
No Parque Guarani, obra que seria realizada sem responsável técnico foi interditada
Os temporais do fim de semana causaram estragos em várias regiões da cidade, mas, conforme especialistas, a força da água não foi a única responsável pelos problemas registrados. Uma construção e quatro residências precisaram ser interditadas. Além disso, houve registros de alagamentos e de deslizamentos de talude em diversos pontos da cidade. Entre sábado e segunda-feira, a Defesa Civil recebeu 118 chamados relacionados às fortes chuvas. Uma das ocorrências mais graves foi o desabamento da laje de uma casa na Rua São João Batista, no Parque Guarani, Zona Nordeste. A família precisou deixar o imóvel.
Segundo a moradora Lucilene Mendes, o segundo andar estava sendo ampliado há cerca de um ano e meio. Os moradores perceberam que alguns azulejos começaram a cair no início da noite de domingo e saíram de casa. "Só tínhamos o projeto de um arquiteto e não demos entrada da reforma na Prefeitura. Agora chamamos um engenheiro para confirmar o que precisa ser feito", afirma Lucilene. Conforme a Defesa Civil, a estrutura comprometida da casa deverá ser demolida. Moradores de dois imóveis do entorno (que servem de moradia para três famílias) foram orientados deixar as residências até que os serviços sejam realizados.
Conforme o subsecretário de Defesa Civil, major José Mendes da Silva, a obra seria irregular, já que não tinha responsável técnico. Ele informa que os proprietários foram orientados a regularizar a situação e se comprometeram a solucionar os problemas identificados.
Na noite de sábado, na Avenida Rio Branco, altura da Garganta do Dilermando, o muro de uma casa e parte de um campo de futebol do mesmo imóvel desabaram atingindo um canteiro de obras, no terreno vizinho. Moradora da residência, a advogada Ione Dias conta que o filho, 10 anos, e um amigo jogavam bola no campinho horas antes do acidente. "O prejuízo não é só material, porque meu filho e o colega correram risco." A Defesa Civil esteve no local e interditou duas casas no entorno.
A empresa responsável pelas obras no terreno ao lado foi notificada pelo órgão e pela Secretaria de Atividades Urbanas (SAU). Pelo termo de intimação da SAU, os responsáveis pela construção devem providenciar colocação de lona plástica ou vinílica nos taludes, além de fazer contenção, projetada e acompanhada por engenheiro.
A Rua João Carriço, no Centro, foi interditada após um desmoronamento de terra em uma obra, no domingo. Conforme moradores, um barulho intenso foi ouvido, e a fiação pegou fogo. "Quando olhei pela janela, descia muita terra, e o transformador estava em chamas. Parece que uma árvore atingiu os fios. Ficamos preocupados, com medo de a terra chegar aos edifícios da parte baixa da rua", explica o vendedor Fernando Cruz, 32 anos. Durante todo o dia, funcionários da empresa responsável pela obra do prédio em construção trabalharam na retirada do material e, no início da noite, o trânsito foi liberado em meia pista. Segundo a Cemig, a energia foi restabelecida entre domingo e ontem.
Conforme o subsecretário de Defesa Civil, tanto no caso da Avenida Rio Branco quanto no da Rua João Carriço, as obras são regulares e as responsabilidades pelas correções são dos construtores ou responsáveis técnicos, já que teriam sido feitas escavações no período chuvoso, "o que não é recomendado".
No Bairro Santa Paula, região Leste, um deslizamento de terra, no domingo, destruiu parte do asfalto na Rua Joaquim Marques Coimbra. A Defesa Civil interditou a via para passagem de veículos. Logo abaixo, a Rua Sebastião Rodrigues ficou com o trânsito em meia pista após queda de um barranco. No Granjas Bethânia, Zona Nordeste, um deslizamento de terra na Rua Avelino Jacob da Silva deixou duas residências ameaçadas na rua de cima, a Nove de Julho. Apesar de a terra não ter atingido nenhum imóvel, dois imóveis foram interditados preventivamente.
