Juiz de Fora enfrenta hoje um momento de contradição. Para preservar sua tão proclamada qualidade de vida, a cidade precisa mudar. Só assim conseguirá sustentar o status conferido ao município de um bom lugar para se viver. Para transformar o que hoje é privilégio de poucos em benefício de todos, ela precisará se repensar e, principalmente, planejar seu futuro. Apesar de possuir elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – medido por longevidade, renda e educação -, a cidade de 516.247 habitantes apresenta fragilidades, inclusive em setores considerados bem-sucedidos como o ensino. Se a garantia de quase 100% de acesso é uma conquista do ensino fundamental, o mesmo não se pode falar da educação infantil, segmento no qual mais de 70% das crianças de 0 a 5 anos atendidas pelos Centros de Referência da Assistência Social estão fora de creches e escola, conforme Mapa Social de 2012, produzido pela Secretaria de Assistência Social. Apesar de o mapa apontar para 7.569 crianças de 0 a 3 anos fora do equipamento escolar, a Secretaria de Educação identifica demanda reprimida bem menor, de 1.774 crianças. Já no quesito renda, o problema está na sua distribuição. Enquanto apenas 1% da população economicamente ativa recebe mais de 20 salários mínimos, 65,6% dos trabalhadores contam com menos de dois mínimos. E apesar de ter boa esperança de vida ao nascer – o juiz-forano alcança em média 78,2 anos, quase cinco anos a mais do que o brasileiro -, os jovens de 18 a 25 anos continuam sendo as principais vítimas de homicídios na cidade. As mortes violentas saltaram de 32, em 2006, para 52, em 2011, sendo que a faixa etária mais afetada tem até 25 anos, com 19 casos.
De acordo com o diretor da Faculdade de Economia da UFJF, Lourival Batista de Oliveira Júnior, o IDH é uma primeira referência para a análise da qualidade de vida, mas não é a única a ser considerada. "De uma forma geral, a expectativa de vida é um indicador interessante de qualidade de vida, porque ele é o resultado de todo o ambiente sobre o indivíduo. No entanto, para discutir o futuro do município, é preciso considerar outras variáveis." Segundo ele, Juiz de Fora vem experimentando um bom momento, principalmente em relação à geração de emprego e renda. Dados do Cadastro Geral de Empregos e Desemprego (Caged) apontam para o incremento do emprego formal acima da média nacional nos últimos dois anos, e o Censo mostra que a renda domiciliar juiz-forana é 30,7% maior do que a mineira.
Mas há outros desafios a serem superados. Pesquisa realizada pelo Ibope, entre 13 e 15 de agosto, a pedido da Tribuna e da TV Integração, revela que, para a população juiz-forana, os três maiores problemas enfrentados na cidade são, na seguinte ordem, saúde, citada por 36% dos 602 entrevistados, segurança pública, por 13%, e transporte coletivo, por 10%. Apesar de o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde de 2010 indicar que há 7,6 médicos do SUS para cada grupo de mil habitantes, – portaria do Ministério da Saúde estipula um médico para cada mil habitantes – o fato de a cidade ser referência para mais de dois milhões de pessoas da Zona da Mata tem contribuído para a sobrecarga no atendimento não só na rede pública, mas na rede privada, afetando a relação de oferta e demanda. Já em relação à segurança, o Diagnóstico da Infância e Juventude – Formando Redes, realizado pelo Centro de Pesquisas Sociais da Faculdade de Serviço Social da UFJF, lançado em maio deste ano, aponta o crescimento da criminalidade, principalmente da violência juvenil que, só este ano, já fez dez vítimas menores de 18 anos, a maioria alvo de gangues.
O estudo destaca o sentimento de insegurança da população. Nada menos que 45% das famílias com filhos consideram o policiamento insuficiente e outras 16,7% inexistente.
O modelo de transporte coletivo completa três décadas sem alterações. Especialista em planejamento de transporte urbano, Luiz Antônio Costa Moreira é enfático quanto à necessidade de superação da atual matriz. "As intervenções de engenharia são pontuais, cada vez mais caras e de menor vida útil. Por isso, o único caminho para a melhoria do trânsito é melhorar o transporte coletivo. Hoje, 50% das viagens diárias no município são feitas pelo transporte individual. Para que as pessoas migrem para o coletivo, ele precisa ser confiável, confortável e rápido. É preciso investir num plano de mobilidade que dê prioridade a essa questão. Além disso, não temos como fugir de um sistema troncalizado que recolha os passageiros no Centro, fazendo a redistribuição em áreas próximas à central", acredita.
