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Crônica: A arte, a ciência

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 Foi no meio da segunda volta em torno do lago, ali naquele trecho entre as estátuas da arte e da ciência. Seu olhar cruzou com o dela e ele sentiu um arrepio estranho nos braços. Por um segundo, tentou decifrar de onde vinha a sensação que chegou ao corpo mais rápida do que ao pensamento. Quem era aquela mulher? As lembranças foram vindo, aos poucos e embaralhadas. Seria ela? Seria mesmo capaz de reconhecê-la tanto tempo depois?

Não deu meia-volta. Continuou a caminhada de passos ligeiros, mas já não mais enxergava em torno. Não via plantas ou patos. Passou pela Palmeira Sagu, pela Saboneteira, pelo Pau-Brasil. Habituado a pensar por palavras, sujeito organizado, metódico até, ele sentiu que o arrepio daqueles olhares cruzados puxava uma imagem. Uma cena?  Não demorou para enxergar.
Os meninos do colégio caminhavam juntos pelos salões. Agrupados, faziam troça das telas, inventavam brincadeiras de pisar no tênis do outro, tentavam cutucar o calcanhar do gordinho para ele tropeçar. As meninas formavam outro grupo. Ele as via de longe, numa ala à esquerda. Atraído por não-sei-quê, desgarrou-se e foi dar noutro salão, vazio. Na parede do fundo, uma imagem impressionante se impunha: a cabeça barbuda do herói separada do corpo, sangue escorrendo no pano, o dorso estendido com o braço pendendo, um pedaço que parecia de perna, em primeiro plano. Ficou imóvel diante da tela. A princípio, não percebeu quando ela chegou e parou a seu lado. Mas logo compreendeu que não estava só.
A lembrança agora era mais nítida e ele tinha que tomar uma decisão: seguir pela trilha que contorna o braço do lago e chega até o ancoradouro dos pedalinhos (seu plano original) ou dar mais uma volta. Escolheu a segunda alternativa, na esperança de cruzar com ela de novo. Caminhava agora à sombra, enquanto a memória revolvia não apenas imagens, mas outros sentidos.
Achou que poderia sentir o cheiro do prédio antigo do Museu, misturado com o perfume dela. E sentir seus braços se tocarem ligeiramente. O roçar da pele, acompanhado da emoção diante do corpo esquartejado. Em silêncio, os dois, compartilhando o mistério. Estavam sozinhos e tinham um segredo. Nunca tinham visto uma imagem como aquela. E tão de perto. Nunca tinham vivido a sensação que aquele toque provocava. O braço dela. O braço dele. Tão perto. Ficaram ali, sem palavras, sem movimento que afastasse ou aproximasse os corpos. Até que a professora chamou.
A volta se completaria e, novamente ali, entre a arte e a ciência, ela vinha no sentido contrário. Levantou os olhos, até aquele momento encantados pelo passado, e olhou-a de forma um pouco mais prolongada. Ela devolveu-lhe o olhar, um olhar sem resposta num rosto impassível. Seguiram em frente, afastando-se, cada um no seu sentido de rodear o lago. 
Sorriu para si mesmo. Seria esta senhora, companheira de caminhada, a menina com quem dividiu aquele instante de estreia? Teria ela vivido a mesma epifania? Decidiu que faria estas perguntas na próxima volta. Acelerou ainda mais o passo. A volta ao redor do lago era o relógio do tempo com seus ponteiros velozes rodando para trás.
A arte, a ciência. Passaram. Mais uma volta e outra. Mas ela não passou mais. 
O homem seguiu caminhando, agora sem pressa. E o menino continuou parado, intacto, diante da tela. Assombrado. Com seu braço em arrepio, tocando suavemente o dela.
 
 
Rodrigo Barbosa
  Jornalista. Professor do curso de jornalismo da UFJF. Mestrando em literatura brasileira pelo CES-JF, onde desenvolve pesquisa para dissertação sobre crônicas. Publicou, em 2012, seu primeiro romance, "O homem que não sabia contar histórias" (Record), indicado como finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. É secretário-adjunto de Comunicação da UFJF.
 
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