Barracas ocupam calçadas e pistas de veículos
Os cerca de 30 ambulantes que hoje ocupam parte das calçadas e das pistas de veículos da Avenida Getúlio Vargas precisarão ser transferidos. A mudança pode ser definitiva e foi anunciada aos camelôs da região há uma semana, dividindo opiniões. Ela seria necessária para aumentar a segurança na via e também por causa dos trabalhos de reestruturação previstos para a avenida. A expectativa é de que as mudanças sejam implantadas a partir de 60 dias. Já na sexta-feira, em encontro com o Sindicato do Comércio (Sindicomércio), a Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) também explicou à categoria detalhes do projeto de revitalização da Getúlio Vargas e cobrou apoio dos lojistas para possibilitar as intervenções, principalmente no que diz respeito às melhorias nas calçadas e nas marquises.
Para o presidente do Sindicomércio, Emerson Beloti, a retirada dos ambulantes é necessária, para melhorar o fluxo de veículos e pedestres na avenida. "O passeio é do pedestre, não deve ser usado nem pelo comerciante nem pelo ambulante." Além disso, Beloti acredita que a atuação nas ruas é degradante, "pois os trabalhadores ficam expostos ao sol e à chuva e não têm banheiro". Ele defende que a construção de um shopping popular no Centro é benéfica, já tendo sido adotada por outros municípios de porte médio e grande, como Montes Claros, Volta Redonda (RJ) e Curitiba (PR).
Os camelôs concordam que será preciso deixar a Avenida Getúlio Vargas durante as obras de revitalização, mas ainda não aceitaram a proposta da Prefeitura. "Eles querem que a gente ocupe um galpão aqui na Getúlio mesmo, onde já funcionaram boxes populares, que não deram certo. Nosso medo é perder o rendimento, porque não adianta retirar só alguns ambulantes, é preciso que todos do Centro saiam juntos. Assim, até podemos ir para lá, mas, se os que atuam em outras ruas continuarem, será injusto", diz a vendedora Onéia Satiro Medeiros, 64 anos. Ela atua há 31 anos como ambulante e diz que a categoria quer chegar a um acordo pacífico com a Administração Municipal. "Não queremos briga, mas solução."
Proprietária de uma barraca na Getúlio, Maria das Graças Oliveira, 62, atua há 20 anos no mesmo ponto, na esquina com a Batista de Oliveira. Segundo ela, uma proposta feita pela categoria é ocupar as vias perpendiculares, como Marechal Deodoro, Halfeld e Floriano. "Essa alternativa do galpão é válida, desde que tivéssemos mais garantias e que não houvesse a concorrência dos outros camelôs que continuarão nas ruas. Porque, tendo alguém no caminho, o cliente não se deslocará até lá para comprar", defende Maria das Graças. Segundo ela, a Prefeitura se responsabilizaria pelo aluguel do novo espaço por cinco anos, mas os trabalhadores temem que o movimento seja menor e que, depois desse prazo, não consigam arcar com os compromissos.
Conforme a assessoria de comunicação da SAU, a pasta tem conhecimento da proposta apresentada pelos ambulantes e esclarece que ainda não há definição sobre a situação, que está sendo analisada. O ambulante Marco Antônio da Silva, 47, diz que a classe elegeu quatro representantes para negociar com a Prefeitura e tentar o acordo.
Ainda conforme a pasta, a retirada das barracas da Getúlio deve ocorrer a partir de dois meses, tempo considerado suficiente para que uma alternativa seja encontrada. Ainda não está certa qual será a nova área de ocupação. O galpão na mesma avenida, situado ao lado da agência da Caixa Econômica Federal, é apenas uma das propostas em estudo. Ainda segundo a assessoria, novas reuniões serão marcadas para que o diálogo entre as partes continue.
Melhoria da mobilidade urbana
A revitalização da Avenida Getúlio Vargas envolverá uma série de mudanças que visa a aumentar a mobilidade urbana. O projeto inicial apresentado pela Prefeitura engloba recapeamento, instalação de abrigos para ônibus, melhorias nas calçadas – que devem seguir o mesmo modelo da Rua Santo Antônio -, adequação de placas, letreiros e marquises, bem como a remoção dos camelôs. Para tal, o Poder Público pediu a parceria dos lojistas, que são responsáveis pelas correções nos passeios e nas estruturas das fachadas dos edifícios. Conforme informação da Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) apresentada ao Sindicomércio, a maioria dos estabelecimentos tem marquises com infiltração, o que oferece risco aos pedestres. Por isso, a Prefeitura solicita a manutenção pelos proprietários dos imóveis, conforme estabelece a legislação municipal.
Segundo o Sindicomércio, os comerciantes estão dispostos a participar e a mobilizar os proprietários dos imóveis para efetivar as melhorias. No entanto, o sindicato deseja que as ações ocorram em conjunto, para que não haja responsabilização apenas dos lojistas, sem que a Prefeitura realize simultaneamente as melhorias propostas para a via.
Questão social
O presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) de Juiz de Fora e professor do Departamento de História da UFJF, Marcos Olender, acredita que toda iniciativa para melhorar o planejamento urbano é bem-vinda, mas deve ocorrer com participação popular, para que a utilização do espaço seja pensada em conjunto com o Poder Público. Em relação à retirada dos camelôs, Olender pondera que é preciso encarar como um problema social. "Algo tem que ser feito, mas de maneira equilibrada. É preciso pensar na mobilidade urbana, mas também na população que vive desse comércio, que deveria ser melhor disciplinado e ocorrer em áreas demarcadas."
De acordo com a doutora em arquitetura Raquel Braga, especialista em mobilidade urbana sustentável, a situação dos ambulantes deve ser resolvida por meio do diálogo. "É um caso delicado porque, em algumas cidades do porte de Juiz de Fora, onde a medida foi adotada, os comerciantes foram fortemente prejudicados. Isso porque a nova localização não se tornou atrativa ao público, e eles tiveram perdas nos ganhos e na qualidade de vida." Por outro lado, conforme Raquel, a retirada dos camelôs em um local onde o fluxo de veículos e pessoas é intenso, como na Getúlio Vargas, resultaria, tecnicamente, em um ganho. "É uma questão muito difícil, porque, ao mesmo tempo que atrapalham, eles são autorizados a estarem naquela área, e dependem daquele movimento. As ações devem ser discutidas, e não impostas."
