
Unidos na dor, familiares relembram os últimos momentos de Heyder e se preparam para passeata pela paz na cidade
Heyder Mychell Vieira Gomes, 24 anos. Assassinado por engano. O jovem, que estava em um bar na Vila Ozanan, na região Sudeste, local onde nasceu e cresceu, saiu para atender a uma ligação de sua namorada na calçada e foi executado com três tiros na cabeça. Surpreendido pelo atirador que desceu de uma motocicleta, o trabalhador não teve tempo de reagir – nem mesmo notou a aproximação do assassino, sendo alvejado pelas costas – e morreu ali mesmo, confundido com um jovem ligado ao tráfico. O caso é só mais um que envolve inocentes que tiveram – ou ainda terão – a vida abreviada pela guerra do tráfico de drogas em Juiz de Fora. Sem hora e sem local para acontecer, a matança desenfreada coloca cidadãos de bem em constantes situações de risco. No mês passado um homem de 50 anos também morreu depois ficar 13 dias internado em estado grave após ser baleado dentro da Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps) do Bairro Santa Rita, na Zona Leste. Flávio Otoni Rodrigues também não tinha relação com os envolvidos. Só estava na hora errada, no lugar errado – ao lado do alvo na fila de atendimento – e acabou sendo atingido pelo criminoso que mirava Maxwell Ferreira Guedes, executado no local, frente a outras quase 50 pessoas. Por causa da violência, a única unidade de saúde do bairro chegou a ficar fechada temporariamente.
As cenas até se assemelham a de antigos faroestes. O atirador chega e dispara, sem se importar com quem está ao redor. Só que o bangue-bangue não é mais no “Velho Oeste”, acontece aqui, na vida real, vitimando cada vez mais pessoas e afetando a vida das comunidades, sobretudo daquelas que vivem em áreas onde é evidente o poderio paralelo do tráfico. Diante dessa guerrilha, Juiz de Fora pede paz. Neste sábado, amigos e familiares do jovem Heyder realizam um ato para chamar a atenção das autoridades e dos juiz-foranos para a violência na cidade, e cobrar agilidade da polícia para que novos casos não aconteçam. Eles pretendem deixar a Vila Ozanan, por volta das 10h, em passeata em direção ao Parque Halfeld.
Parente e amiga de Heyder, uma jovem usou a rede para fazer um alerta. “Juiz de Fora, acorda! Quantos outros jovens vamos perder? E quantas outras mães chorarão sobre os corpos?”, diz ao final de seu desabafo. “É incrível as armadilhas que a vida nos reserva. Nós, os mocinhos de boa família e conduta, jamais esperamos ser mortos feito bandido. Infelizmente temos a falsa segurança de que conosco esse tipo de coisa não acontece”, lamenta a jovem. Ela fala da boa vizinhança e de como tudo se transformou. “A rua da minha infância foi cenário de um crime cruel, levaram um dos meus, sem conversa, sem briga, sem nem mesmo olhar quem era o infeliz que teria sua vida roubada.Eu quero ir para casa, mas não quero ir para casa onde eu moro hoje, pois lá eu tenho medo. Eu quero ir para casa da minha infância.”
Desabafo da vítima
O próprio Heyder, dias antes de ser morto, postou um desabafo em um grupo de whatssap. “O que está acontecendo? Todo mundo criado junto, e olha as coisas que estão acontecendo, quantos amigos vamos ter que perder para isso acabar?”. Somente na Vila Ozanan, entre maio e novembro deste ano foram cinco assassinatos. Inconformado, o irmão Fernando Mychell Vieira Gomes, 26, administrador, que recebeu as mensagens pelo whatssap também diz sentir saudades dos velhos tempos. “Vários amigos de infância morreram. Muitos porque escolheram o caminho errado, mas meu irmão não. Saía de casa todo dia para trabalhar por volta das 5h30.” Fernando conta que, segundo testemunhas, o próprio atirador viu o engano. “Ele teve sangue frio de tirar o boné do meu irmão e olhar seu rosto. Disseram que ele balançou a cabeça, negativamente, como se tivesse realmente matado a pessoa errada.”
Além de Fernando, Heyder tinha ainda outros dois irmãos. Reunida na sala da casa simples, a família encontra na união a força para driblar as marcas da tragédia. A mãe, a dona de casa Célia Maria Vieira, 49, não consegue dormir e teme pela vida dos outros filhos. “Não tenho mais paz. Os moradores todos estão com medo.” O pai, o autônomo Fernando Tadeu Gomes, 55, foi o primeiro a ver o filho morto. “Quando cheguei lá, já não respirava.” A namorada, Isabela Neves, 20, também chora o luto. “Queremos mais agilidade, mais respeito com ele, por isso a passeata.”
