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Histórias de um aprendiz

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Isaac Bernat estava em Porto Alegre para um festival internacional de teatro. Escolheu, entre outros, o espetáculo "Le costume", produção de 1999 dirigida por Peter Brook. Na ocasião, o diretor britânico era o alvo de Bernat, professor da Casa das Artes de Laranjeiras e da UniverCidade, no Rio. Diante do ator africano Sotigui Kouyaté, narrador que introduzia a história de adultério e vingança, as coisas mudaram. O impacto foi grande. Isaac, então, passou a seguir o rastro de Sotigui, nascido em Mali e criado em Burkina Faso. "Minha tese de doutorado é sobre ele. Inicio o texto relatando esse momento. Foi uma revelação."

O pesquisador esteve recentemente na cidade para ministrar um módulo no curso de pós-graduação Comunicação e Arte do Ator, da UFJF. Foi como se Kouyaté, morto em 2010, ficasse à espreita. "Ele se mantém sempre presente", menciona Isaac, que chegou a viver um tempo na África e era chamado de filho por seu mestre. "Para os africanos, a casa é o local do encontro, onde eles moram, trabalham, convivem. Os quintais se unem, as portas ficam abertas." Naquele território desconhecido, o professor se deparou com a alegria, num contraponto à pobreza, e com um islamismo mais aberto, acolhedor de várias culturas. De acordo com ele, a situação no lugar está mais complicada hoje. "Não sei se conseguiríamos sair às ruas com tranquilidade", lamenta, ressaltando a necessidade de se observar a existência de várias Áfricas.

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Antes da viagem, Isaac participou de algumas oficinas com Sotigui no Rio. Encantou-se pela forma como o ator, um griot, posicionava a técnica em segundo plano para dar vazão à sensibilidade. Conforme enfatiza o pesquisador, os griots são o sangue que corre na sociedade africana, responsáveis por cuidar da memória coletiva, zelando pela palavra e oferecendo aconselhamentos. Não foi difícil retirar lições teatrais desse universo. "Depois de conhecer o olhar de Kouyaté sobre o trabalho e a vida, comecei a relativizar mais as coisas e a compreender o contato com a plateia. Não sou um contador de histórias, como ele, mas passei a ser um facilitador", resume o professor.

 

Outro ensinamento diz respeito ao controle da vaidade. Na visão de Isaac, Kouyaté – que dirigiu peças e participou de vários filmes, inclusive "London river – destinos cruzados", pelo qual foi premiado em 2009 no Festival de Berlim – nunca teve conflitos muito aparentes, nem deixava o ego tomar frente. Judeu, mas pouco religioso, o pesquisador carioca se interessou pelos mistérios daquele discurso e pelo respeito à tradição. "Sotigui sempre tirava os sapatos para entrar na casa da mãe." O compromisso com a verdade e com a força da palavra também são questões que chamam a atenção. O entrevistado relembra uma situação em que convidou o filho de seu mestre para assistir a um espetáculo seu no Rio. Mesmo de cama, o rapaz – também griot, já que o título é passado de geração para geração – compareceu ao evento. "Atualmente, poucas pessoas assumem o que dizem ou dizem o que pensam. Temos muito a aprender com a África."

Segundo Bernat, os contos apresentados por Sotigui, utilizados durante o curso na UFJF, possuem três qualidades: são úteis, fúteis e educativos. Nesse sentido, esbarram na ética, na poesia e podem engendrar transformações. "A postura dos africanos diante da oralidade pode ser resumida pela expressão usada antes de ir ao teatro: ‘vou clarear o meu olhar’." De acordo com o texto "A tradição viva", do escritor malinês Amadou Hampâté Bâ, nenhuma tentativa de se penetrar a história e o espírito dos povos africanos tem validade se não se apoiar na tradição oral. "Entre as nações modernas, onde a escrita tem precedência sobre a oralidade, onde o livro constitui o principal veículo da herança cultural, durante muito tempo julgou-se que povos sem escrita eram povos sem cultura. Felizmente, esse conceito infundado começou a desmoronar (…)."

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Com relação ao teatro atual, Isaac clama por bons textos. Ele salienta que esse não é o único caminho da arte dos palcos, mas sente falta do foco na dramaturgia. Ainda assim, elogia algumas iniciativas cariocas. "Sei falar somente sobre o Rio, porque estou lá, e o Brasil é um país muito grande. De qualquer maneira, carecemos de intercâmbio." O pesquisador também não fica à vontade para afirmar se o mundo, como um todo, está indo na direção certa. De acordo com ele, cada pedaço do planeta tem suas particularidades. Se uns resolvem melhor seus problemas, outros arrastam longos anos de embates. Mas Isaac cultiva olhos otimistas: "de forma geral, os indivíduos e os pensamentos estão se modificando".

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