Ícone do site Tribuna de Minas

Bandidos diversificam estratégias e fazem mais vítimas por telefone

PUBLICIDADE

Velho conhecido da população, o golpe do falso sequestro continua a fazer vítimas em Juiz de Fora. De janeiro a maio deste ano, 14 pessoas oficializaram denúncias à Polícia Militar, depois de terem recebido ligações de estelionatários. No mesmo período de 2010, oito ocorrências foram registradas. O telefone toca e, do outro lado da linha, o golpista afirma manter em cativeiro um parente do interlocutor. Geralmente finge ser um policial ou bombeiro e garante que alguém da família sofreu um acidente. Entretanto, trata-se de um crime de extorsão. Diante da divulgação de determinados tipos de crimes, os golpistas estão mais ousados e começam a diversificar as estratégias para enganar as pessoas.

Entre as ocorrências registradas pela PM este ano, em Juiz de Fora, está a de uma professora que recebeu uma ligação, cuja voz de um homem dizia que estava assaltando a loja em que sua filha trabalhava. A vítima disse que não tinha filha e desligou o telefone. O golpista ligou novamente, afirmando que estava com a moça e que ela vestia blusa xadrez e calça preta e tinha cabelos compridos. De início, ela não acreditou no interlocutor, pois achava que a filha havia saído de short. Entretanto, o pintor que estava na casa lembrou que a moça havia saído mesmo com calça preta. Em seguida, nova ligação foi recebida, a voz do outro lado disse o nome da loja em que a filha trabalhava. Ele alegou que queria R$ 300, e a professora disse que não tinha. De acordo com a PM, o criminoso passou a exigir que a vítima vendesse suas joias, inclusive informou detalhes sobre sua aliança de casamento, com brilhante no meio. O homem ainda afirmou que a sequestrada possuía pintas no rosto.

PUBLICIDADE

A professora passou a viver momentos de pavor. Ela chegou a fazer recargas de celular no valor de R$ 300 e repassar ao golpista. O bandido determinou que a vítima passasse o número de um celular, com o qual passou a guiar os passos da mulher. Ela teve que sair de casa e, quando cruzou com um PM na rua, o bandido mandou que escondesse o celular. Neste momento, ela percebeu que estava mesmo sendo seguida. Por ordem do bandido, a vítima dirigiu-se ao Centro, onde vendeu duas alianças por R$ 330. Ela chegou a suspeitar de um homem de mochila que a seguia. Como estava no Centro, foi até a loja e constatou que a filha estava segura. Só aí, a professora acionou a polícia para pedir providências.

Mesmo nas modalidades mais divulgadas de golpe, as vítimas ainda perdem quantias mais altas. Em São Mateus, Zona Sul, uma mulher relatou que recebeu um telefonema a cobrar, no qual uma pessoa dizia estar com a filha dela sequestrada e com uma arma apontada para a cabeça. Foi exigido um depósito de R$ 10 mil. Assustada, a vítima disse que só tinha R$ 9 mil para o depósito, que foi realizado. O número da conta do depósito, ela não soube informar aos policiais, já que foi orientada a rasgar o comprovante e jogar em uma boca de lobo, porque estaria sendo monitorada. Só então, descobriu que a filha estava a salvo. A mulher ainda conseguiu bloquear R$ 2 mil, mas constatou que R$ 5 mil já haviam sido sacados e os outros R$ 2 mil, transferidos. Em janeiro, a Tribuna mostrou a situação de um casal de idosos do Bairro Santa Rita que perdeu R$ 800. O aposentado, 67, e a esposa, 66, relataram que, durante a madrugada, receberam a ligação de um desconhecido, alegando que havia sequestrado a filha deles. O criminoso exigiu a quantia para libertar a vítima. Na manhã, o casal fez o depósito e, só depois, descobriu que a filha estava em segurança.

 

‘Melhor é desligar o telefone’

Para o delegado chefe do Departamento de Investigação de Crimes contra o Patrimônio de Belo Horizonte, Islande Batista, ao receber uma ligação deste tipo, a maioria das pessoas entra em choque emocional e acredita que a voz que ouve no fundo é do seu familiar. Ele orienta que o melhor é desligar o telefone. "Ao receber o telefonema, a vítima deve manter a tranquilidade e não acreditar. Se o criminoso está com um ente seu, terá que prová-lo. Neste caso, o sequestrador exigiria uma vantagem maior, e não créditos de cartões pré-pagos ou pequenas quantias." Islande afirma que, quando realmente existe alguém em cativeiro, os bandidos não costumam colocar o sequestrado gritando ao fundo. "São apresentadas provas concretas." O delegado alerta que, depois de o telefone ser desligado, a polícia precisa ser acionada imediatamente, e o parente citado pelos golpistas procurado. Outra forma para desmantelar o golpe seria pedir para falar com a vítima. "Isso irá fazer com que o golpista desista da ligação, pois não terá meios de prová-lo."

