O filme “Suçuarana” teve a sua pré-estreia na Mostra de Cinema de Ouro Preto (Cineop), depois de já ter passado por outros festivais brasileiros. O longa de Clarissa Campolina e Sérgio Borges conta a história de Dora, uma mulher que está na estrada em busca de uma terra perdida em que sua mãe viveu. Em meio a encontros com outros viajantes e uma busca por identidade, ela atravessa uma Minas Gerais devastada pela mineração. A produção tensiona os embates entre o individual e o coletivo, um dos temas que os diretores consideram como mais importantes do atual momento. As filmagens de “Suçuarana” aconteceram justamente no entorno da região ouropretana, também contando com um elenco de apoio composto por moradores. A previsão é que o longa chegue aos cinemas de todo o país em setembro.
A primeira concepção do longa surgiu quando, em 2012, Campolina leu o livro “A fera na selva”, de Henry James. A obra é situada no século 19, na Inglaterra, e conta a história de um homem que sabe que a sua vida aguarda a chegada de uma fera — e que compartilha esse segredo apenas com uma amiga, com quem tem uma tensão amorosa durante a vida inteira. É só com a morte dela que ele percebe, no entanto, o que era a fera que ele aguardava. “Eu fiquei com esse livro na cabeça, querendo fazer uma adaptação. No início do século 20, o romantismo estava em decadência, e o livro dialogava com esse lugar. Comecei a pensar: se eu for adaptar, o que está em questão atualmente, no nosso mundo contemporâneo? E, aí, pensamos na questão do coletivo e do individual, como o indivíduo se sobrepõe”, conta Clarissa.
A ideia, então, passou a ser de Dora ser a própria fera — e,por isso, desde os primeiros minutos do filme, ela já anuncia sua partida, em constante movimento. É só mais tarde que descobrimos que esse percurso já tem mais de 10 anos, e não começa no momento em que o filme tem início. “Transformamos essa espera em busca. (…) Ela é do movimento, ela está em movimento, não consegue ser estanque. Por mais que tenha a utopia de chegar a essa terra que um dia foi da mãe, ela pertence à estrada. Então, pensamos como apresentá-la de um jeito que ficasse forte para quem estava assistindo”, explica a diretora. Por isso, também foi importante pensar no contexto de onde ela estava viajando: a região de Minas Gerais, que há anos — se não décadas ou séculos — também é foco dessas disputas entre interesses individuais e coletivos.
A região de Ouro Preto foi escolhida por escancarar essa busca da personagem por uma terra que, como define Clarissa, está sendo tomada. “Temos uma história, desde a colônia, que é de extração. Nós não nos chamamos mineiros à toa, é uma nomenclatura inclusive de trabalho. Acho que isso está na nossa identidade e na nossa formação histórica”, explica ela. O filme, que se divide em duas partes claras, que ela chama de “antes e depois do túnel”, quando a personagem tem uma mudança brusca após enfrentar um grande risco, também contou com uma mudança de elenco nesses dois momentos. No antes, foram incorporados apenas atores profissionais no longa, mas na segunda parte os indivíduos não são atores profissionais. Eles fazem parte da guarda de Moçambique, da região.
O afeto localiza
Apesar de Dora buscar se distanciar das ligações de afeto mais evidentes, há um personagem que consegue quebrar as barreiras que ela apresenta: é Tony Stark, um cachorro que entra em sua vida e não quer mais deixá-la. A inserção do animal foi muito interessante para Clarissa, que reconheceu que, ali, foi possível estabelecer outras camadas para a personagem. “Já vamos entender que ela consegue se afeiçoar, sentir afeto. Mas mesmo conseguindo, ela quer se livrar desse afeto para poder seguir. O afeto também te coloca em um lugar”, explica ela. Mas o cachorro também aparece, ali, como a representação de uma possibilidade — ao mesmo tempo que também pode ser um reflexo ou até guia de Dora. “Ele pode ser isso ainda mais se pensarmos nela como uma fera, um ser que também é animal. Ela consegue se comunicar com esse cachorro não como uma dona, como alguém que domestifica o afeto, mas como alguém que compartilha”, diz a diretora.
Para as cenas com o cachorro, a produção do longa optou por não procurar animais treinados para o cinema. Queriam justamente uma liberdade e uma relação que fosse construída com a tutora, mesmo sendo a primeira vez que filmavam em um set com um animal. “Filmar um cachorro foi muito legal. Ele tem esse fascínio, a câmera gosta”, diz ela. O personagem se torna, ainda, um ponto de leveza no filme, e também um ser que toma suas próprias escolhas.
Uma procura constante
Assim como o filme começa em partida, ele também termina com a sensação de movimento. A escolha pelo nome “Suçuarana” se deu também nesse sentido. Estava atrás da representação de uma fera, porque não queria que o nome fosse ‘A fera na selva’. Fomos atrás de alguns nomes, até que encontramos suçuarana, que é uma onça parda que vive sozinha”, diz Clarissa. O nome, além disso, também carrega a música, interpretada por Maria Bethânia e Nana Caymmi: “Sussuarana/ Meu coração não me engana/ Vai fazer cinco sumana/ Tu não volta nunca mais”.
Apesar de nem todas as pessoas já conectarem, de cara, o nome suçuarana com uma onça, era justamente esse estado de “ataque e defesa” que Clarissa procurava, e que também representasse esse caminhar eterno. “Ela está em movimento no início à procura de uma terra. Depois que ela encontra a comunidade, ela entende que a questão não é a terra ou ficar em um mesmo lugar. A identidade e o desejo dela estão ligados a estar em movimento. Eu acho bonito porque ela começa olhando para um lugar e com uma frustração de nunca encontrar, até que, quando aceita que não vai encontrar, isso é uma liberdade. Porque ela já se encontrou”, diz.