Lazer é o mesmo de 30 anos atrás
O aumento da oferta de espaços públicos de lazer, a melhoria da arborização e da acessibilidade também são necessários à melhoria da qualidade de vida. De acordo com o Censo, dos 166.159 domicílios particulares em áreas urbanas, 44,3%, o equivalente a 73.615, não possuem árvores no seu entorno, e 91,21% estão em ruas que não contam com rampas para cadeirantes. Já o Diagnóstico da Infância e Juventude – Formando Redes, revela que 66,45% dos domicílios com residentes ainda crianças e adolescentes não têm acesso a lazer na cidade. O percentual é ainda maior em relação às formas de lazer que as famílias com filhos tem acesso: 72,2% não têm acesso a parques e 44,6% a praças.
A carência em relação aos espaços públicos e gratuitos de lazer fica evidente quando se percebe que as áreas para esta finalidade são as mesmas de há pelo menos três décadas: Museu Mariano Procópio, Parque da Lajinha e Morro do Cristo. A exceção é o Campus da UFJF, que, apesar de não ter sido construído com essa finalidade, transformou-se no principal local de lazer em área aberta da cidade. Apesar de a universidade não ter levantamento oficial sobre a frequência do público nos fins de semana, dados extraoficiais apontam para 20 mil pessoas.
No caso do museu, uma das dificuldades é o acesso limitado. Apesar de ter uma coleção de relevância internacional, os prédios do Mariano Procópio estão fechados há mais de quatro anos, em função de reformas e intervenções na infraestrutura. Para tentar minimizar o prejuízo da falta de contato da população com este acervo, a instituição tem promovido, desde 2009, diversos eventos a fim de atrair o público. Foram criados clube ecológico, oficinas para crianças, música no parque, teatro, poesia, encontro de pintura, exposições de fotografias.
Já o Parque da Lajinha, que tem um conjunto verde significativo, ainda não se consolidou como opção para os juiz-foranos. Fechado para visitação, em função de obras de revitalização, o investimento de R$ 1,1 milhão pode transformar a área em local para a família. Quanto ao Jardim Botânico, a possibilidade de abertura ainda é promessa. A nova previsão de acesso ao público é 2013. Atualmente, o espaço passa por obras e recuperação ambiental das áreas degradadas.
Para o arquiteto Bruno Sarmento, o crescimento de Juiz de Fora ainda está ligado a valores que a cidade apresentava décadas atrás. "Juiz de Fora está mudando de uma maneira muito rápida. A população está aumentando, e há novas demandas. Se hoje a gente ainda tem qualidade de vida, eu não vejo essa qualidade se sustentando a longo prazo se não houver investimento em planejamento."
Em busca de uma cidade mais humana
Juiz de Fora vai continuar a crescer, e isso é inevitável. A pergunta principal, no entanto, é como vai crescer? Para o professor do Departamento de Geociências da UFJF, Pedro Machado, o município precisa ser repensado e isso inclui investir em planejamento urbano, para que se consiga atender as necessidades da cidade na qual Juiz de Fora se transformou. "Precisamos ter uma política urbana para a cidade que a gente quer ao invés de ficar resolvendo problemas pontuais. Temos aumento do consumo, demandas por socialização do lazer, problemas referente ao trânsito, mas a cidade não consegue atender a esses anseios, porque cresce alheia ao planejamento. Ela não está conseguindo acompanhar a velocidade das mudanças pelas quais está passando."
O professor de arquitetura e urbanismo do CES/JF, Bruno Sarmento, destaca, entre os pontos positivos de Juiz de Fora, a existência de uma área central extremamente viva, que ainda tem qualidade de uso e de ocupação se comparado com outros centros de cidades semelhantes, exatamente em função de seu uso misto: moradia e comércio fortes. "Nós ainda somos uma cidade muito coletiva, mas a gente não pode se acomodar com isso. Como ainda temos características de interior, isso dá uma falsa imagem de manutenção de um modelo que não é mais suficiente. Para Juiz de Fora continuar a ter qualidade de vida, precisa reagir enquanto dá tempo. E isso inclui pensar na melhoria da mobilidade urbana, na criação de espaços públicos cada vez mais abertos e democráticos, nos quais se possa oferecer mais verde quantitativamente falando. Esse é o caminho para termos uma Juiz de Fora menos individualista e mais humana", aposta.
