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Por JF 45 anos: Com 17% dos empregos formais, indústria quer recuperar protagonismo

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Revitalização do Distrito Industrial é vista como fundamental para reconstrução do setor (Foto: Felipe Couri)
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Como comemorar 45 anos de jornalismo em Juiz de Fora no mesmo ano em que a cidade viveu sua maior tragédia? Fundada em 1º de setembro de 1981 pelo médico e empresário Juracy Neves, a Tribuna de Minas é testemunha das transformações urbanas ao longo de décadas e inicia, neste domingo (30), uma série de reportagens especiais com a proposta de olhar para a reconstrução do município a partir de uma questão fundamental: quais atividades econômicas têm potencial para sustentar a geração de emprego e renda nas próximas décadas, após a devastação causada pelas chuvas de fevereiro? Nesta primeira matéria, os olhos estão voltados para o setor industrial, que desempenha papel relevante na estrutura financeira da cidade, respondendo por 15% das empresas do município, com 2.088 unidades; 17% dos empregos formais, com 30.027 colaboradores; e 16% da massa salarial, correspondente a R$ 1 bilhão por ano. Os dados, que também levam em conta o setor da construção civil, são da Gerência de Economia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), com base na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) 2025 e na Fundação João Pinheiro.

“A indústria precisa voltar a ser tratada como um dos pilares estratégicos do desenvolvimento”, dispara Mariângela Marcon, presidente da Fiemg – Regional Zona da Mata. Flávia Gonzaga, presidente do Centro Industrial de Juiz de Fora (CIJF), entidade representativa centenária, faz coro: “A indústria precisa voltar a ser tratada como um dos principais motores da reconstrução econômica”. As lideranças concordam que o resgate da “Manchester mineira” necessita de investimentos, incentivos e inovações, que passam pela qualificação dos trabalhadores. Em andamento, as obras de revitalização do Distrito Industrial, por meio do convênio de R$ 14 milhões entre o Governo de Minas e a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), já são um passo à frente.

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O valor adicionado bruto (VAB) pela indústria na cidade é em torno de R$ 4,5 bilhões, representando a riqueza que o setor cria ao transformar matérias-primas e insumos em novos produtos. O número corresponde a 26% do VAB total do município, que era R$ 17,4 bilhões em 2021. Desse montante, o setor de serviços, que inclui as atividades de comércio, segue à frente (58,4%), enquanto a Administração pública aparece com 15,3%, e a agropecuária, com 0,3%. A Fiemg considera que o município se destaca entre os principais centros de Minas, com economia diversificada, marcada pela forte presença dos serviços, comércio e indústria. O Produto Interno Bruto (PIB) está em torno de R$ 23,3 bilhões, são mais de 14 mil empresas instaladas e cerca de 178 mil empregos formais.

“A indústria não deve ser vista apenas como parte da história: ela continua tendo um peso muito importante na economia local e pode ser decisiva para o futuro. Estamos falando de um setor que continua gerando riqueza, trabalho e renda. Juiz de Fora precisa aproveitar o momento para fazer uma reconstrução também de sua base econômica. Isso significa recuperar infraestrutura, melhorar o ambiente de negócios, estimular investimentos, aproximar empresas das instituições de ensino e ampliar a formação profissional”, avalia Mariângela, que também é presidente do Sindivest-JF (Sindicato das Indústrias do Vestuário de Juiz de Fora e Governador Valadares e das Indústrias de Malharias de Juiz de Fora).

Para ela, é preciso criar condições para uma nova industrialização: mais moderna, tecnológica, produtiva, sustentável e integrada às cadeias de fornecimento de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e do restante do país. “A indústria também tem um efeito multiplicador muito importante: quando uma empresa se instala ou amplia sua produção, ela movimenta fornecedores, transportadores, comércio, serviços especializados, construção civil e toda uma cadeia econômica.” Flávia acredita que, para a indústria continuar tendo um papel estratégico, precisa ser capaz de agregar valor e, principalmente, de gerar empregos qualificados e melhores oportunidades para a população. “Juiz de Fora precisa aproveitar esse processo de reconstrução para criar as condições necessárias para voltar a ser uma cidade cada vez mais atrativa para quem quer investir, produzir e empregar.”

