Não é de hoje que adquirir ou ser presenteado com objeto de arte confeccionado por amigos se tornou algo comum nas rodas de intelectuais e artistas. Após o falecimento do doador ou do presenteado, uma alternativa encontrada por muitas famílias para manter vivo o trabalho do autor e a memória de quem conservou a obra é novamente doar ou negociar com algum instituto cultural. Este, por sua vez, pode emprestar o material a outra unidade como forma de possibilitar que mais gente tenha acesso à arte. Todos esses passos foram calcados pelas obras da artista plástica portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, que integram o acervo do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) da UFJF.
Recentemente, o renomado Instituto Tomie Ohtake, de São Paulo, solicitou ao Mamm o empréstimo de cinco trabalhos para compor a exposição "Vieira da Silva e Arpad Szenes: a ruptura do espaço na arte brasileira", que ficará em cartaz entre 17 de maio e 26 de junho. A notícia foi comemorada pelo pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves. "É a segunda vez que as obras de Vieira da Silva são emprestadas a uma instituição de renome. Na primeira vez, concedemos ao Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM)", conta.
De acordo com Pinho Neves, as cinco pinturas integram a coleção de Murilo Mendes. "O pedido de empréstimo demonstra a relevância dessa coleção." Ele ainda destaca que o casal de artistas Vieira da Silva e Arpad Szenes tinha uma relação de amizade estreita com Murilo Mendes. Além das obras de arte doadas por eles a Murilo, correspondências trocadas entre os amigos também fazem parte do acervo que hoje pertence ao Mamm. São 110 documentos, enviados entre 1941 e 1975, que incluem poesias, cartas de cumprimento, pequenos bilhetes e textos que abordam publicações do poeta e exposições do casal.
Restaurador de artes plásticas do Mamm, Aloísio Nunes de Castro informa que a coleção de Murilo Mendes conta com 16 obras de arte de Vieira da Silva e sete do esposo, entre pinturas, gravuras e desenhos. O casal, segundo Pinho Neves, merece destaque pela produção artística conceituada, especialmente a de Vieira da Silva, que é considerada uma das maiores artistas plásticas da geração modernista de Portugal.
Conforme informações da assessoria de imprensa do Instituto Tomie Ohtake, além dos cinco trabalhos de Vieira da Silva pertencentes ao Mamm, cerca de outras 20 obras, originárias da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (de Portugal), do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, da Coleção Roberto Marinho, além de fotos do acervo do Instituto Moreira Salles, são cogitadas para a exposição "Vieira da Silva e Arpad Szenes". A curadoria é de Paulo Herkenhoff, e o objetivo da mostra é propor discussões sobre o diálogo da obra do casal com a arte contemporânea brasileira e seus desdobramentos.
Impressões estrangeiras
O vínculo de Vieira da Silva e Arpad Szenes com o Brasil começou na década de 1940, quando a dupla se exilou no país devido aos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial e ao fato de Szenes ser judeu húngaro. Mas não foi apenas o pintor que enfrentou problemas com a região de origem. Nascida em Portugal, Vieira da Silva se tornou apátrida durante o governo do ditador Antonio Salazar e precisou partir para a França, onde viveu e se naturalizou. No Brasil, ela foi vencedora do Grande Prêmio Internacional de Pintura da 6ª Bienal de São Paulo, em 1961.
Por aqui, eles receberam apoio, atuaram no ateliê "Silvestre", que também funcionava como local de debates, e fizeram amigos, como Murilo Mendes, Cecília Meireles e Carlos Scliar. No catálogo da exposição "Arpad Szenes + Vieira da Silva: período brasileiro", que ocorreu no Rio de Janeiro em 2001, foi publicada a impressão da artista sobre o país: "O que mais me marcou no Brasil foi o encontro de pessoas de grande qualidade. Aprendi imenso sobre literatura, música, até mesmo sobre a Europa".
Tomie Ohtake
Além da importância do casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, o espaço que sediará a exposição em São Paulo também remonta a história de importante personalidade das artes plásticas. Tomie Ohtake, que empresta o nome ao instituto criado em sua homenagem e administrado pela família, nasceu em 1913 em Kyoto (Japão). Veio para o Brasil em 1936 e começou a pintar com 40 anos, integrando o grupo de pintores nipo-brasileiros.
De acordo com o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, "ela é uma das grandes expressões do país na arte abstrata". A pintora naturalizou-se brasileira na década de 1960 e até hoje está em atividade, sendo considerada a diva das artes plásticas. O Instituto Tomie Ohtake foi criado em 2001 com o objetivo de apresentar novas tendências da arte brasileira e internacional, bem como referenciar as produções dos últimos 50 anos, período que coincide com a atuação de Tomie Ohtake.
