O que é uma fotografia antiga senão uma fração do tempo eternizada num pedaço de papel, que deliciosamente serve, a qualquer momento, para a apreciação de todos e para fazer viajar nas lembranças. Sem deixar de lado o tom nostálgico de quem relembra o passado, o blog Maria do Resguardo (mariadoresguardo.blogspot.com) convida a população a doar uma cópia das fotos amareladas, muitas vezes esquecidas nos álbuns de família. O resultado é um acervo de mais de cinco mil fotografias antigas de Juiz de Fora, muitas delas raras, postadas. Além de reviver a memória de eventos, locais e pessoas que fizeram parte da história da cidade, diversas páginas da rede se propõem a lançar questões atuais ao debate, caso do grupo do Facebook Antiga Juiz de Fora. Restauração de monumentos culturais, preservação do meio ambiente e resgate de costumes próprios à população local são algumas dessas discussões.
Em meio aos discos e CDs de hard rock, heavy metal e rock progressivo, o fundador do blog Maria do Resguardo Marcelo Lemos não esconde a predileção por raridades. O hobby de colecionar antiguidades deu origem, há quase dez anos, a um dos maiores acervos de fotografias antigas de Juiz de Fora. Proprietário da Ethereal Records, Marcelo fez da loja de artigos musicais ponto de encontro de colaboradores. Desde 2009, ele publica na página da web imagens de seu acervo pessoal, assim como material cedido por repórteres fotográficos, profissionais e amadores. Outras dez mil imagens já foram arrecadas e aguardam o momento de serem postadas ao lado dos raros registros da construção da antiga prefeitura da cidade, da montagem da torre da extinta Rádio Industrial e das históricas enchentes do início do século XX.
Estimando ter alcançado mais de 200 mil acessos desde o início do projeto, o fundador define o blog como um grande álbum aberto. Disponibilizando essas fotos, estamos resguardando a história de Juiz de Fora. Essas imagens são patrimônio da cidade e dos moradores, e poderiam se perder se ficassem escondidas nos álbuns de família, pontua. O tratamento das imagens e a publicação em alta resolução são vistas por Marcelo como aspectos fundamentais à preservação do acervo. Muitas vezes, encontramos fotos antigas em sites, mas, quando vamos abri-las, estão muito pequenas, com resolução muito baixa, sendo impossível reproduzi-las. A qualidade das imagens assegura sua divulgação e eternização, explica.
Apesar da ampla divulgação de um material que considera pertencente aos juiz-foranos, o fundador afirma ter preocupação constante com a autoria das imagens expostas. Consigo a grande maioria das fotografias diretamente com as pessoas que as tiraram ou suas famílias e dou o devido crédito aos seus autores.
Pesquisas acadêmicas, artísticas e jornalísticas (caso de imagens publicadas nos jornais O Tempo e O Dia’) já utilizaram o blog Maria do Resguardo como fonte, segundo seu idealizador Marcelo Lemos. Na exposição Palimpsesto, programada para este mês no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, projeções de imagens da Juiz de Fora atual vão se transformando até revelarem fotografias antigas que ilustram os mesmos locais. A exposição interativa, que tem apoio da Lei Murilo Mendes, tratará do patrimônio que é perdido diariamente, de acordo com o artista plástico e idealizador da mostra Rafael Fernandes. Procuramos tirar as fotos atuais no mesmo ângulo das antigas, que, em sua maioria, conseguimos no site ‘Maria do Resguardo’, conta Rafael, que utiliza o acervo do blog em suas pesquisas há cerca de dois anos.
Do balcão para a rede
As antigas reuniões de amigos no Balcão Drinks, que funcionava no bairro São Mateus em meados de 1980, deixaram as mesas de bar para, 30 anos depois, chegar às redes sociais. Os amigos – hoje médicos, advogados, professores, artistas plásticos – continuam a se encontrar e fazer novas amizades na comunidade do Facebook Antiga Juiz de Fora. Amantes assumidos do saudosismo – e por que não do nostálgico e até do cafona -, com bom humor, a turma já conta com cerca de 400 membros.
Elegendo como principal tópico a postagem de fotos da cidade, a turma do Balcão faz hoje o caminho inverso e retorna às mesas de bares – ou de cafés, como o Josephina -, com diversos novos amigos cultivados nas páginas virtuais. Resgatamos juntos o que havia de bom na Juiz de Fora de antigamente e abrimos espaço para novos temas, resume a médica Tânia Pimentel. Em menos de um ano na rede, os integrantes do Antiga Juiz de Fora já marcaram encontros (presenciais) em quatro ocasiões. Participam dessas reuniões amigos que se conhecem há 35 anos e que acabaram de se conhecer pelo Facebook, comenta a artista plástica Rita Otoni.
De uma sobremesa não mais encontrada na cidade a um monumento destruído pelo tempo, os comentários percorrem décadas e transitam pelos costumes e pela história da cidade. Da fotografia da fachada das Lojas Americanas em 73 seguiram-se os comentários: Eu já chegava à aula pensando na ida às Lojas Americanas depois… O sanduíche mudava, cachorro-quente, cheeseburguer, mas a sobremesa… esta era sempre a mesma deliciosa banana split com sorvete Kibon, sentado nos banquinhos da lanchonete que havia na saída para a Marechal, relembra o usuário Suca De Souza. Caramba! Achava que só eu me lembrava dessa banana split! Eu ficava sem almoçar para poder comê-la, identificou-se Kátia Barone.
O fundador do grupo, João Carlos Figueiredo, o Coruja, que se reveza a trabalho entre as cidades de Juiz de Fora e Ilhabela, em São Paulo, vê na página uma importante ferramenta de debate e mobilização. São diversos temas levantados diariamente, como a preservação dos casarões históricos, da conscientização em relação à arborização e da necessidade de ciclovias na cidade, esclarece o advogado, professor e DJ. Como exemplo, um dos coordenadores do grupo, o representante comercial Sérgio Barone, cita a discussão desencadeada por uma fotografia atual de um casarão, situado próximo à Estrada União e Indústria. A imagem imediatamente nos remeteu à casa histórica ao lado do antigo Cine Excelsior, destruída há alguns anos. E a partir de um comentário, surgem muitos outros, assim como novas informações, conta.
Os comentários saudosos, críticos e divertidos, que se prolongam por horas, despertaram na doceira Glória Peixoto, residente há três anos em Brasília, a vontade de retornar à Juiz de Fora, onde morou durante oito anos. Aproveitando a viagem de visita ao pai no Rio de Janeiro, a doceira viu a oportunidade de conhecer pessoalmente os amigos virtuais. Nunca havíamos nos visto, mas é como nos conhecêssemos há muito tempo. Conversar pela internet com essas pessoas, ver fotos da cidade, são formas de matar a saudade de Juiz de Fora. A cumplicidade e a simplicidade do grupo são reflexos das pessoas que vivem aqui, avalia.
A agilidade das respostas obtidas em determinadas discussões seria algo impensado em um bate-papo fora da rede. A advogada Tatiana Guarçoni conta que, certa vez, discutiram a dificuldade encontrada pelos deficientes físicos na travessia em um trecho do Centro da cidade. Na ocasião, um vereador, membro do grupo, se manifestou e providenciou melhorias no local. Impressionante, conclui.