O secretário de Desenvolvimento Sustentável e Inclusivo, da Inovação e Competitividade (Sedic) da PJF, Ignácio Delgado, destaca que as indústrias são um dos pilares históricos da economia e seguem centrais para o futuro, ao lado de outras atividades de grande tradição na formação econômica do município, como o comércio, o turismo e a economia criativa. “Entende-se que a indústria deve seguir como vetor estratégico de diversificação econômica, ao lado da posição logística privilegiada de Juiz de Fora – no cruzamento das BR-040 e BR-267, com aeroporto habilitado para operações de comércio exterior.”

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De acordo com o secretário, além da posição física, o Município oferece como atrativo a agilidade na abertura de empresas: “O tempo médio de registro caiu de 35 horas, em 2020, para 15 horas, em 2026, segundo o Mapa das Empresas do Governo federal, resultado do programa Desenrola Juiz de Fora e da atuação da Sala do Empreendedor como uma porta de entrada facilitada para investidores.” Ainda segundo ele, o Núcleo de Apoio às Empresas do Distrito Industrial – parceria entre PJF e Associação das Empresas do Distrito Industrial – realiza atendimento regular, buscando articular soluções, favorecendo a proximidade constante entre poder público e setor produtivo. “Esse conjunto de fatores, a força do capital humano, a rede de ensino e pesquisa presente na cidade, a sua vida cultural diversificada, as crescentes conexões internacionais, tornam Juiz de Fora um lugar destacado para a instalação de novas empresas.”

Sobre a revitalização do Distrito Industrial, que reúne 114 empresas, gerando cerca de 21 mil empregos diretos e indiretos – e vista como uma das condições fundamentais para essa nova etapa da reconstrução do setor -, Ignácio anuncia que, das quatro etapas previstas, três já tiveram suas entregas concluídas, com obras de drenagem, pavimentação e infraestrutura que atenderam demandas antigas das empresas instaladas na região. “Resta a execução da quarta etapa, cuja infraestrutura de drenagem e pavimentação já conta com um convênio firmado entre o Município e a Codemig. Paralelamente, estão projetados, também, investimentos hídricos para a região, como a construção de uma nova adutora e de uma estação de tratamento de água, com recursos pleiteados junto a órgãos de fomento e já aprovados pela Câmara Municipal”, detalha o secretário.

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Geração de empregos cai, diante dos impactos das chuvas

“Indústria do futuro será mais tecnológica, automatizada, sustentável e integrada às cadeias globais”, reforça Mariângela Marcon, presidente da Fiemg Regional Zona da Mata (Foto: Arquivo pessoal)

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho revelam que, no primeiro semestre de 2026, a geração de empregos formais em Juiz de Fora perdeu ritmo, após o bom desempenho no mesmo período de 2025. “A desaceleração foi determinada, principalmente, pelos serviços, cujo saldo passou de 5.451 para 445 vagas. O comércio ampliou a perda de postos de trabalho, de 173 para 687 vagas, enquanto a indústria de transformação passou da criação de 279 postos para a perda de 192. Em contrapartida, a construção manteve desempenho favorável, com a criação de 703 postos.” Ainda conforme a Fiemg, o resultado pode ter sido influenciado pelos impactos das fortes chuvas de fevereiro, que afetaram a atividade econômica local, e pelo cenário de juros elevados, que restringe o crédito, o consumo e os investimentos.

A Fiemg entende que esses números reforçam a necessidade de investir em qualificação profissional e em política de desenvolvimento industrial de longo prazo, que ultrapasse governos e ciclos eleitorais. A expectativa, para os próximos meses, é de manutenção de saldos positivos de emprego, em ritmo moderado, pois juros elevados, crédito restrito e incertezas fiscais e eleitorais tendem a limitar as contratações. “Não existe indústria competitiva sem pessoas qualificadas. A transformação tecnológica está criando novas profissões e exigindo novas competências. Automação, inteligência artificial, robótica, análise de dados, manutenção avançada, eficiência energética e processos sustentáveis já fazem parte da realidade industrial. Por isso, a aproximação entre indústria, educação e poder público precisa ser cada vez maior”, analisa Flávia Gonzaga.

