
Mudar o roteiro da exclusão. Foi com uma nova narrativa de vida que a turma do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Henrique Burnier conseguiu se despedir de 2016. Juntos, 12 estudantes da periferia produziram um vídeo para mostrar como a violência e o preconceito impactam a comunidade onde moram e o ambiente escolar. O trabalho que integra o projeto “Desafio jovens protagonistas -Poupança Jovem” seria usado para transformar o olhar dos outros sobre o tema, mas acabou mudando a forma de os alunos enxergarem a si mesmos e o papel deles na sociedade. Empoderados diante da descoberta da própria capacidade de realização, esses garotos escreveram um capítulo para lá de especial em suas biografias. Concluíram um documentário e, de quebra, organizaram a primeira formatura da escola do ensino médio. Com direito a baile de gala e jantar, eles e suas famílias comemoraram em grande estilo o final de uma etapa produtiva. Ao completarem um ciclo, os agora ex-alunos da Henrique Burnier iniciam 2017 com a certeza de que a velha história de fracasso atribuída aos filhos do ensino público não combina com eles.
Oportunidade
“O nosso projeto quer mostrar que o jovem lá do Granbery e do Henrique Burnier são iguais. Não há diferença. Basta a gente querer. Quando o professor nos apresentou o projeto, nos influenciou, a sala toda abraçou a causa. Isso foi o que mais me espantou, porque era uma sala dividida, fragmentada, ninguém tinha contato. Depois todo mundo se uniu, abraçou a causa, todo mundo foi para a rua, perguntou, conversou. Isso realmente me comoveu. O nosso projeto prova que dentro da comunidade tem talento, tem inteligência, tem gente que pode mudar a história do Brasil. Basta ter uma oportunidade”, revela Denner William Leite de Oliveira, 17 anos, um dos participantes do documentário que retratou a rotina da comunidade e os preconceitos enfrentados dentro e fora de sala de aula.
O professor de Filosofia, Guilherme Gravina, comemora o resultado e diz que o processo de transformação desencadeado a partir da iniciativa de realizar o documentário envolveu não só o ensino médio, mas todo o colégio. “Quando a gente estava filmando, a rotina da escola inteira mudou. Os meninos da oitava série, da sétima, todos queriam participar, pegar na câmera. Até o recreio mudou, pois não era só aquela coisa de sala de aula, professor, prova e banheiro. Aliás, o projeto consiste em fazer uma justaposição entre escola e bairro, mostrar que os problemas enfrentados pela escola são os mesmos dos bairros. Saímos, entrevistamos moradores, fomos nas comunidades carentes e coletamos a visão e a impressão de professores, alunos e funcionários para mostrar que as duas realidades não são conflitantes. Pelo contrário. Elas estão em sintonia não com uma sociedade justa, mas com a perversidade social que são a discriminação, o preconceito e a violência”, explica o docente.
Projeto uniu jovens e motivou estudo
O chefe do Departamento de Inclusão Socioprodutiva e qualificação profissional da Secretaria de Desenvolvimento Social, José Francisco de Oliveira, afirma que os resultados do projeto financiado pelo Poupança Jovem – programa voltado para alunos do ensino médio das escolas públicas estaduais lançado junto a 33 instituições – surpreenderam.
“Quando nós lançamos o projeto, fomos para a sala de aula instigar os alunos. Ao invés de a gente levar algo pronto para eles executarem, nós invertemos. A nossa preocupação era que os projetos transcendessem os muros da escola, envolvessem a comunidade, sendo esse um dos critérios de seleção. Nessa fase, os alunos enumeraram situações de dificuldade que vivem em relação à escola e à comunidade, e a gente perguntou: mas quem vai resolver esses problemas? Essa era a semente do projeto. O que cada um pôde fazer para buscar uma solução, um caminho ou uma reflexão para discutir essas questões? Nesse aspecto, o projeto foi muito exitoso. O mais importante foi esse despertar, foi os alunos entenderem que são capazes de refletir sobre a realidade em que vivem.”
Clésio Castro, articulador do Poupança Jovem, destaca o ganho social da proposta. “Um dos grandes bens do ‘Desafio jovens protagonistas Poupança Jovem’ são os próprios alunos. É um projeto financeiramente limitado, mas o que os alunos realizaram foi muito grande. O documentário, no caso da Henrique Burnier, é a conclusão, mas o grande ganho do projeto já foi alcançado.”
Guilherme Gravina, professor de filosofia da escola concorda. “O documentário fez com que eles se unissem. Eles estavam mal, com indisciplina, e hoje são líderes de turma. Tinham problemas de nota antes, mas, no quarto bimestre, quase todos já tinham passado. Esse projeto mexeu não só com a escola, mas com a vida desses meninos, os transformando por completo. Mexeu comigo também, porque sou filho de professora, faço parte do sistema de ensino público e tive a oportunidade de cursar uma universidade e perceber que mais gente como eu era capaz de ser médico, engenheiro e advogado e ter o olhar para a classe de onde vieram. Como professor, estou muito mais estimulado.”
Alunos realizam sonho da festa de formatura
Levando a sério a ideia de valorizar a si mesmo e o espaço onde vivem, os estudantes do terceiro ano do ensino médio resolveram concretizar um sonho antigo: fazer uma formatura. Reunidos em torno do documentário, eles decidiram usar a força da coletividade para organizar, no colégio, a tão sonhada festa. Com a ajuda dos pais, professores, direção e alunos, todos doaram um pouco de tempo para levantar fundos para o evento. De festival de tortas a rifas, valia tudo para conseguir dinheiro. Após meses de esforço, o espaço do colégio foi, finalmente, transformado em palco de conquista. O teto precário foi decorado com tecidos, as paredes receberam enfeites e até um palco foi montado para os estudantes, que receberam certificado trajando becas. Um DJ foi contratado para o baile que teve até jantar.
Emocionada, a manicure Edisângela Maria Filgueiras, mãe da formanda Fernanda Cabral, estava entre as voluntárias que ajudaram a arrumar a escola para o evento. “O melhor de tudo é que essa festa foi organizada pelos próprios alunos com a ajuda dos professores, porque eles se mobilizaram. Minha filha estuda aqui desde o primeiro ano do ensino fundamental e nunca teve uma festa de formatura. Tenho mais um filho e quero que ele também tenha esse direito de comemorar, porque para as pessoas que moram na favela isso é tão importante quanto uma faculdade. Eu não tive a mesma oportunidade que minha filha está tendo hoje. Cada conquista do filho é uma vitória dos pais. Estou muito orgulhosa por ela e por todos os outros.”