PUBLICIDADE

Risco para a saúde

Uma jornalista, de 55 anos, moradora da Zona Leste, também viveu momentos angustiantes no mês passado, quando recebeu a ligação de um bandido, dizendo que estava com sua filha. "Ao fundo, uma pessoa pedia socorro e tinha a voz idêntica à da minha filha. Ela dizia: ‘Mãe me salva, faz o que eles estão dizendo’. Na hora, foi só desespero", contou a vítima, lembrando que a ligação foi recebida por volta das 14h e, quase quatro horas depois, mesmo sabendo que a filha estava fora de perigo, só conseguiu tranquilizar-se com calmantes. "Não adianta falar o que a gente deve fazer ou não, porque, na hora, nada acontece. Consegui falar com meu irmão, e ele achou minha filha. Só assim pude desligar o telefone", relatou, observando que o telefonema era a cobrar. "As pessoas têm que ficar em alerta, pois, com o susto, é provável que alguém possa morrer do coração."

PUBLICIDADE

Conforme o psicólogo social Lélio Lourenço, as vítimas reagem de formas diferentes. Algumas apresentam atitude agressiva e desligam o telefone imediatamente, outras ficam traumatizadas e angustiadas. "Isso depende das características da pessoa. Muitas entram em estado de pânico e cometem atos impensados, como depositar dinheiro." Segundo ele, já chegou ao seu conhecimento uma nova modalidade do golpe. "Algumas pessoas ficam na porta do cinema e simulam fazer pesquisas, cadastrando quem vai entrar. Depois que entram para assistir ao filme, os bandidos ligam para a casa da vítima e afirmam que ela foi sequestrada. Isso é terrível, porque os familiares tentam contactá-la, mas não conseguem, porque o celular foi desligado. Assim, os golpistas têm, no mínimo, duas horas para a fraude", afirma o psicólogo, acrescentando que a melhor arma contra este crime é a conscientização, além da busca permanente por informações. Lélio afirma, no entanto, que, caso a vítima tenha cardiopatias, principalmente idosos, pode haver problemas sérios e até morte.

 

Golpe geralmente envolve quadrilha

Geralmente, como aponta o delegado Islande Batista, de Belo Horizonte, o falso sequestro é um golpe que parte do interior das penitenciárias, com bandidos utilizando celulares perdidos ou furtados, conseguidos de forma irregular nas cadeias. "Primeiro, eles ligam e falam que a vítima foi sorteada e deve comprar cartões pré-pago e passar o número para ganhar o prêmio. Com os créditos, conseguem ligar para outras pessoas e aplicar o falso sequestro." Conforme o policial, a investigação deste tipo de crime é complicada, porque ele ocorre dentro de um estabelecimento carcerário, o que dificulta o monitoramento. "Por acontecer por meio de aparelhos celulares, muitas vezes, a polícia faz o rastreamento e chega até o proprietário, que informa que o celular foi perdido ou furtado." Assim, os bandidos agem com a ajuda de quadrilhas do lado de fora da cadeia, para abertura de contas laranjas, com uso de documentos falsos, para depósito do dinheiro do resgate. "Chegamos aos titulares das contas, e estes também foram alvo de golpes, pois tiveram seus documentos falsificados. Isso demonstra que o falso sequestro é precedido por uma série de outros delitos. É o tipo de crime que só pode ser cometido em quadrilha."

PUBLICIDADE

Ressarcimento

De acordo com Islande Batista, nas ocorrências em que o dinheiro do resgate não foi sacado e se consiga provar a ocorrência do golpe, é possível que a vítima seja ressarcida. Entretanto, ele enfatiza que chegar à autoria do crime é complicado. "O dinheiro é depositado em nome de laranjas. Nestes casos, o banco será responsabilizado só se para a abertura da conta foram apresentados documentos grosseiramente falsificados, qualificando o crime."

Sair da versão mobile