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Prosa de uma tarde inesperada

luis girafa e o curador renato cunha durante montagem da mostra

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Luis Girafa e o curador Renato Cunha durante montagem da mostra
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Luis Girafa e o curador Renato Cunha durante montagem da mostra

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“Que saudades eu tenho dessa bela capital europeia. Lá conheci grandes amigos, também considerados anônimos. Este recado é para muitos deles, dos anônimos, que são moradores do céu aberto do Rossio, das avenidas, das ruelas, dos largos que albergam gentes de todas as classes sociais, todos juntos como um buquê de rosas vermelhas, amarelas.” A intenção do escritor angolano Artur Riscado ao escrever essas palavras era que elas fossem lidas na abertura da exposição “Anônimos do Rossio”, de autoria do amigo e fotógrafo juiz-forano radicado em Brasília Luis Jungmann Girafa. Contudo Artur morreu em setembro de 2013, pouco antes de as imagens ganharem as galerias. A mostra já passou pelo Distrito Federal e por Fortaleza e agora chega a Juiz de Fora, com abertura nesta próxima quinta-feira, às 20h, no Espaço Cultural Correios.

Girafa nada planejou, as fotos simplesmente aconteceram. Ele conta que estava em Portugal por mais de 30 dias quando encontrou com Artur e a mulher Ana. Os dois estavam a caminho de Londres para o casamento da filha. Durante um café com conhaque na varanda da Pastelaria Suíça, despretensiosamente, Girafa se pegou fazendo fotos de pessoas que passavam diante de seus olhos. O amigo contador de histórias, que também é compositor do hino nacional de Angola, conhecia bem aquele cenário, já que, forçado pelos duros anos da ditadura militar, tornou-se indigente nas ruas de Lisboa. “Artur e eu ficamos olhando a praça, proseando lembranças dele por Lisboa, descobrindo e sendo descobertos pelos personagens locais. Vieram nos vender de tudo, óculos, relógios, iClones, drogas. Não compramos nada. Turistas atípicos recusando ofertas sensacionais. Entre uma coisa e outra, eu ia fazendo fotos das pessoas que passavam diante de nós.”

Antes de se tornar uma exposição com 30 registros de 60 x 40 cm em preto e branco, “Anônimos do Rossio” se materializou em livro de mesmo nome, com selo da “Siglaviva” (produtora de cinema e editora). Essa foi a primeira publicação de seu autor, que também é artista plástico, cineasta e fotógrafo. Rostos e corpos de desconhecidos, que no Rossio trabalhavam ou se encontravam foram para as páginas da obra, mas também alguns incidentes de percurso. “O que eu consideraria, talvez, um erro de fotografia foi justamente o que me levou a fazer o livro”, diz ele, indicando uma imagem em que uma mulher está completamente desfocada. Em outra, dois guarda-chuvas escondem aqueles que os seguravam.

Uma fina sugestão do remoto

“E a feliz escolha pelo preto e branco faz com que estas fotografias sobrelevem a questão do anonimato, pela fina sugestão do remoto”, diz o curador, o cineasta, escritor e proprietário da Siglaviva, Renato Cunha, em texto de abertura. “O anonimato vem mais da questão de as pessoas estarem encobertas, recortadas, algo feito intuitivamente pelo Girafa”, completa Renato, explicando que a ideia da mostra é não seguir uma ordem determinada, o que justifica o fato de a disposição dos quadros ser alterada a cada vez que a exposição entra em cartaz. Assim como no livro, na galeria, frases poéticas criadas por ele a partir de textos de famosos autores portugueses – Fernando Pessoa, Gonçalves Magalhães e Florbela Espanca, entre outros, – acompanham as imagens. “Uma cidade pode ser tudo. Pode ser o cais, o alto-mar; o deserto, a turba. Uma cidade pode até chover”, versa ele em um dos escritos dispostos aleatoriamente ao lado das fotos. Na entrada do Espaço Cultural, duas imagens de três metros de altura reproduzem a frente e os fundos de um monumento do Rossio.

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Girafa não tem predileção por uma foto ou outra, ainda que aponte como a mais emblemática desse recorte a que apresenta o chão da praça portuguesa molhado de chuva. “Ela tem, em primeiro plano, a pomba, que é uma característica das praças do mundo, e os anônimos refletidos na água. Também revela a arquitetura do local”, explica o fotógrafo, cujo currículo traz mais de 30 exposições, no Brasil e no exterior. Radiante por voltar a sua terra natal, de onde também é sua mulher, Girafa é modesto na nova arte que experimenta. “Comecei a fotografar por conta do meu trabalho com pintura. É uma continuidade. Eu só fotografava manchas, e a fotografia é um bichinho que te pega. Tenho um certo domínio, mas não é exatamente a técnica imprescindível, é mais uma questão da expressão. Sinto-me mais como um artista plástico que fotografa”, afirma. A quem Girafa dedica os trabalhos? Não poderia ser outra pessoa, a não ser o companheiro de prosa no Rossio. “Este livro, então, é a possibilidade de guardar a poética dessa tarde, que foi acontecendo inesperadamente.”

ANÔNIMOS

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DO ROSSIO

Abertura nesta quinta, às 20h. Em cartaz de segunda a sexta, das 10h às 18h, sábado, das 10h às 14h. Até 30 de maio

Espaço Cultural Correios

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(Rua Marechal Deodoro 470 – Centro)

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