
Sim, Israel, a vida é meio e não fim. Sim, compreendo que nem todas as respostas são imediatas. Por isso, fui buscar em seu perfil no Facebook a réplica da pergunta que lhe fiz. Onde pensa em chegar? A mim, disse não ter um objetivo definido. E na internet completou: “Só me preocupo em ir, porque a vida é meio e não fim, porque a felicidade não me aguarda no final da estrada, como um prêmio, mas está justamente presente no caminhar (e até nos tropeços). O medo da morte abala, mas e o medo da vida? Só ele paralisa”. Agora, passado nosso contato, entendo tudo que disse e digiro, emocionado, suas lições na companhia de sua cadeira.
Aos 25 anos, Israel Pinheiro Marques chegou onde muitos desejam estar. É funcionário público da UFJF, formado em direito há dois anos e pós-graduado há menos de um, e o mais novo aluno do curso de história, da mesma instituição. Rodeado de amigos, com uma bela namorada (com quem planeja se casar em 2016) e uma família atenciosa, ele acaba de contar todo esse percurso em um livro, “Roda sem asas”, ainda sem data de lançamento. “Não tenho nada de diferente a dizer, a não ser a minha história”, comenta ele, paraplégico aos 12 anos. “Muitas pessoas veem a cadeira como um obstáculo, uma adversidade, simplesmente. Não deixa de ser, mas ela também é minha companheira. Foi ela quem me ajudou a enxergar a vida de uma forma diferente, me ensinou a ser mais paciente, mais tolerante e a perceber a beleza das coisas pequenas.”
O tempo dos chutes
Agitado desde muito pequeno, Israel conta ter sido uma criança muito explosiva. “Frequentava psicólogos desde os 8 anos. Tudo eu resolvia no chute, sempre tive muita força nas pernas. Jogava bola, andava de bicicleta e sempre tive muito vigor físico. Comecei a formar minha turminha na escola e marcava brigas”, lembra. No início da puberdade, tudo mudou. “Tive uma lesão medular por esquistossomose, aquele vermezinho do caramujo que a gente estuda nos livros de biologia. Ele se alojou na medula e impediu os movimentos. É um fenômeno bem raro, e, na época, meu infectologista disse que isso acontecia com um em cem mil casos de infecção”, diz. “A deficiência me limitou os movimentos, mas, por outro lado, não chutei mais ninguém”, completa.
Da noite para o dia
Sem plano de saúde, Israel recebeu diagnóstico de cálculo renal, inicialmente. Depois, um médico de Belo Horizonte, de passagem por Juiz de Fora, se envolveu com o caso e deu o veredicto. “Meu processo de perda de movimentos foi, literalmente, da noite para o dia. De madrugada, senti vontade de ir ao banheiro e não conseguia me levantar”, recorda. “A imagem que me marcou foi do meu pai fechando a porta. Aquela foi a última vez que vi minha casa, meu quarto, meus brinquedos…”, emociona-se ele. Filho de um economista aposentado e de uma dona de casa, ele foi, então, morar com a avó até que uma nova residência, adaptada, ficasse pronta. “Na adolescência, passar por isso é bastante complicado, porque vivemos em uma sociedade que exige a forma, a aparência. Quando uma pessoa te pergunta o que você faz da vida, por trás disso está alguém querendo mensurar em dinheiro o quanto você vale”, comenta. Foi então que começou a aprender a tocar violão, instrumento do qual hoje dá aulas particulares.
Sem receios
Mesmo tendo que passar por diversas internações e cirurgias (“Tenho duas hastes e seis parafusos de titânio na coluna”, conta), o garoto não parou de estudar. Concluiu, sem reprovações, o ensino fundamental e médio, e engatou na faculdade, onde conviveu com problemas de acessibilidade. Na faculdade, sofreu com a ausência de rampas, elevadores inativos, banheiros adaptados fechados, entre outros obstáculos, como os que diz encontrar pelo bairros. “Andar nas ruas é um desafio, principalmente nos bairros. O Centro, apesar das limitações, ainda é razoavelmente acessível. A maioria dos problemas que enfrento é no comércio. No Centro, as lojas têm, pelo menos, um degrau”, aponta.
Coordenador de um grupo de jovens no Centro de Estudos Espíritas Garcia e palestrante, ele hoje trabalha na universidade e não encontra dificuldades em seu trajeto dentro da Faculdade de Educação, onde atua na coordenação de estágios. Ele, que tirou sua carteira de habilitação na primeira prova, chega de carro. “Minha noção de espaço é boa por conta da cadeira. O carro é só uma cadeira grande”, brinca ele, que, ao comando do fotógrafo ordenando que “andasse” em direção a ele, fez troça dizendo: “Andar vai ser difícil”.
Bem-humorado, Israel dribla sua condição e dores diárias, com as quais aprendeu a conviver sem remédios. Já viajou para a Argentina e Venezuela (onde adquiriu uma “quase fatal” febre tifóide) e é cheio de planos. Pergunto-lhe, então, se chama isso de resignação. “Não chamo de vitória, porque não estou competindo com ninguém. Sigo as palavras de Jesus: ‘No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo’. Ele venceu o mundo, e eu fiz todas essas conquistas para mim, apenas”, responde. Mas, e quando pensa em contar sua história para o mundo? Ele titubeia. Sabe que tem vencido e não se deixado paralisar.

