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Quem ri por último, ri melhor: humor das mulheres no cinema quebra barreiras na Cineop

humor mulheres
Mesa ‘Elas dirigem o riso’ contou com biarritzzz, Clara Anastácia, Fernanda Chicolet, Gisella de Mello, Sabrina Fidalgo e Sandra Kogut (Foto: Leo Lara/Universo produção)
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Por muito tempo, mulheres não eram consideradas engraçadas. Ou, quando eram, isso era considerado uma vulgaridade e até um humor menor, porque afinal, a piada considerada boa, muitas vezes, era sobre elas. Mas, durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto (Cineop) foi justamente o humor feito por mulheres que ganhou foco — em produções, inclusive, que datam de 40 anos até o atual momento. Cineastas como Anna Muylaert, Sandra Kogut, Sabrina Fidalgo, Clara Anastácia, Eliana Fonseca, Betse de Paula e Cris D’Amato puderam refletir sobre como o humor está impregnado no mundo das mulheres e como o riso pode abrir uma brecha no raciocínio e fazer pensar sobre questões sociais. Além disso, puderam pensar o riso no lugar de suspensão, em um festival que reconhece esse protagonismo em um universo em que as mulheres costumavam ser as últimas a poderem rir. 

Esse humor criado por mulheres apareceu, na mostra, pelos filmes que debocham das relações heteronormativas e do aparente “lugar” da mulher – seja com obras como “A origem dos bebês segundo Kiki Cavalcanti”, de Anna Muylaert, “Demônia — Melodrama em 3 atos”, de  Cainan Baladez e Fernanda Chicolet ou “Célia & Rosita”, de Gisella de Mello. Mas também é um humor que se aproxima de interpretações diversas sobre a vida, de apropriações do outro e até de memes ou do ambiente digital. De modo geral, é o humor que ri de si mesmo, que não trabalha com piadas prontas, mas com o inusitado e o que está velado. E, mais recentemente, com as mulheres negras e mulheres trans também tomando protagonismo e se inserindo nessas narrativas, como é o caso de “Alfazema”, de Sabrina Fidalgo e “Onde está Mymye Mastroiagnne?” de biarritzzz. 

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Juliana Gusman, curadora da Mostra, explica como temática funcionou para pensar esse cinema (Foto: Leo Lara/Universo produção)

A pesquisa curatorial, como explica Juliana Gusman, uma das curadoras, passou justamente por entender qual era o lugar das mulheres em uma história de um cinema de humor brasileiro. “Foi importante entendermos que esse cinema que vemos na chave do feminismo ou como militante, sempre foi muito bem humorado. Reivindicarmos ‘Os homens que eu tive’, da Teresa Trautman’, ou ‘Das tripas coração’ da Ana Carolina, como parte dessa história de um cinema de humor, pensando humor em uma concepção alargada, foi uma descoberta ou uma nova forma de olhar para esses filmes que achei muito interessante. O humor sempre foi acionado como uma ferramenta discursiva potencialmente crítica. É ambíguo, um terreno de disputa, mas que tem sido reivindicado para perturbar os sentidos de moral dominantes”, diz ela.

Durante uma das mesas que pensaram o humor, a cineasta Sandra Kogut falou sobre esse cinema feito por mulheres também ser coletivo. Para ela, foi preciso, inclusive, inventar um caminho para que seus filmes chegassem a mais pessoas, já que, quando fez o curta “Lá e cá”, ele não era aceito em festivais — até que o cineasta Cacá Diegues apontou a contradição relativa a um filme que tinha ganhado prêmio internacional não ser exibido no Brasil. “Os filmes são seres vivos, o mundo muda, a gente muda. Os filmes são ferramentas para entendermos isso”, conta ela. E, em sua experiência, foi importante deixar que esse caminho fosse trilhado para entender também que humor queria fazer. “O humor que me interessa é o que nunca estamos rindo dos personagens. É um humor próximo da vida, porque a vida é alegre e triste. É um humor que não nos sentimos melhor que os personagens, rimos com eles, rimos de nós mesmos, porque nos reconhecemos em algum lugar”, destaca.

Riso que não reforça marginalização

A ideia de trazer a comédia como ato político radical também foi abordada por Clara Anastácia, que dirigiu o filme “Escasso” com Gabriela Gaia Meirelles. “Existem muitos pontos de umbanda relacionados a Exu que narram bem a luta de uma resistência à colonização e à demonização dos corpos racializados. O riso como espanto da morte e da escravização, o riso como afastamento do cálice colonial, o riso no lugar do choro — não como alienação ou doutrinação, mas como subversão do esperado. Rir não é um estado de alegria somente, rir pode ser um estado de suspensão e de resistência”, disse ela.

Durante muito tempo, como ela lembra, o riso esteve associado à representação de personagens femininos e racializados reduzidos a estereótipos. Para ela, isso foi uma forma de controlar a imagem e castrar a capacidade de identificação, que deve mudar. “Esses personagens não riam por escolha própria, mas eram feitos para provocar o riso alheio, um riso da vergonha que reforça a marginalização. (…) É urgente ressignificar o riso”, diz ela, sobre esse potencial político que a mostra também pode ter.

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Betse de Paula, Cris D’Amato, Eliana Fonseca. Juliana Antunes e Tereza Trautman fizeram parte da segunda mesa ‘Elas dirigem o riso’

Categoria não essencialista

Como lembrou a curadora da mostra, assim como as mulheres diretoras, fica evidente que a temática não é um recorte definitivo. Com filmes que vão das mais diferentes representações até também os mais diferentes recursos, do experimental aos grandes sucessos comerciais, a programação misturou o que há de mais heterogêneo para criar combinações explosivas. “É impossível definir o que é humor feminino. Nunca foi nossa intenção cravar essa definição, ela foi só um dispositivo teórico para unirmos essas pessoas muito diferentes que estão usando o humor como ferramenta estética e política no cinema”, diz Juliana.

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