De acordo com o titular da Delegacia Especializada de Homicídios, Rodrigo Rolli, dois suspeitos de envolvimento no homicídio de Heyder estão identificados, e as investigações prosseguem. “Sabemos do equívoco. Todos nos relataram que as vestimentas e o porte físico da vítima eram muito parecidos com os do suposto alvo, envolvido com o tráfico. Heyder era um jovem ‘do bem’, assim como o Flávio Otoni Rodrigues, baleado na Uaps do Santa Rita.”Segundo Rolli, quatro dias depois do homicídio o irmão da vítima foi ouvido. “Mas não conseguimos arrolar testemunhas do crime, porque pediram para não serem identificadas, temendo serem as próximas vítimas.”
O poder paralelo do tráfico
Não é só na Vila Ozanan que a comunidade vive acuada pelo poderio paralelo do tráfico de drogas. Outros bairros vizinhos como Olavo Costa e Vila Ideal – com cinco registros recentes de homicídios – também assistem à disputa por pontos de venda ou as dívidas de drogas resultarem em mortes bárbaras – a maior parte das vítimas vem sendo morta perto das residências ou na frente de familiares. E os “recados” dos traficantes são cada vez mais diretos. Há dois meses, o corpo de uma mulher foi jogado em um barranco às margens da antiga Estrada União e Indústria, após o Bairro Vila Ideal, na altura das Granjas Primavera, Zona Sudeste. A vítima foi encontrada “envelopada” em um plástico, apenas com um dos braços para fora. Dentro de uma bolsa próxima ao cadáver, um bilhete com os dizeres: “Sonegador de dívida de drogas, o seu lugar é na sepultura.”
Em bairros da região Leste – outra área com maior prevalência da violência ligada ao tráfico – as histórias se repetem e os moradores ficam cada vez mais acuados. São Benedito, Vila Alpina e São Sebastião somam 12 mortes. Na região, a força do tráfico impõe a lei do silêncio. No São Bernardo, um dos pontos turísticos do município, o mirante, foi tomado por traficantes – que temendo a aproximação de traficantes do Santa Cândida – não deixam qualquer um se aproximar. No dia 13 de setembro, Eduardo de Souza Júnior, 16 anos, que passava em uma motocicleta pelo local foi morto a tiros. No Santa Rita, onde a Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps) foi invadida em outubro, já são seis mortes este ano ( ver arte).
Na região, no mês passado, as polícias Civil e Militar realizaram uma força-tarefa na Zona Leste para capturar 11 suspeitos de envolvimento em três homicídios interligados ocorridos na área. Cinco deles, sendo dois adolescentes, uma mulher e dois homens, tinham ligação direta ou indireta na execução de Maxwell Ferreira Guedes, 25 anos, no dia 1º, dentro da Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps) do Bairro Santa Rita. Posteriormente um jovem de 18 anos que, segundo a Polícia Militar, é suspeito de envolvimento em crimes violentos, como várias tentativas de assassinato ocorridas recentemente na Zona Leste, foi preso no Santa Cândida. Ele dispensou uma pistola 380 e ainda foi flagrado com drogas quando seguia em um táxi Prisma pela Rua Dante Bellei.
Reação da polícia
Já na quinta-feira, outra grande ação, desencadeada pela Delegacia Especializada de Homicídios, resultou na prisão de nove homens, com idades entre 18 e 25 anos, suspeitos de envolvimento em sete assassinatos ocorridos nos últimos meses, cinco deles nas regiões Leste e Sudeste.
Para o delegado Rodrigo Rolli, as manobras demonstram que a polícia tem conseguido trabalhar e desvendar crimes. Mas o fato de a “lei do silêncio” imperar em vários bairros atrapalha muito as investigações, já que as pessoas receiam depor. “No caso do Heyder, os investigadores conseguiram coletar informações junto a populares, que não querem se identificar. Infelizmente, nesses locais de alta incidência criminal, as pessoas temem, há a ‘lei do silêncio”.
Segundo Rolli, as zonas Leste, Sudeste e Norte são os três principais locais de homicídios e tentativas. “Estou focando nos inquéritos que têm nomes repetidos (de suspeitos) nessas regiões, produzo provas e pleiteio mandados de prisão e de busca e apreensão para que culminem em ações como essas.”
Para Rolli, não são comuns na cidade “matadores de aluguel”, mas ele admite que pessoas podem ser levadas a matar para saldar dívidas, normalmente com traficantes.
O delegado enfatizou que o combate aos crimes violentos envolve vários setores. “Estou trabalhando dentro das minhas capacidades físicas e logísticas, aguardando a compreensão do Judiciário quanto aos nossos pedidos de prisão e apreensão para fazermos as ações policiais com o intuito de diminuir essa criminalidade.”
O delegado lembrou da importância da população contribuir para as investigações, mesmo que anonimamente. “Em Minas, temos uma ferramenta importante, que é o 181 (Disque-Denúncia Unificado). A população pode nos alimentar com todos os dados do crimes de forma anônima. Mas, infelizmente, o número de denúncias que temos ainda é ínfimo diante da criminalidade.” Ele disse que denúncias também podem ser feitas diretamente para a Delegacia de Homicídios, pelos telefones 3235-6521 e 3235-6478. “Nos ajude dando informações de forma sigilosa”, conclama.
*Colaborou Sandra Zanella