Nesse contexto, segundo ela, o Senai tem papel estratégico. “Como conselheira da instituição, vejo a formação profissional como uma das principais ferramentas para preparar Juiz de Fora para essa nova economia. O Senai não deve ser visto apenas como uma escola profissionalizante, é um instrumento de competitividade industrial. Ao preparar trabalhadores para as novas tecnologias e apoiar as empresas na inovação e na melhoria dos processos, contribui diretamente para aumentar a produtividade e a capacidade de crescimento da indústria.”

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Flávia vislumbra uma agenda conjunta, mobilizando PJF, Governos estadual e federal, sindicatos, CIJF, Fiemg, Senai, universidades, instituições financeiras e o setor produtivo. “Essa política deveria estabelecer metas para atração de investimentos, revitalização dos distritos industriais, qualificação profissional, inovação, crédito, infraestrutura, sustentabilidade e expansão das empresas que já estão instaladas. O futuro econômico da cidade precisa ser construído com emprego, renda, inovação e produção. E a indústria tem condições de ser um dos grandes motores dessa transformação.” Mariângela pondera que a indústria do futuro será diferente daquela que ajudou a construir a “Manchester mineira”: “Será mais tecnológica, automatizada, sustentável e integrada às cadeias globais.”

Acompanhe a série especial Por JF – 45 anos

Nos próximos domingos, a Tribuna mostra como as indústrias tradicionais conseguem continuar relevantes em uma economia marcada por tecnologia, comércio eletrônico, novas marcas e mudanças rápidas no comportamento do consumidor; como vive quem trabalha com cultura e economia criativa; como a produção de queijo pode se transformar em uma cadeia de desenvolvimento sustentável, capaz de gerar renda no campo, agregar valor à produção local e incorporar práticas ambientalmente mais responsáveis; como atuam pequenos produtores, artesãos e cooperativas que encontram na organização comunitária uma forma de gerar renda; e como a busca por saúde e qualidade de vida movimenta novos negócios em Juiz de Fora.

“Neste momento em que Juiz de Fora passa por um processo de reconstrução, considero muito positiva a iniciativa da Tribuna de olhar para as próximas décadas e perguntar quais atividades econômicas serão capazes de gerar emprego, renda e desenvolvimento para a cidade. Essa discussão precisa envolver toda a sociedade. E a indústria deve estar no centro dela – não por uma questão de nostalgia em relação à antiga “Manchester mineira”, mas porque os números mostram que ela continua sendo um componente estrutural da economia e pode ser uma das bases para um novo ciclo de desenvolvimento”, comenta a presidente da Fiemg Regional Zona da Mata.

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O Distrito Industrial como prioridade e eixo de conexão

“Juiz de Fora precisa mostrar ao investidor industrial que aqui ele terá infraestrutura, trabalhadores qualificados, fornecedores, serviços especializados, instituições de apoio e mercado”, aponta Flávia Gonzaga, presidente do CIJF (Foto: Arquivo Pessoal)

“O Distrito Industrial não deve ser visto apenas como uma área destinada à instalação de empresas. Ele precisa ser pensado como um ambiente de desenvolvimento industrial, conectado às universidades, ao Senai, aos centros de inovação, às instituições financeiras e às entidades empresariais. É preciso criar um ambiente no qual uma empresa que venha para Juiz de Fora encontre não apenas um terreno, mas um verdadeiro ecossistema para produzir, contratar, inovar e crescer”, defende Flávia Gonzaga, presidente do CIJF.

À frente da regional da Fiemg, Mariângela Marcon, aponta que, antes de atrair novas empresas, é preciso garantir condições adequadas para que aquelas já instaladas possam permanecer, crescer e investir. “A infraestrutura é uma questão de competitividade. O anúncio de R$ 14 milhões para obras de iluminação, drenagem e asfaltamento representa um passo muito importante nessa direção.” Para ela, o objetivo deve ser muito maior do que, simplesmente, ocupar terrenos. “Precisamos buscar empresas capazes de gerar empregos qualificados, agregar valor, incorporar tecnologia e formar cadeias produtivas locais. Juiz de Fora tem condições de buscar investimentos em segmentos nos quais já possui competências ou possibilidade de integração, como metalmecânico, alimentos, têxtil e confecção, materiais elétricos, automotivo, construção, química, plástico, logística e setores ligados à inovação e à indústria tecnológica.”

