Um dos destaques da programação da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) deste ano é “Arquivos em Questão”, que reúne cinco longa-metragens que fazem o uso criativo de imagens de arquivo para construir narrativas audiovisuais. A proposta da reunião de filmes como “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, “Apopcalipse segundo Baby”, “Irritante prodígio”, “Universo Circular — Jocy de Oliveira” e “Notas sobre um desterro” é usar esse material não apenas como registro, mas como ferramenta fundamental para desenvolvimento da linguagem artística. Seguindo por diferentes caminhos, as obras fazem aproximações entre passado e presente, exploram os limites dos registros e procuram outras formas de se olhar para a história.
A “Arquivos em Questão” é a única mostra competitiva da Cineop. Neste ano, o “Irritante prodígio” foi o longa vencedor do Troféu Vila Rica. A escolha foi feita pelo júri oficial composto pela documentarista e professora Anita Leandro, pela professora e pesquisadora Gabriela Lima Gomes e pelo professor e pesquisador João Luiz Vieira.
A obra parte de memórias bastante particulares de Luiza Lindner, que na sua estreia no cinema fez uma obra completamente sozinha, ao trazer à tona suas memórias da infância no hospital marcada por um período de adoecimento psíquico e desnutrição. “Eu sempre soube que eu ia contar essa história, desde as piores partes dela, quando eu tinha 10 ou 11 anos. Acho que isso está muito alinhado com o fato de que tenho pais artistas e uma irmã artista também, e minha família sempre me incentivou muito a transformar a dor em algo”, conta. Ela também expressou o desejo de fazer, agora, com que o público consiga ver o filme e discutir de maneira ampla os temas que trouxe na obra.
Outras produções
Na produção “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, o diretor Carlos Adriano partiu do único registro em filme do escritor Marcel Proust para fazer um ensaio sobre as dificuldades de adaptar a obra “Em busca do tempo perdido”, enquanto também incorpora criticamente o Massacre de Tantura e cria pontes de reflexão que o conectam com a Palestina. “[Proust] tem sido identificado como um grande memorialista, mas eu acho que essa é uma visão incompleta da obra dele, porque na verdade ele é um grande ficcionista, e o que ele prova nesse livro é que a memória é mais do que um gatilho para a criação, é o espelho do próprio processo de criação”, diz.
O cineasta, inclusive, destaca que os seus últimos cinco filmes se aproximaram da causa palestina, que ele acredita ser a grande questão do século 21. Assim como acredita que os filmes do Godard sempre falavam da Guerra no Vietnam, entende o tema como incontornável “É muito natural colocar esses temas nos meus filmes, mesmo que de uma forma não central. É mais do que um testemunho”, diz.
Quando Rafael Saar começou a produzir “Apopcalipse segundo Baby”, ainda eram poucas as cinebiografias sobre artistas brasileiras — o que, só por essa seleção de longas, que também trazem a história de Jocy de Oliveira, já mostra um movimento bem diferente. Ligado a esse espírito do tempo, o diretor percebeu que era interessante tentar captar as experiências femininas dentro desse universo. “O que me interessava eram as histórias dessa personagem, que sempre foi relacionada à polêmica, algo que não é só de agora. Ela sempre foi ‘a louca do rap’, ‘a louca que não raspava o sovaco’, etc. Isso ficava muito mais à frente do que a arte dela”, diz. Para ele, o filme então buscou caminhos para reconstruir a memória sobre a artista, inventando e reinventando a partir do que já estava à disposição do público.
Palestina em foco
Tanto o filme “Notas sobre um desterro”, de Gustavo Castro, quanto a obra de Carlos Adriano, se dedicaram a trazer um olhar brasileiro para a questão palestina. No caso do primeiro filme, o diretor explica que fez isso justamente porque acredita que esse tema seja um divisor de águas na história da humanidade, e acredita que “reumanizar o povo palestino é reumanizar a humanidade inteira. “Parece que no Brasil, como em vários lugares do mundo, o que acontece lá parece distante da nossa realidade e algo que não se relaciona com a nossa vida cotidiana. Mas aquilo acontece na Palestina há 80 anos pela invenção de um pensamento no ocidente que nasce no ocidente. É o mesmo pensamento que permitiu o genocídio ameríndio ao longo deste continente inteiro, é o mesmo tipo de pensamento que permitiu o holocausto”, reflete. Para fazer essa aproximação, ele conta que optou por trazer a perspectiva de uma família brasileira de palestinos, e usou os arquivos para trazerem profundidade e dimensão histórica para o assunto.
No caso do genocídio palestino, como ele afirma, é preciso fazer uma escavação de imagens para encontrar um fio narrativo — considerando arquivos pessoais, imagens históricas, registros dos primeiros fotógrafos que trataram o oriente e até o olhar que nasce com as imagens chocantes que chegam até o país através das redes sociais. A construção de Carlos Adriano, por sua vez, vai por outro caminho. Para ele, se trata de diferentes formas de se defender essa causa: “Todas elas são legítimas: desde embarcar uma flotilha e tentar furar o bloqueio para fazer entregas humanitárias, escrever artigos em jornais de grande penetração e também com obras que não pretendem ter o aspecto de denúncia explícita formal, mas colocam esse tema em uma moldura maior”, diz, sobre seu filme.
Memória em perspectiva
As escolhas que guiaram Dácio Pinheiro até a obra “Universo Circular – Jocy de Oliveira” foram relacionadas ao fascínio que sentiu pela personagem, uma pioneira da música eletrônica. “Quando tive a oportunidade de entrevistá-la, fiquei apaixonado por ela, pelo jeito e pelas reflexões dela, por tudo que ela viveu”, relembra. Desse primeiro contato, surgiu a pesquisa, e juntos foram compartilhando a criação do filme. O diretor afirma que a cantora tentou interferir na produção, e eles tiveram até mesmo discussões sobre isso, em que ele precisou reafirmar o seu olhar. Mas se lembrou o que ela disse em uma dessas conversas, que também foi importante para ele: “A gente tem que brigar até o limite para saber onde a gente vai conseguir chegar”. Para ele, resgatar figuras como ela se trata de “manter histórias que podem ser esquecidas amanhã”.
No caso de Luiza Lindner, os arquivos usados e a própria construção do filme serviram, como ela diz, para reconstruir a própria memória do que aconteceu em sua vida. “É realmente a memória da minha vida, então para mim é muito importante ser identificada. Eu acho que é um filme que eu sempre vou ter comigo.”

