Nesses quase 45 anos de cobertura da Tribuna, o jornal documentou inúmeras tragédias causadas pelas chuvas em Juiz de Fora, muitas delas fatais. Ouviu vítimas, cobrou respostas das autoridades e registrou sucessivas promessas de prevenção. Além de olhar para o passado, a proposta é tentar entender, em meio à gravidade das mudanças climáticas, como poderiam ser solucionados, ou amenizados, os problemas causados pela falta de planejamento urbano, como impermeabilização do solo e ocupação irregular em encostas e nas imediações de córregos, a fim de evitar mais mortes e danos traumáticos à população.
Ao pesquisar o acervo da Tribuna de Minas, nesses mais de 40 anos de cobertura jornalística, o editor de imagem e vídeo da Tribuna, Leonardo Costa, observou os maiores índices pluviométricos diários já registrados pela estação convencional do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os acumulados variam entre 138,2mm e 147,4mm, nos dias marcados por fortes temporais em 1995 (12/02), 1998 (7/12) e 2001 (12/03). Para se ter uma ideia, em fevereiro deste ano, houve dois dias quase consecutivos (24 e 26) somando em torno de 138mm cada um deles. Já em janeiro de 2007, quando a BR-267 foi partida ao meio na altura de Igrejinha e boa parte da Zona Norte ficou debaixo d’água, o acumulado do mês chegou a 584,1 mm. Ou seja, embora estejam mais frequentes, não é de hoje que chuvas volumosas acontecem na cidade.
Também foram destacadas chuvas menos intensas, mas relevantes por suas consequências, como a de granizo em 1985, e a que matou três pessoas de uma mesma família, em 2002, no Bairro Graminha, Zona Sul. Basta olhar as capas do jornal para perceber como os lugares se repetem, e os problemas, permanecem. Moradores do Bairro Industrial, Zona Norte, por exemplo, convivem com alagamentos há mais de 30 anos, como revela reportagem de 1995. Naquele mesmo dia, quatro crianças morreram soterradas na Vila Olavo Costa e no Furtado de Menezes, dois bairros com sérios problemas de infraestrutura na região Sudeste. Deslizamentos em fevereiro de 2026 afetaram as mesmas vias dos bairros São Mateus e Santa Cecília, na Zona Sul, atingidas por escorregamentos em 1998. E por aí seguem as tristes “coincidências”.
‘A época dos desastres’
“Não é de agora que Juiz de Fora vem sendo assolada por fenômenos como deslizamentos e inundações. Vez por outra temos fenômenos mais catastróficos que acabam gerando perdas de bens materiais e até perdas de vida”, observa o professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Miguel Felippe. Para o especialista, as fortes chuvas de fevereiro estão ligadas ao que a ciência vem tratando como “a época dos desastres”, em meio aos avanços tecnológicos. “Começamos, enquanto seres humanos, a ter uma capacidade de transformação desse sistema Terra que é fora de qualquer escala de comparação ao longo da história do planeta”, ressalta. “Infelizmente, esses eventos climáticos extremos vão ser cada vez mais frequentes e mais intensos, uma vez que as mudanças climáticas antropogênicas estão de certa forma consolidadas, não apenas dentro dos padrões climáticos mundiais, mas também do ponto de vista da política econômica desenvolvimentista que o mundo segue.”
O especialista pondera que esses fenômenos afetam de forma desigual a população. “Estudos mostraram que atingem o sul global de forma mais intensa, com fenômenos de inundação e movimentos de massa relacionados a eventos extremos. Ao mesmo tempo, temos um passivo histórico gigantesco relacionado a carências, tanto em políticas de prevenção e redução de riscos, mas também em políticas relacionadas ao planejamento urbano e ambiental.” Segundo ele, não houve uma urbanização voltada para o bem-estar social. “Tivemos uma produção do espaço urbano voltada para os benefícios das elites. Isso é muito claro na história de ocupação e formação territorial de Juiz de Fora, e até hoje.”
