Hoje, a música pernambucana convive, lado a lado, com um novo e estimado legado de compositores e suas variáveis levadas temperadas com parafernálias percussivas e eletrônicas. Mas foi em 1975 que um conterrâneo do – que conhecemos como – manguebeat deu o grito de alforria para o novo. O som que surgia e explodia para o restante do Brasil descerrou o valor do suingue nordestino do compositor recifense Di Melo. Seu disco de estreia (único da carreira e homônimo) é considerado um épico, principalmente por contar com as participações de Heraldo Dumonte nas violas e nos violões, Hermeto Paschoal nas flautas e nos teclados, Cláudio Bertrame no contrabaixo, Ubirajara (pai de Taiguara) no sintetizador, Dirceu na bateria, Bolão no sax, Capitão Piston (em vários instrumentos) no coro de vozes femininas de Eloá, Geraldo Vespar nos arranjos e no violão, e do maestro José Briamonte.
O resultado? Mais que revelar ao mundo o suingue da black music tupiniquim com pitadas de outros ritmos, Roberto de Melo Santos havia se consagrado como importante expoente da música independente. Ainda teve a participação especialíssima de um cidadão cujo nome eu não sei, ele dispara, pelo telefone, do quarto do hotel onde está hospedado em Juiz de Fora, para participar da segunda edição juiz-forana do Grito Rock, hoje. Só sei que o cara tocava com o grande Astor Piazzolla que fazia um show em São Paulo na época da gravação e que deu um toque especial (no bandoneon), uma pitada do quero mais e mais e mais no disco. Além disso, foi em 1975 que Di Melo havia se tornado a mais nova grande conquista da EMI-Odeon, gravadora que lançou seu álbum e jeito único de musicar a alegria.
Você persegue determinada coisa durante um longo período, e a preocupação é sempre a mesma: fazer música da melhor qualidade, ressalta o compositor. A partir deste disco, fiz mais dez com o meu dinheiro, só para catálogo, além de 12 canções inéditas com Geraldo Vandré, aquele mesmo do ‘caminhando e cantando’…, ele informa, canta e adianta que pretende lançar dois CDs (sem nome) e dois livros de poemas musicados (A Minicrônica da mulher instrumento eO bicho voador) ainda este ano.
Mas se 1975 foi o ano de ouro para o músico, nesse meio tempo, Di Melo não parou de se ramificar e perseguir o rumo das artes como um todo, seja nas áreas do canto, da composição, da poesia e do entalhe, ou seja através da pintura e da interpretação. Violeiro, cancioneiro, nordestino-brasileiro, ele se descreve ainda como pele, cheiro e pigmentação. Adoro cores, luzes e sabores, mulheres bonitas, cheirosas e sensíveis sempre me emocionaram. Fascinam e excitam, aliás, mexem com a minha libido, provoca o cantor de 62 anos.
Com mais de 400 músicas não gravadas no circuito, o compositor promete balançadas com jazz, baladas românticas, pop, samba-rock, samba, bossa. Enfim, uma mistura sem fim, diferentes estilos para todos os gostos. Sempre fiz e continuarei fazendo música da melhor maneira, afinal, esse suingue é nato, com toda a veracidade que são todos os ‘brasis’, ele sublinha. O som de Pernambuco possui características próprias como na Bahia e/ou algum estado do Sul. Todos os lugares têm o seu cantar, sua vestimenta, seu ‘falacear’, sua comida, ‘degustear’…
Por aqui pela primeira vez, Di Melo é o convidado a encerrar o festival integrado de música independente, de volta ao Cultural Bar esta noite. Ainda estão na programação as bandas Graveola e o Lixo Polifônico, de Belo Horizonte, Vandaluz, de Patos de Minas, além dos juiz-foranos do Radiocafé e do coletivo Vinil é Arte, nesta edição com os DJs Pedro Paiva, de Juiz de Fora, Niggas e Formiga, ambos de São Paulo.
Anderson Fofão Guimarães (percussão e pickups), Ângelo Goulart (bateria), Beto Grizendi (voz e guitarra), Fábio Ramiro (teclados) e Marcelo Castro (baixo) são o elenco da banda Silva Soul, que recebe e acompanha Di Melo, cujo repertório inclui sucessos impressos no disco de 1975 e as novidades guardadas para vir à tona em 2012, inclusive as parcerias com Geraldo Vandré. Isso, para quem garante sobra de balanço, molho, charme e malemolência, não parece nada, ainda mais quando se trata de um exímio representante da imortalidade do suingue que transpõe barreiras geográficas.
Retomada e outras gerações
Impulsionada pela visibilidade adquirida através do filme Di Melo – O imorrível (2011), a carreira do cantor e compositor tomou outros rumos. Mudou muito. Mudou tudo. Você falando comigo agora já é uma mudança, reflete Di Melo, dirigindo-se ao repórter e à nova geração que vem consumindo seu trabalho, sobretudo na internet. Se depender de músicos como Léo Maia e Max de Castro e as respectivas versões para Kilariô e Lindas margaridas, Di Melo ainda continua no patamar classudo da música brasileira, mesmo que, de certa forma, reinventado por gerações menos iconoclastas.
É uma junção do útero ao agradável, ele brinca, antes de confirmar o número de cerca de 400 canções (suas) ainda não oficialmente conhecidas do grande público. Meu som não deixa nada a desejar para o que houve, há e haverá no mercado musical. Digo, repito, atesto e assino embaixo, sem medo de errar e sem falsa modéstia, ele apregoa.
Além do filme (de 25 minutos) e o hiato de mais de 35 anos, o álbum antológico de 1975, prensado novamente em 2011 por iniciativa do DJ e produtor Niggas, do Vinil é Arte, estará à disposição dos fãs esta noite. Primeiro relançamento do selo Brasilis Grooves, de São Paulo, o material foi prensado na fábrica GZ Media, na República Tcheca, onde foram produzidas 500 cópias. Foi uma correria para conseguir a liberação de material e direitos autorais por parte da gravadora (EMI-Odeon) e editora (Arlequim), comenta Niggas, que contou com o financiamento do produtor Dani Turcheto, seu parceiro no Brasilis Grooves. Quando procurei Di Melo, ele me disse: ‘umas 15 pessoas já me procuraram com essa ideia’. Mas não desisti, finaliza o DJ, mais que responsável pela retomada da história viva da música pernambucana conhecida em todo o mundo.
