
Família quer justiça para morte de Maria de Lourdes
Um ano e cinco meses após o vendedor de sapatos Célio Nunes, 41 anos, ter sido morto por um tiro de pistola ponto 40, disparado por um sargento da PM, o militar foi indiciado pela Polícia Civil por homicídio doloso, aquele que tem intenção de matar. O caso foi concluído no final do mês passado pelo delegado de Bicas, Sérgio Luiz Lamas Moreira, e seguiu para a Promotoria daquela cidade, porém, foi transferido para um promotor de São João Nepomuceno. Segundo a assessoria do Ministério Público, o inquérito chegou no município no último dia 16 e ainda não foi apreciado. Apesar da notícia do indiciamento, familiares de Célio esperam uma punição dura para o suspeito. O policial envolvido está no quadro da reserva da corporação por já ter tempo de serviço para obter o benefício.
Na época do crime, o comandante da PM da cidade disse que Célio estaria em atitude suspeita e teria resistido às ordens dos militares para busca pessoal e sacado um revólver com a aproximação de um sargento. Ainda de acordo com o comandante, um dos policiais atirou imediatamente no tórax da vítima, que não resistiu e morreu no hospital. O PM foi preso em flagrante, sendo solto oito dias depois.
Em buscas de vestígios que possam provar as circunstâncias da morte, a família de Célio recuperou as imagens do circuito interno do hospital (confira o vídeo abaixo) para onde o vendedor foi levado. Nas imagens, a vítima chega à unidade de saúde, aparentemente sem vida, na carroceria de uma viatura com a sirene desligada. Para a família, um indício de que os militares não tiveram intenção de socorrer Célio, mas sim desfazer a cena do crime. "Ele ficou dependurado. Como podem querer socorrer alguém assim? Para mim, queriam que ele fosse enterrado como indigente, porque não deixaram os documentos dele, e o pessoal do hospital teve que ir atrás da PM para conseguir informação", disse Wellington de Oliveira, irmão de Célio. Ele ainda afirma que a família só foi comunicada da morte cerca de 12 horas depois.
De acordo com o delegado de Bicas, após a morte, o caso não foi comunicado à Polícia Civil, sendo encaminhado direto para o quartel onde o militar servia. "Além disso, outros militares foram até o quarto do hotel onde Célio ficava e entraram em seu veículo sem autorização judicial. Sobre este fato, indiquei no inquérito a possibilidade de ter ocorrido crime de abuso de autoridade." Sérgio Lamas explicou que agora cabe à Promotoria propor pena alternativa. Sobre o vídeo, ele esclareceu que a Polícia Militar deve apurar o fato e puni-lo se houve alguma infração administrativa.
A Polícia Militar também instaurou um procedimento para investigar o ocorrido. Mas, de acordo com a subcorregedoria da corporação, apesar do inquérito policial militar ter sido concluído, a apuração não teria apresentado respostas conclusivas. Diante disto, a PM aguarda pronunciamento da Justiça para tentar juntar mais provas ao caso e, depois disso, avaliar se o militar vai responder a um processo administrativo disciplinar (PAD).
Além do sargento, um soldado estava presente na hora em que o disparo foi feito, mas ele não irá sofrer punição administrativa. Segundo a corporação, "não se restou comprovado relação direta do mesmo com o caso". O policial também não foi indiciado no inquérito instaurado pela Polícia Civil. "Ele faltou à reconstituição do crime, também relatei isto no inquérito, e ele ainda pode ser punido. Mas não restou relação dele com o homicídio", explicou o delegado de Bicas.
Wellington de Oliveira, irmão de Célio, pede uma resposta para o caso: "Restam-nos lembranças e uma dor no peito que vem, de vez em quando, como se o tiro no peito fosse em cada um de nós. O uso da força em excesso transformou-se em uma verdadeira aberração: dois policiais armados, com o intuito de fazer uma abordagem, dão um tiro no peito de um trabalhador de maneira fria e covarde e o matam. E agora, quem responde por isso?"
Família aguarda audiência sobre morte de dona de casa
Outra vítima de tiro disparado por policial militar foi a dona de casa Maria de Lourdes Silva Estevam, 51 anos. Ela foi morta no dia 5 de fevereiro do ano passado no Bairro Ipiranga, em Juiz de Fora. O cabo que matou a mulher com um tiro na região frontal do crânio também está no quadro da reserva da PM, já tendo sido indiciado por tentativa de homicídio em concurso com homicídio culposo.
No entanto, apesar do indiciamento, a família aguarda com ansiedade a chegada deste mês de novembro, já que está prevista para esta sexta-feira (1º) a primeira audiência sobre a morte da dona de casa. "É uma mistura de sofrimento e revolta. Só dá para dizer que é uma dor que não cabe na gente", desabafa a filha da vítima Roberta Tarma.
Pelo menos sete tiros teriam sido disparados na via pública, onde estavam várias pessoas, inclusive crianças. A vítima foi alvejada na presença do marido e da filha. Ela chegou a ficar internada 19 dias no Hospital de Pronto Socorro (HP), mas morreu em função de uma pneumonia secundária em decorrência de um trauma cranioencefálico. O cabo que efetuou os disparos fugiu sem prestar socorro e só se apresentou à Polícia Civil três dias depois, não sendo preso.
O cabo responde na Justiça por homicídio qualificado. Segundo a assessoria de comunicação da 4ª Região da Polícia Militar, o policial está sob processo de perda de posto/graduação e a Comissão do Processo Administrativo Disciplinar (PAD) já concluiu os autos, repassando os mesmos ao Conselho de Ética e Disciplina dos Militares da Unidade. "Ao conselho cabe a redação do parecer, baseado nos trabalhos do PAD, e remessa para o comando da unidade".
O processo também tramita na Justiça comum. De acordo com informações do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a última movimentação do processo aconteceu em 27 de julho, quando o réu foi citado e marcada a audiência. "Até agora não vimos nada acontecer com ele. O que temos de concreto é uma família destroçada. Houve excesso da parte dele, uma pessoa que deveria defender vidas, acabou com a da minha mãe," lamenta a filha da vítima.
Subcorregedoria investiga casos em JF e região
Há sete meses, a 4ª Região da PM (RPM), responsável pelo policiamento de Juiz de Fora e outros 85 municípios, conta com uma subcorregedoria. Segundo o tenente-coronel Paulo Henrique da Silva, à frente da seção, os casos dos dois policiais são exceção. "Não é comum vermos casos de violência arbitrária." Para ele, a criação de uma seção específica para cuidar da punição administrativa dos policiais é a prova da preocupação da corporação com os casos. "Se levarmos em consideração o tamanho da 4ª RPM, o número de denúncias que chega até nós, por vários canais, é muito pequeno."
As punições aplicadas aos militares dependem da falta que cometeram, que são classificadas como leves, médias e graves. Segundo o oficial, os procedimentos vão de sindicâncias até o processo administrativo disciplinar. "Esta é a última instância, é quando o militar pode chegar a perder sua graduação." A PM esclareceu que, nos dois casos, mesmo que os policiais percam suas patentes no decorrer dos processos, eles não irão deixar de receber seus salários.