Nesse cenário, ele avalia que as parcelas do território relegadas à população pobre, invariavelmente, são aquelas onde existe maior suscetibilidade a esse tipo de fenômeno, “justamente porque quem pode escolher onde morar não vai escolher morar onde há problemas de inundação e de movimentos de massa”. “Fenômenos como esse em Juiz de Fora revelam, de forma muito cruel, as desigualdades socioterritoriais, urbanas e as injustiças ambientais.” Sobre o fato de bairros considerados de alto padrão também terem sofrido, como o Paineiras e o Bom Clima, o professor destaca: “Fenômenos extremos vão afetar toda a população, mas uma parcela é menos afetada do que outra. E isso não está relacionado apenas a onde você mora, mas às condições que você tem de se recuperar a partir do momento em que você perdeu sua casa ou não pode ir para o trabalho porque o ônibus não está passando mais onde passava.” Em sua análise, enquanto as classes média e alta têm oportunidades de se recompor com menos dificuldade, a população pauperizada sofre de forma prolongada.
Articulação e ocupação planejada
Para que uma política de prevenção de desastres naturais funcione de fato, Miguel pontua ser necessária uma articulação nas esferas municipal, estadual e federal. Além de investir na defesa civil, com monitoramento e mitigação de riscos, é fundamental o planejamento de ocupação dos espaços urbanos. “No final das contas, boas ideias existem. O grande problema são os recursos.” Nesse contexto, ele lembra que, por parte da administração pública, já havia “mapeamentos de risco com algum grau de acurácia e assertividade”, sobre os locais com maior probabilidade de ocorrência na cidade. “A UFJF há mais de 20, 30 anos vem fazendo estudos, mas há dificuldade em articular todos esses trabalhos e colocar em prática ações que efetivamente pudessem reduzir os riscos associados a esse tipo de fenômeno.”
Para Miguel, a falta de planejamento urbano pela administração pública acaba abrindo portas para um “planejamento extremamente eficiente do capital imobiliário, das empreiteiras”. “Esse parcelamento do solo voltado especificamente para a produção de lucro coloca a administração pública como refém de uma lógica de produção do espaço urbano que não é voltada para o bem-estar da sociedade.” Nessa dinâmica, a tentativa de reorganização por meio de leis fica “sempre dois, três passos atrás”. “Essa é uma realidade brasileira das cidades médias e grandes. Em Juiz de Fora, ainda tem um elemento complexificador: o Executivo e o Legislativo nem sempre conseguem entrar num acordo em relação ao que é melhor para a cidade do ponto de vista de parcelamento do solo.” Nesse embate, muitos loteamentos acabam sendo liberados. “Basta andar pela mancha urbana. Vemos diversas ilhas não loteadas, que funcionam como áreas de especulação imobiliária.”
Em relação à redução de riscos associada a fenômenos climáticos extremos, o professor defende um monitoramento extensivo, inclusive dos fenômenos geomorfológicos. Enquanto, no Brasil, o monitoramento e o sistema de alertas para inundação avançou nos últimos anos, a impermeabilização do solo continua sendo uma questão. “A partir do momento em que a cidade já está impermeabilizada, é difícil voltar atrás e desimpermeabilizar. Temos que trabalhar nas áreas que não estão consolidadas com outras iniciativas, sobretudo de engenharia verde e sustentáveis, que vão buscar garantir a infiltração da água do solo, ainda que de forma artificial. Temos técnicas, por exemplo, de recarga artificial de aquíferos, de pavimentos permeáveis, piscinões e bacias de detenção. Existem muitas técnicas de engenharia capazes de reduzir a velocidade da água e, consequentemente, reduzir a suscetibilidade à inundação. O grande paradigma sobre isso são as cidades-esponja.”
Já movimentos de massa dependem das características do solo e da rocha. “Cada morro vai ter uma resposta diferente à mesma chuva. Precisaríamos, praticamente, colocar um instrumento de medição da água no solo em cada morro, o que é muito difícil de funcionar do ponto de vista logístico, financeiro. Mas seria ideal em Juiz de Fora, que isso pudesse estar associado a um sistema de alerta e monitorado de forma constante.” O professor da UFJF conclui que, apesar das tecnologias disponíveis para amenizar desastres, prevenção e redução de riscos “não dão voto”. “Precisamos de disponibilidade de recursos financeiros, humanos, tecnológicos, mas precisamos de interesse político também.” Após o desastre de fevereiro, ele espera melhorias na estruturação do poder público, na organização da sociedade civil e na alocação de recursos das universidades, como aconteceu a partir das tragédias em Petrópolis e no RS. “Que saibamos colocar os investimentos onde realmente é necessário para evitar outras tragédias como essa no futuro.”