As lideranças enfatizam que a grande vantagem de Juiz de Fora é sua localização estratégica, com apoio de aeroporto regional habilitado para operações de comércio exterior, porto seco e ferrovia, sendo cercada de universidades e instituições de ensino técnico, que viabilizam mão de obra qualificada. “Mas localização, sozinha, não basta. Precisamos transformar esses ativos em vantagem competitiva real, com infraestrutura, segurança jurídica, agilidade para implantação de empreendimentos, qualificação profissional, energia, conectividade e logística eficiente”, diz Mariângela. “Hoje, os municípios competem entre si para atrair empresas. Portanto, não basta apenas oferecer incentivos. Juiz de Fora precisa apresentar um projeto de cidade industrial, mostrando ao investidor que aqui ele terá infraestrutura, trabalhadores qualificados, fornecedores, serviços especializados, instituições de apoio e mercado”, aponta Flávia.

O secretário da Sedic, Ignácio Delgado, observa que o Distrito Industrial representa uma parcela relevante da geração de riqueza do município. “Ele contribui para a atração de empresas ligadas à logística, ao comércio exterior e à indústria de transformação já consolidada na região, com estímulo por meio de um ambiente regulatório ágil, prospecção constante (inclusive na cena internacional), divulgação das potencialidades do Município e diálogo permanente com órgãos de apoio públicos e privados, em todos os níveis federativos.”

A indústria de alimentos

A indústria de alimentos também pode crescer muito em Juiz de Fora, na visão de Flávia Gonzaga, proprietária da empresa Condimentos Portuense e presidente do Sindicato das Indústrias de Alimentação de Juiz de Fora (SIA-JF). “A indústria de alimentos está diretamente relacionada ao consumo, à agricultura, à logística, ao comércio e aos serviços. Quando uma indústria de alimentos cresce, ela movimenta uma cadeia muito maior de fornecedores, transportadores, distribuidores, profissionais e produtores.”

Por estar perto de importantes mercados consumidores, Juiz de Fora tem condições para desenvolver ainda mais esse segmento, conforme a empresária. “Existe espaço para crescimento em alimentos processados, bebidas, condimentos, produtos de maior valor agregado, alimentos funcionais, produtos saudáveis, marcas próprias e produção para terceiros.” Flávia ressalta que as pequenas e médias indústrias, muitas vezes, possuem grande capacidade de crescimento e geração de empregos, mas enfrentam dificuldades de acesso a crédito, tecnologia, mão de obra qualificada e mercado. “Atrair e fortalecer empresas industriais significa aumentar a arrecadação, movimentar o comércio, estimular serviços, criar oportunidades profissionais e melhorar a renda das famílias. É uma atividade que ajuda a criar um ciclo virtuoso de desenvolvimento.”

Na opinião de Mariângela Marcon, Juiz de Fora tem ativos importantes, mas ainda precisa avançar bastante para transformar esse potencial em uma nova etapa de crescimento industrial. “Temos empresas, uma população expressiva, instituições de ensino, Senai, universidades, tradição industrial, mercado consumidor, localização estratégica e uma estrutura de serviços bastante diversificada. O desafio está em conectar esses ativos. Precisamos aproximar cada vez mais empresa, poder público, universidades, instituições de formação profissional e entidades empresariais. Precisamos formar as pessoas para os empregos que a indústria do futuro vai oferecer. Também precisamos enfrentar gargalos históricos de infraestrutura e logística. A Fiemg já apontou a necessidade de investimentos no Distrito Industrial, especialmente em sua quarta etapa, além da melhor utilização dos ativos logísticos existentes, como ferrovia, rodovias e aeroporto.

(Foto: Felipe Couri)
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