Nunca saí daqui.
Já se passou muito tempo! Duzentos e tantos anos…
A estrada foi aberta um pouco antes. O bandeirante veio de longe, rasgou a mata – aproveitando as trilhas dos coroados – e facilitou a fuga do ouro mineiro.
Apareci anos depois, descendo a serra em lombo de burro. Fui plantado neste lugar. Pião de pedra, marco de sesmaria, assim me chamavam. Quem me trouxe usou-me para marcar o centro da propriedade. Mediam o terreno esticando cordas. Muito chão para uma família só. A Coroa foi generosa. Vi quando levantaram a casa principal. Havia gado pastando do meu lado. A lavoura de milho divisava com o Caminho Novo. A família cresceu. O dono morreu. O solo foi dividido. Outras casas apareceram, muitas mulheres e novas crianças.
Surgiram vendas e pousadas. Ergueram igrejas.
Antônio Moreira, Queiroz, Azevedo, Engenho, Luiz Ferreira, Pedro Alves… eram povoados próximos que se ouvia falar.
Na minha frente, muita gente passou. Vejo os dias correndo com seus personagens grudados.
Cheguei a ver índios. Não eram de família brava. Houve um tempo em que passavam livres com suas caças. A seguir, foram caçados. Suas roupas modificadas revelavam os costumes do invasor. Já não via suas mulheres e filhos. Seguiam tropeiros. Levavam cargas. Também carregavam em seus corpos marcas de chibatas. Quem abriu a estrada, usando sua picada, não era seu amigo.
Passaram negros escravos. Outros em fuga.
O Tiradentes perseguia a Quadrilha da Mantiqueira. Soube que mataram muitos em João Gomes. Numa das vezes que o vi passar, ele tentava convencer seus companheiros que a Colônia podia ser livre e o seu ouro não ir mais embora. Não demorou muito e os seus amigos passaram amarrados. Diziam que o julgamento seria no Rio e a pena podia ser dura. Nunca mais os vi. Falaram que foram levados para a África. Anos mais tarde, o alferes voltava para sua província. Já não falava mais e nem estava inteiro. Vi sua cabeça passando numa gaiola. Seguia para Vila Rica. Outras partes ficaram no caminho.
Quando o Imperador passou (era o ano de 1831), seus oficiais comentavam do seu medo ao entrar em Medeiros. Apeado do seu cavalo, fez uma cruz de gravetos e fincou no Morro dos Arrependidos. Era uma tradição e D.Pedro I temia não voltar pra casa. E seguiu para São João Del’Rei. Passou por mim. Desejei-lhe boa viagem.
Costa Matoso, Eschwege, Saint Hilaire, Luccock, Pohl, Cunha Matos, Caldcleugh, Langsdorff… Português, inglês, francês, alemão… Vi muita gente diferente, de costumes diversos, de línguas estranhas. Estudavam sobre plantas e animais. Escreviam sobre pessoas e suas manias. Faziam diários e desenhavam paisagens.
A estrada já não era boa. Quando o Império contratou o serviço de um engenheiro alemão, coube-lhe alargar e encurtar o traçado. Vi o instante em que passou, com seus mapas, ferramentas e operários. O caminho foi desviado e o movimento que testemunhava caiu.
Restou-me uma solidão do tamanho desta sesmaria.
Aqui era a Rocinha, Engenho ou Chapéu D’Uvas. Hoje, virou Paula Lima e Vileta.
Quem me vê parado, ereto e com uma cruz escavada em cada lado, pensa que aqui tem gente enterrada. Não reviram a terra. Respeitam o sono do suposto falecido.
Anos atrás, passaram uma linha de transmissão de energia aqui por cima.
Agora me chega a notícia que vão fabricar aço por perto. O alvoroço é grande. Tenho testemunhado propostas e especulações. Não fui chamado pra negociar. O que ficou do caminho do índio e do bandeirante vai desaparecer. Minha vigilância e as lembranças sumirão também.
Ainda não sei o que vão fazer comigo.
Talvez me aproveitem como pedra no alicerce de algum galpão ou me queiram aqui mesmo – onde estou – guardando minhas memórias e que também são suas.
