Nesta época em que a campanha política veste a cidade com faixas, cartazes e adesivos, os tradicionais "santinhos" são personagens fundamentais na disputa
| Sidney Alves mostra com orgulho sua coleção |
eleitoral. Para alguns juiz-foranos, mais que um lembrete com o número e a cara de seu candidato, os panfletos são um objeto de desejo, item de colecionador. É o caso do aposentado Aldir Araújo, dono de um acervo que reúne mais de sete mil itens. "Sempre me interessei por política, desde menino, lembro que recolhia santinhos do Getúlio Vargas (PTB) para implicar com meu pai, que era a favor do Eduardo Gomes (UDN)." A brincadeira com o pai resultou em quatro álbuns repletos de rostos de concorrentes aos cargos de prefeito e vereador, iniciados no pleito de 1988. "Tinha outros de eleições mais antigas, mas perdi. Hoje, tenho só alguns panfletos avulsos deste período." Entre as preciosidades de seu arquivo, está um folheto de sua própria campanha de vereador pela extinta Aliança Renovadora Nacional (Arena), em 1976, em plena ditadura militar, quando obteve 731 votos.
Quando o assunto é a coleta do material, Araújo, como é conhecido, conta que já foi a extremos. "Quando era novo, já pulei até muro para pegar um santinho difícil de achar." Hoje, uma das formas que o aposentado encontra para aumentar sua coleção é a troca de duplicatas. Um dos parceiros neste escambo é Sidney Alves, dono do Bar do Futrica e filho do fundador homônimo, que possui uma coletânea com algo em torno de três mil exemplares, iniciada em 1992, organizada em pastas por ordem alfabética. "Os álbuns de 2004 e 2008 estão completos, com todos os candidatos a prefeito e vereador", orgulha-se.
Assim como os dois amigos, o professor Gustavo Burla também possui seu acervo, trazendo os representantes da sucessão eleitoral de 1988 e da de 2008. "Fiz junto com o meu irmão, quando era criança. Meus pais sempre foram politizados e incentivaram a brincadeira. Para nós, era como um álbum de figurinhas, mas acabava permitindo que a gente se inteirasse do que estava acontecendo na política." Com vinte anos de espaço entre uma coleção e outra, Gustavo observa a evolução do material gráfico no período. "Os atuais são mais bonitos, têm imagens mais trabalhadas , e a própria linguagem evoluiu, está mais clara, mais objetiva. Mas os mais antigos são mais divertidos, tenho um que tem uma tabela de jogo do bicho impressa no verso."
Coleção conta história de candidatos
Além das mudanças observadas nos folhetos em si, os colecionadores defendem que sua compilação é um registro da história política de Juiz de Fora. "Muitos candidatos vêm tentando se eleger desde 88, quando comecei a colecionar, e ainda não conseguiram. Outros, só conseguiram recentemente. Já alguns vereadores vêm se mantendo na Câmara por muitos mandatos, e dá para acompanhar tudo pelos álbuns", observa Sidney.
No caso de sua coleção, as informações vão além de uma reunião dos concorrentes de cada eleição, servindo como um verdadeiro banco de dados da disputa. "Coloco o número de votos que cada um recebeu e separo uma parte só para os eleitos. Também ordeno a seção dos vereadores pelo ranking de votação." Araújo conta que faz trabalho semelhante. "Ainda coloco uma cruz ao lado do santinho, quando sei que o candidato já morreu."
Os três garantem que, além da diversão da procura pelos exemplares – como em qualquer coleção -, o ato de reunir os panfletos pode ajudar como meio de formação do eleitor. "O santinho tem sim sua função como propaganda política, que é a de auxiliar a lembrar o número do candidato, de associá-lo à ‘sua cara’ ", observa Gustavo. "Depois que passei a reunir os folhetos, tive mais informação sobre quem estava concorrendo, sobre suas propostas, e acho que isso faz de mim um eleitor mais preparado", completa Sidney.