Prefeita confirma execução de quase 70 obras de infraestrutura
Questionada sobre o que foi negligenciado pelo Poder Público nessas últimas décadas de Administração para que a tragédia de fevereiro de 2026 acontecesse nessa dimensão, a prefeita Margarida Salomão (PT) dispara: “Não é o poder público, a cidade inteira não se atentou para isso. Um dos grandes vetores de desenvolvimento é o quê? É a construção civil. Quando isso foi contestado? Os veículos de opinião abrem espaços enormes para divulgar um novo empreendimento, mas qual é o impacto ambiental desse empreendimento? Temos que fazer um processo de elevação de consciência. Há responsabilidades que o poder público agora tem que avocar para si, de uma forma mais severa, inclusive, do que no passado. E quando eu falo poder público, eu me refiro à Prefeitura e à Câmara, em termos de uso do solo, de compreensão de padrão construtivo, e de relações de sociabilidade que se desenvolvem dentro dos territórios. Além disso, a sociedade tem que estar alerta para isso. Você não pode deferir ao Estado debates que, a rigor, são debates da sociedade.”
Margarida afirma que não vai suprimir os morros e os córregos, mas sim, aprender a lidar com eles. Ela avalia que a PJF está fazendo intervenções importantes. “Nossos processos de macrodrenagem são soluções baseadas na natureza, como os jardins de chuva. Não temos mais envelopamento dos córregos, mas áreas mais abertas. E contenções dentro de áreas urbanas que são parques lineares, como é o caso em Santa Luzia, no Mariano (Procópio) e no Bairro Industrial. São soluções mais avançadas, que se beneficiam desse avanço tecnológico.”
A própria prefeita afirma, entretanto, que essas medidas não resolvem o problema da cidade toda. “A canalização do Yung é sabidamente um desastre, porque a água corre pela Rua Vitorino Braga e faz aquele estrago.” Margarida também cita o Córrego Independência e a falta de drenagem no Bairro Granbery. “A água corre toda na superfície.” Segundo ela, estão sendo realizadas quase 70 obras para melhorar a infraestrutura urbana, com drenagens e contenções. “O fato é que a cidade precisa ter um plano de resiliência urbana que envolva, inclusive, mudanças de hábitos.” Ela cita avanços importantes, como a obrigatoriedade da coleta seletiva. “Hoje as pessoas jogam (os resíduos) no córrego.” Ela acredita que esta é a oportunidade de requalificar a cidade para o futuro da emergência climática. “Eu não posso falar ‘acabou, nunca mais vai ter uma chuva igual a essa’. Tenho que estar preparada.”
Sobre a desigualdade social escancarada pelo desastre climático em Juiz de Fora, a prefeita cita os “puxadinhos” no processo de “autoconstrução” da cidade em um vale, no entorno de rios e córregos. “Isso é a cara física da desigualdade social brasileira.” Por outro lado, acredita que a tragédia foi “democrática”, porque alcançou também faixas de renda mais elevadas. “A cidade toda se construiu dessa forma, inclusive as áreas de residências de alto custo. Tivemos no Bom Clima e no Bom Pastor desabamentos, prédios ruindo.”
Sobre uma possível solução para a falta de planejamento urbano, a prefeita insiste que essa é uma responsabilidade da sociedade. Citando o verso “As leis não bastam, os lírios não nascem da lei”, do poema “Nosso Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade, ela pontua: “Não adianta eu ter lei. Preciso ter uma consciência urbana que me permita praticar, inclusive, o enfrentamento de iniciativas econômicas que são ou podem ser lesivas. Não é um processo que se esgota no Estado. Esse é um processo que se sedia no Estado. Mas, definitivamente, é um processo da sociedade.”
Relembre chuvas históricas em JF