Alagamentos provocam danos por toda a cidade
Uma ponte de madeira localizada no Bairro Retiro, Zona Sudeste, voltou a cair no fim da noite de domingo e deixou novamente cerca de 40 famílias ilhadas. A estrutura é a única passagem para quem mora às margens do córrego que corta a região e já havia sido destruída pela força das águas no fim de dezembro, sendo reconstruída pela Secretaria de Obras. De acordo com a assessoria da pasta, o acesso ao local foi restabelecido ainda ontem.
No Bairro Linhares, região Leste, vias próximas ao Córrego do Yung foram alagadas no domingo. Na manhã de segunda, o barro ainda tomava conta das vias. As ruas Itália e Lamartina Ferreira Leite ficaram interditadas, mas funcionários da Prefeitura trabalhavam na limpeza da pista. Na Rua Odilon Braga, apesar da lama, a passagem de carros já estava liberada ontem.
Segundo o secretário de Obras, Jefferson Rodrigues Júnior, o grande volume de chuvas, em um curto espaço de tempo, provocou os alagamentos. Ele explica que o ideal seria canalizar os três córregos que cortam o Linhares, mas argumenta que existe impasse ambiental.
Repercussão
Usuários das redes sociais postaram fotos de diversas ruas alagadas. A Avenida Itamar Franco (antiga Independência), na altura do São Mateus, ficou tomada pela água por volta das 16h30 de domingo. Rivail Xavier, morador da região, registrou a avenida completamente alagada e disponibilizou a imagem no Facebook. As inundações também aconteceram em locais onde o problema é antigo, como no cruzamento das avenidas Rio Branco e José Procópio Teixeira, no Bom Pastor, na Rua Padre Café, no São Mateus, e em vários pontos do Grama.
De acordo com Jefferson, muitos pontos de alagamentos só serão solucionados após obras de grande porte, que necessitam de recursos dos governos federal e estadual. Na Avenida Rio Branco, próximo ao Bom Pastor, as intervenções têm custo estimado em R$ 5 milhões. "O município não dispõe deste montante. Este alagamento ocorre porque o asfalto prejudica a infiltração da água no solo." Ele pondera que a construção de redes de água pluvial não ocorre na mesma proporção da impermebialização da cidade.
Nesse trecho, é necessário uma rede de captação ligada ao sistema já existente na Avenida Itamar Franco, na altura da Rua Doutor Romualdo. O mesmo ocorre na Itamar Franco, altura do São Mateus, onde as obras estão orçadas em R$ 3 milhões.
Sobre os alagamentos na região periférica, como no Bairro Grama, o secretário disse que bocas de lobo entupidas podem ter causado os problemas. Equipes da Secretaria de Obras e do Demlurb trabalharam ontem em várias áreas para corrigir o problema.
Frente fria começa a perder força
Em três dias, choveu mais da metade do esperado para todo o mês, conforme o 5º Distrito de Meteorologia, em Belo Horizonte. O volume de precipitações atingiu 158,3 milímetros, entre sábado e segunda. A média histórica de janeiro é 299,8 milímetros, enquanto no acumulado deste ano, as chuvas já somam 385,5 milímetros. De acordo com a meteorologista Anete Fernandes, a frente fria que atuava na Zona da Mata começou a perder força, e a temperatura deve aumentar a partir des terça. "Ainda pode haver pancadas de chuva de curta duração." Os termômetros devem registrar entre 15 e 24 graus.
Apenas entre as 16h de domingo e as 16h de segunda, a Defesa Civil registrou 96 ocorrências. A Zona Leste foi a mais afetada, com 37 chamados. Destaque também para as regiões Norte e Nordeste, com 20 e 17 casos, respectivamente. Ameaças e escorregamentos de talude somaram 52 registros, ocorrências envolvendo muro de contenção e divisa, 18, e trincas em pisos, paredes e lajes, 11.
Fenômeno climatológico
Durante a chuva de domingo, o céu pode ser observado em uma coloração laranja. Segundo Anete, trata-se de um efeito ótico, ocasionado pela radiação solar que incide nas gotículas de água. "É um fenômeno raro no verão, mas comum no inverno."

