Sempre recorrente diante do olhar real, o abismo entre realidade e ficção pode ser muito mais estreito que a forma como o espectador contempla o que está representado nas telas e nos palcos. O hibridismo entre estas fronteiras ganhou força na pesquisa da diretora teatral Christiane Jatahy, que, ao transpor para o cinema sua pesquisa sobre a desconstrução do previsto, avançou o território do pré-estabelecido. "A mistura do real com o ficcional é muito grande, e experimento muito, afinal o que é real ou ficção é um ponto de vista. A grande questão da filosofia é ‘onde está o verdadeiro?’, pois o ficcional pode ser verdadeiro, e a realidade também", ela diz, referindo-se ao longa "A falta que nos move", que estreia, hoje, em sete cidades brasileiras, incluindo Juiz de Fora.
Inicialmente uma peça de teatro, o filme traz uma história de amizades e familiares na antevéspera do Natal de 2008. Aparentemente um enredo clichê, a trama, cujo cenário único é a casa da diretora no Rio, revela bem mais que conflitos simplórios do cotidiano. É um filme dentro de um filme. Em cena, cinco amigos se encontram com o objetivo de fazer um longa-metragem, enquanto esperam para jantar uma pessoa que não sabem quem é, nem se vai realmente aparecer. A partir desse encontro, alegrias, frustrações, ausências e paixões vêm à tona no limite da tensão.
"Desde o momento em que comecei a ensaiar, tive uma experiência única, porque gravei o ensaio, levando propostas para os autores construírem. Percebi, com isso, que, durante os ensaios, eu tinha um filme, além do fato de ter a questão do ator na ação, para lá do naturalismo, pois parece que este está retratando a vida. E tudo fica muito potente quando cai no cinema, pois aproxima o espectador", define Christiane, que optou por utilizar os nomes dos atores em cena. "Os nomes próprios têm força, pois quando você escuta seu nome, a reação é diferente."
Em 13 horas ininterruptas de filmagem por três câmeras, Cristina Amadeo, Daniela Fortes, Marina Vianna, Kiko Mascarenhas e Pedro Brício formam o elenco (o mesmo da peça) dirigido por mensagens de texto de celular, sob a supervisão de Walter Carvalho na direção de fotografia. "Fiz assim em função do que acontecia no momento, não estava incluído no roteiro que eles até precisavam seguir, mas também deixar rolar o que viesse, e que isso fosse absorvido como se fizesse parte", explica a diretora. "O filme fala sobre as relações e como cada um se afeta dentro de uma relação familiar ou amorosa. Este grupo tem uma visceralidade inteira, e, no final das contas, o que é importante é o fato de ser muito humano, além de abordar uma experiência autoral que faço no teatro", conclui.
Diferentes linguagens
"’A falta que nos move’ compõe a trilogia da minha pesquisa. Queria tratar da fronteira entre o documentário e todas as questões ligadas ao teatro, muito parecido com um não-teatro, daí minha questão de como levar isto para o cinema", destaca a diretora, há 15 anos à frente de produções teatrais. "Não queria filmar a peça e nem fazer roteiro com circunstâncias cinematográficas, mas criar dispositivos capazes de levar este estudo para a sétima arte."
A notória intimidade entre os atores/personagens é fruto de três anos de dedicação ao projeto, além dos ensaios para a peça, que começaram em 2004. Christiane informa que, a despeito dos 90% de ficção do longa, o momento em que a personagem Cristina bate a cabeça e sai ferida é 100% real, o que nutre a viabilização de deixar a pessoa transparente por trás do papel interpretado. "A beleza do personagem é deixar o ator ser visto. Brinco com esta coisa de colocar a câmera na personagem e na pessoa, o que fica claro no jogo em que um está encobrindo o outro em diferentes momentos e vice-versa", ela enfatiza, informando que, além da pré-estreia no Festival Primeiro Plano 2010 por aqui, o filme viajou para outros países, como Alemanha, Argentina e Colômbia.
Convicta das dificuldades do cinema autoral no Brasil, Christiane garante sua pretensão de seguir em frente no setor. "Depois de um ano editando o filme, cujo material bruto das três câmeras continha 39 horas de duração, estou pensando seriamente em não sair do cinema, adorei o processo da ilha de edição", diz.
A FALTA QUE NOS MOVE
Alameda 3: 16h, 19h50 e 21h50
Classificação: 14 anos
