
Em seu trabalho diário na Redação, Mauro Morais busca histórias que emocionam o leitor
Atualizada às 19h48
Ao voar demais, Mauro Morais não se formou professor, como também cogitava, fez-se jornalista. “Sempre fui um aluno mediano em português, porque ‘fugia ao tema’ nas redações.” É por se perder com as palavras que ele se tornou um legítimo contador de histórias, não só aquelas escritas por intelectuais, mas, sobretudo, as construídas na rua, por pessoas comuns e que são apresentadas por ele, aos domingos, na coluna “Outras ideias”. Aliás, foi em meio a uma sequência de encontros com personagens que estão à margem, como dona Adenilde Petrina, do Bairro Santa Cândida, e o MC Aice, morto em maio de 2015, que ele encontrou rico material para a série “A voz da periferia”. As cinco reportagens publicadas na Tribuna entre 26 e 31 de janeiro de 2014 renderam-lhe o Prêmio Petrobras de Jornalismo na categoria cultura/regional (Minas Gerais, regiões Centro-oeste e Norte). Os troféus aos ganhadores foram entregues em cerimônia realizada na noite de ontem, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro.
“Depois que entrei para a faculdade, lógico que conheci outro universo, mas meu lugar sempre foi o de pessoas simples e humildes. Nessa série, tive a oportunidade de mostrar isso. Foi uma semana inteira falando de quem não é matéria nunca. Seus empreendimentos são incríveis, mas são independentes do estado, independentes da iniciativa privada. São iniciativas feitas na periferia e que podiam muito bem ser exemplos hoje para a cultura do centro”, enfatiza o jornalista, que, apesar do hiato de mais de um ano, ainda se recorda nos mínimos detalhes dos bastidores das longas apurações. “Foi muito emocionante, porque eu ligava o gravador e ficava duas, três horas com ele ligado. Como todo mundo falava, tive que me concentrar muito.”
Encontros inesquecíveis
Foi na casa da aposentada e militante do movimento negro Adenilde Petrina, coordenadora da extinta Rádio Comunitária Mega FM, do Santa Cândida, que o repórter começou seu percurso atrás das produções das periferias. No lugar de trazer os já conhecidos e reconhecidos rostos que representam a cultura local, a capa da edição daquele 26 de janeiro estampava os jovens poetas do coletivo Vozes da Rua. “Dona Adenilde falou uma frase singular para minha vida. Ela disse que ter a rádio dela estudada era muito importante, mas os estudos sempre colocaram-na em outro espaço. Quando falei que queria ouvir tudo o que ela tinha para me dizer, ela se mostrou aquela intelectual forte, aquela pessoa que pensa, que sabe da realidade em que vive. Aquela pessoa que tem a exata noção de que o trabalho que faz é importante para mudar a rua, a cidade toda, o mundo. Entrar na sala da dona Adenilde e ver aquelas pessoas se defendendo, se apresentando como intelectuais orgânicos, foi um choque”, conta Mauro.
Para conversar com aquelas dezenas de artistas que acabara de conhecer, o repórter, algumas vezes, precisou mudar seu horário de expediente no jornal. As vozes que ecoavam longe da chancela do estado trabalhavam duro durante o dia para se sustentar. “O grande encontro dessa série foi com o Aice. Ele me disse que, por ser frentista, só podia conversar comigo depois do horário. Fiquei impressionado com sua capacidade de mobilizar pessoas. Na conversa com o pessoal da Batalha de MCs, ele conseguiu reunir de 10 a 12 pessoas. Já na matéria do passinho, foram 15 jovens. Ele tinha muita entrada nessas comunidades , e uma entrada que modificava. O cara do passinho, por exemplo, me disse que, depois que descobriu o passinho, queria se profissionalizar. Em grande medida, ele modificou a vida daquele cara”, reflete. “Saber da morte do Aice é também saber que, por mais que a gente conte a história da periferia, por mais que a gente tente olhar para a periferia com olhos muito otimistas, esta periferia ainda precisa de ações muito efetivas. Meu trabalho não dá conta de o quanto aquelas pessoas precisam ser valorizadas.”
Como jornalista, Mauro se coloca entre os que mereceram sua atenção. “Em um debate na semana passada, eu disse que os artistas sempre falam que fazer arte no Brasil é resistir de alguma forma, ao que ressaltei: ‘Olha, estamos falando de igual para igual, porque fazer jornalismo de cultura em um país em que os livros de não ficção mais vendidos são os de colorir é ser resistente também. Sinto-me um resistente em todos os sentidos, no sentido emocional, no sentido de ainda não ter a vida tão confortável quanto queria”, assevera, acrescentando que o prêmio dá fôlego para seguir. “Ele me dá muita certeza de que esse é o caminho que quero traçar. Esse caminho de trabalhar com as palavras e, não de dar voz, porque não sei se consigo isso, mas de iluminar alguns pontos.”
Confira as reportagens da série “A voz da periferia”:
– ‘Juiz de Fora precisa desfazer o discurso da Manchester Mineira’
Por um país com equidade social
Repórter especial do ‘Jornal do Commercio’, de Pernambuco, Fabiana Moraes é a grande vencedora do Prêmio Petrobras de Jornalismo
A principal vencedora do Prêmio Petrobras de Jornalismo foi a jornalista pernambucana, três vezes vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo, Fabiana Moraes, com a série “Especial Casa-Grande & Senzala”. No total, foram premiados 35 trabalhos, sendo 17 na categoria nacional, com valores entre R$ 7.600 e R$ 18.250. Além do repórter da Tribuna Mauro Morais, outros 16 profissionais receberam o troféu na categoria regional. A cerimônia de entrega dos prêmios foi realizada na noite de terça-feira, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. Durante o evento, foi feita uma homenagem à jornalista Beatriz Thielmann, falecida em março deste ano. Beatriz conduziu a cerimônia ao lado de Sidney Rezende em 2013, ano de lançamento da premiação.
Convidada do último sábado do quadro “Sala de leitura”, da Rádio CBN Juiz de Fora, e autora do livro “O nascimento de Joicy – Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem”, Fabiana é repórter especial do “Jornal do Commercio”, de Recife. Pelo trabalho, ela levou para casa o valor de R$ 31.800. Ao lado dos colegas de redação Diogo Guedes e Bruno Albertim, a jornalista tratou na reportagem o cotidiano de jovens que, desde a infância, sofrem com a exploração sexual, tendo como gancho a obra “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. “Acredito no papel do jornalismo na defesa dos vulneráveis e na construção de um país com mais equidade social no futuro”, disse a jornalista.
A premiação foi dada, pela primeira vez, a uma reportagem internacional. Quem levou foi a equipe da TV alemã ZDF, responsável pela reportagem “Brasil, país da saudade”, de dezembro de 2013. A produção associa imagens de Norte a Sul do Brasil a símbolos culturais como futebol, feijoada e samba, com o objetivo de retratar, através de histórias, o país anfitrião da Copa do Mundo de 2014. A escolha dos melhores trabalhos foi feita em duas etapas. Na primeira, todos os trabalhos recebidos foram avaliados por uma comissão de pré-seleção composta por oito jornalistas. Na etapa seguinte, os trabalhos foram analisados pela comissão julgadora, composta por outros seis jornalistas, todos com grande experiência profissional. Após uma reunião final, a comissão julgadora indicou entre todos os trabalhos o vencedor do Grande Prêmio Petrobras de Jornalismo. O Prêmio foi lançado como uma das ações de comemoração dos 60 anos da companhia.

