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‘Pequenas criaturas’ é filme de amadurecimento ambientado em Brasília de 86

pequenas criaturas

(Foto: Reprodução)

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Letícia Sabatella e o ator mirim, Lorenzo Mello, durante coletiva sobre o filme ‘Pequenas criaturas’, na Mostra de Cinema de Tiradentes (Foto: Universo Produção/ Divulgação)
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O filme “Pequenas criaturas”, da diretora Anne Pinheiro Guimarães, parte da dinâmica familiar entre Helena e seus dois filhos, André e Dudu, para criar uma história sobre amadurecimento em uma cidade que parece estar constantemente no futuro. A produção é ambientada em Brasília de 86, um momento que não funciona apenas como cenário, mas se torna chave para entender os dilemas da família que tenta se reconstruir e criar novas possibilidades em meio aos grandes prédios e estradas distantes. Com o mesmo interesse com que filma insetos em suas próprias dinâmicas, o cotidiano dessa família é captado nas miudezas, com detalhes focados como se também fossem seres lunáticos. O filme foi exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, depois de ganhar premiação no Festival do Rio, e segue para disputar o Prêmio Ingmar Bergman no Festival de Gotemburgo, na Suécia.

Logo depois do final da ditadura militar e no início da democracia, Brasília parece uma cidade que vai sendo aos poucos habitada e iluminada. A personagem principal, interpretada por Carolina Dieckmmann, está à deriva na cidade, com os dois filhos, enquanto eles vivem processos formativos em sua vida: o mais velho, André (Théo Medon), é um garoto desajustado que está vivendo os primeiros amores, enquanto o mais novo, Dudu (Lorenzo Mello), transita entre o mundo da imaginação e a concreta realidade com fôlego incansável. “O filme é inteiramente inspirado na minha experiência pessoal. Ele é dedicado à minha mãe, porque comecei a escrever esse filme quando me tornei mãe, e estava sentindo muita falta dela”, contou a diretora à Tribuna.

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Foi nesse momento que ela se deu conta de que estava vivenciando uma das frases ditas pela personagem Helena no filme: “Quando somos jovem, pensamos no futuro, e quando ficamos mais velhos, começamos a pensar no passado”. Ela então começou a se imaginar na situação da mãe em algumas das vivências que compartilharam, durante a infância, quando a família precisou se mudar e se viu deslocada tantas vezes. “Depois que escrevi o roteiro, me dei conta de que cheguei em Brasília na idade do Dudu e fui embora com a idade do André”, revela Anne, que é nascida no Distrito Federal. Apesar de não ser uma narrativa autobiográfica, ela entende que teve muito dela na criação. “Aquelas coisas não aconteceram comigo diretamente, mas é aquilo de pensar nas pequenas coisas que vão te formando e o que vai passando como cotidiano banal enquanto acontecem, mas que anos depois entendemos como foram marcantes”, reflete.

Quando Letícia Sabatella foi chamada para participar do filme, para fazer a personagem Ângela, vizinha de Helena que também enfrenta parte de seus dilemas e que nutre curiosidade pela vida da protagonista, ela também se reconheceu na narrativa. “Eu estava saindo com a minha mãe de uma internação no hospital, depois de ela ter um AVC. E foi para fazer uma história tão íntima (…) É uma personagem que enfrenta uma aridez, mas está junto com duas crianças que fazem esse contraponto com suas evoluções”, comenta a atriz, que ocupa destaque também ao reposicionar essa família entre as novas configurações que se pode ter. As duas enxergam que a obra lida com a ideia de futuro, tantas vezes idealizada, de uma perspectiva ingênua da criança, mas também decepcionante do adulto. E transita sem encontrar respostas sobre o que ainda está por vir.

Com mais de 30 anos de carreira, Letícia Sabatella teve a oportunidade de colaborar com narrativas que colocassem as mulheres como protagonistas (Foto: Universo Produção/ Divulgação)

Novas potencialidades

Ao longo dos mais de 30 anos de carreira, Letícia Sabatella já fez diferentes papéis: Maria, em “Hoje é dia de Maria”, Ana em “Romance” e Latifa em “O clone”, apenas para citar alguns. Mas foi colaborando com narrativas que colocassem mulheres como protagonistas e tencionassem seu papel na sociedade que encontrou um caminho que valoriza cada vez mais ao escolher seus projetos. “Administrando nosso olhar para buscar narrativas que realmente falem sobre um ponto de vista com que não estamos muito acostumados, porque predominantemente temos um ponto de vista masculino e patriarcal. (…) É uma forma de melhorar o nosso olhar sobre a construção dessa sociedade e a construção desses valores”, diz ela.

Não apenas pelo gosto pessoal, ela percebeu que para descobrir novas potencialidades era preciso seguir esse caminho mais próprio — e, como na personagem Ângela, também instigar outras mulheres que estão ocupando espaços no setor audiovisual. “Quando entramos no campo da arte cênica e arte visual, você se apaixona pelo fazer. Você se apaixona por uma história e quer contar essa história, e por isso acaba se encaixando em diversas áreas. (…) Tenho descoberto essas potencialidades porque uma mulher, com 54 anos, tem que escrever as personagens que quer fazer. Você tem que construir a sua narrativa e não esperar que te convidem o tempo todo”, conta.

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‘Luz do filme’

Lorenzo Mello e Théo Medon são os atores mirins de ‘Pequenas criaturas’, considerados a ‘luz do filme’ (Foto: Universo Produção/ Divulgação)

Para Letícia Sabatella, a luz do filme vem justamente dos atores mirins, que dão vida aos personagens que se movimentam, brincam, brigam, arquitetam e se aventuram em meio àquela cidade. “É uma produção que fala dessa família que está se entrosando, e eles preenchem a tela de vida”, diz a atriz. Mesmo antes de escalar os atores, a diretora já sabia bem como queria que Dudu fosse: um personagem elétrico, mas doce, que fosse cheio de sonhos e generosidade em relação ao outro. Mas sabia que não seria fácil encontrar alguém que, em tão nova idade, conseguisse exprimir tudo isso — até que conheceu Lorenzo Mello. “Eu amei fazer esse filme. Foi meu primeiro filme, não tenho nem palavras de tão bom que foi”, comenta ele, hoje com 9 anos.

Essa experiência também foi decisiva na vida de Théo Medon, que percebeu o próprio amadurecimento, enquanto ator, ao longo da produção. “Esse personagem me colocou em um lugar que acho que é o mais difícil para um ator fazer, que é de interpretar tudo no mínimo, nas pequenas expressões. É encontrar uma forma de dar tom para um cara que é introvertido, que reage pouco”, conta ele. E foi assim que também entendeu a força que tinha em se reconhecer capaz de pensar essa história enquanto um ser criativo. A história contada por Anne, afinal, está sempre colocando essas posições em perspectiva. “Lanço a questão deles serem ‘Pequenas criaturas’ em relação a quem. É sempre uma perspectiva – do inseto, do adulto para a criança e até a maior de fora, sem dar muitos spoilers”, comenta ela.

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*A repórter viajou a convite da Mostra 

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