as paredes escondiam. Na sua ida, limitou-se a tirar fotos no bosque e andar de pedalinho. "Quando você mora em uma cidade pequena, como Visconde do Rio Branco, as escolas acabam tendo o Museu Mariano Procópio como modelo. O colégio onde eu estudava já fez visitas lá, mas eu não fui. Hoje reconheço sua importância", observa Lara, arriscando palpites sobre o acervo. "Lá deve ter muitas fotos e objetos antigos de Juiz de Fora. Não tenho ideia de qual período é a coleção", entrega.

A julgar pela idade, diferentemente de Marlon, Mylena, Lucas, José Eduardo, Lara, Eliza e Luiza, Tadeu Silva desenvolveu com o Mariano Procópio uma relação de pertencimento. Na opinião dele, que tem 52 anos, a instituição apresenta uma narrativa que foi colocada em xeque já na década de 1980. "A questão da monarquia e da industrialização perdeu força, até porque a realidade é outra. O município cresceu, se diversificou, e novas contribuições foram surgindo, que não foram incorporadas à narrativa do museu", opina. "A musealidade envelheceu, e, a partir dos anos 1970, uma outra proposta foi surgindo, com novos diálogos e retóricas", observa o historiador, citando o escritor francês Paul Valéry. "Valéry escreveu que se sentia desconfortável dentro dos museus da França. A nova musealidade, entre outras questões, indica que o museu precisa mudar esse tipo de acolhimento solene. Ele precisa fazer o visitante ser um sujeito da musealidade. Acredito ser esse o caminho."

 

 

 

Roteiro econômico

"Juiz de Fora é uma cidade industrial, tem uma universidade poderosa, mas o museu daí não conseguiu captar recursos e interesses como o Museu Imperial, de Petrópolis. Quando a instituição de lá fica fechada, a economia da cidade cai. Petrópolis conta com o museu, Juiz de Fora, não", dispara a museóloga Solange Godoy, justificando o fato de a residência herdada por Alfredo Ferreira Lage não alçar o município entre os principais roteiros turísticos do país, a despeito da respeitosa e valiosa coleção que o acervo comporta. "Sugeri abrir uma galeria, realizar algumas ações no interior para o público ir chegando, mas só quem está dentro tem condições de avaliar a questão", acrescenta Solange.

Na visão de Douglas Fasolato, a implantação de um museu de percurso, já nos planos, possibilitará a transformação dos municípios cortados pela Estrada União e Indústria, incluindo Juiz de Fora, num roteiro do ponto de vista histórico, cultural e turístico, trazendo benefícios econômicos e culturais. "Vamos investir em marketing. Só precisamos adotar procedimentos para viabilizar ações conjuntas com o Governo federal e as prefeituras que estão no trajeto. Potencial, o projeto tem", atesta o diretor-superintendente.

 

Exemplo carioca

Localizado no Rio de Janeiro e criado em 1922, o Museu Histórico Nacional amargou mais de dez anos de reforma. Contudo, ao contrário do que tem ocorrido com o Museu Mariano Procópio, a restauração foi promovida com a presença de visitantes. Conforme Solange, antiga diretora da instituição, os investimentos do governo e o apoio de toda a equipe e população foram essenciais para que os trabalhos decolassem. "Pensamos muito em fechá-lo, mas fomos realizando por etapas. A obra foi acontecendo enquanto promovíamos exposições temporárias. Muitos museus da Europa fizeram o mesmo", comenta a curadora.

"O museu tinha que ficar fora dos muros. Colocamos as bandeiras históricas na porta e invertemos o processo. Primeiro, pintamos o prédio todo por fora. Quem passava perto tinha a sensação de que estava tudo novo. Sempre defendo que ninguém gosta do feio. Foi um esforço muito grande fazer com que a população do Rio reencontrasse a instituição e passasse a apoiá-la", assevera Vera Tostes, atual diretora do Museu Histórico.

Para o museólogo, professor da Universidade do Rio de Janeiro (Unirio) e funcionário do Museu da República, Mário Chagas, também ex-diretor do Departamento de Processos de Criação do Ibram, um museu cumpre o seu papel de instituição cidadã quando está aberto."Fechado, ele deixa de exercer esse função de colaborar com o aprimoramento da sociedade. O patrimônio não é somente o acervo que ele guarda, mas o público. Caso ele se mantenha distante deste, a perda é substancial. Reconheço o esforço que tem sido feito para a reabertura do Mariano Procópio. Se existem responsáveis pela morosidade, são as várias esferas do Poder Público", sentencia Chagas. Embora, crítico quanto à situação, o museólogo vislumbra fim para o impasse e o retorno da identificação do juiz-forano com o local. "É com muita rapidez que o público se apropria novamente do espaço. O elo está vivo", acredita.

 

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