Na reta final para a prova do Enem, que será realizada nos próximos dias 3 e 4 de novembro, especialistas orientam que uma das melhores formas de preparação é resolver edições antigas do teste. Para o especialista em avaliação Cipriano Luckesi, entretanto, não é possível fazer uma conjectura sobre o exame, observando apenas itens isolados. O Enem serve-se como plataforma de construção dos instrumentos de coleta de dados sobre o desempenho dos educandos, o que também se reflete na sua correção pela Teoria de Resposta ao Item. Desse modo, seria inadequado tecer qualquer comentário sobre questões isoladas, à medida que fazem parte de um conjunto.
Ele destaca, todavia, que a prova é baseada em matrizes do conhecimento, que fundamentam a elaboração de questões por áreas do saber. Elas se dedicam a investigar as habilidades adquiridas pelos educandos, que, somadas e dinamizadas na personalidade de cada um, compõem o que denominamos de competências, o que, por sua vez, significa a capacidade de fazer alguma coisa de modo adequado e satisfatório. É o que também indica a especialista em instrumentos de avaliação e coordenadora-geral do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da UFJF (Caed), Lina Kátia Mesquita. O Enem aponta para a importância da construção progressiva de conhecimentos integrada num conjunto mais amplo de recursos cognitivos e de atitudes favoráveis a uma aprendizagem significativa atrelada aos temas da atualidade. A ênfase não está no acúmulo de saberes, mas no exercício desses saberes.
Desde 2009, o exame possui uma proposta de redação dissertativa e 180 questões, divididas em quatro setores do conhecimento: linguagens, códigos e suas tecnologias, ciências humanas e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias e matemática e suas tecnologias. A Tribuna pediu que especialistas analisassem uma questão de cada um destes grupos, selecionadas da edição de 2011 (ver quadro). Os profissionais apontaram, ainda, temas que podem ser abordados este ano.
Redação
Com o peso de mil pontos sozinha, a redação é determinante. Para a professora do Cave Marta Barone, é importante que o candidato tenha conhecimento de filosofia e sociologia. Os conteúdos que poderão ser usados de forma interdisciplinar são os mais diversos. Mas estas duas áreas são importantes para auxiliar no desenvolvimento do debate apresentado. No caso da prova do ano passado, ela aponta que há diversas habilidades em avaliação. A redação julga o domínio da língua culta, compreensão da proposta, seleção de argumentos, construção da argumentação e proposta de intervenção. A temática proposta pretende avaliar os conhecimentos que o aluno adquiriu ao longo de sua formação, considerando aspectos de natureza social, política, econômica, cultural ou científica, envolvendo o Brasil; sua capacidade de identificar ações que possam contribuir para a melhora da problemática em questão, bem como o respeito aos direitos humanos.
Em relação a assuntos para 2012, o docente do Stella Matutina João Moreira de Andrade Neto acredita em pouca variação. Como tradicionalmente o Enem tem valorizado temas que discutem o universo dos direitos humanos e dos impactos da tecnologia e das leis, algo nesse enfoque não seria surpresa.
Conhecimentos de diversas disciplinas
Para a professora de português do Stella Matutina, Marta Souza, a questão 3, da prova de ciências humanas e suas tecnologias do Enem 2011, tem critérios diversos. Ela avalia a capacidade leitora e interpretativa do estudante, seus conhecimentos sobre o mundo árabe contemporâneo, sua visão sobre as redes sociais, meios de exercício do poder dominante e, ao mesmo tempo, mecanismos de difusão de ideias que o contestam. Ela busca a intercomunicação efetiva entre história e geografia, e o aluno é avaliado por meio dos objetos particulares das disciplinas, voltados a construir um objetivo integrante, a saber, a Primavera Árabe.
Para a prova de 2012, a docente sugere que os candidatos fiquem ligados em fatos recentes. É interessante que eles se informem sobre a Comissão Nacional da Verdade, a Construção da Usina de Belo Monte, o Movimento #yosoy132 (Primavera Mexicana), o Processo do Mensalão, a Suspensão do Paraguai do Mercosul, os Trinta anos da Guerra das Malvinas, dentre outros.
Segundo Rubens Oda, da equipe de biologia do site Descomplica (www.descomplica.com.br), o item 51 de ciências da natureza e suas tecnologias aborda pontos diversos na área ambiental. Envolve fontes de energia e conservação da biodiversidade. A interpretação de questões ambientais é cotidiana uma vez que o aluno depara-se como sujeito ativo na alteração dos ecossistemas e observa que a mudança de hábitos pode contribuir com a maior conservação dos recursos naturais. Para ele, a interdisciplinaridade é uma marca do Enem. Temas como ecologia, energia e saúde, muitas vezes, aparecem como questões de química e física. Para o especialista, alguns temas devem ser revisados, pois têm chance de serem abordados. Ecologia, sobretudo problemas ambientais, lixo, relações ecológicas e ciclos biogeoquímicos. Saúde, genética e evolução também estão sempre presentes.
Importância de relacionar textos e seus contextos
Propondo a análise da canção Onde está a honestidade?, de Noel Rosa, a questão 103 de linguagens, códigos e suas tecnologias apresenta um segundo texto sobre o compositor e pede que o candidato verifique como é possível associar a letra da música à atualidade. A ideia é analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos de acordo com suas condições de produção e recepção. Particularmente, o item solicita que o aluno reconheça a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. A resposta, que remete à ironia na música, busca medir no aluno a capacidade de entender subentendidos e elementos implícitos na escrita.
Segundo a coordenadora-geral do Caed, Lina Kátia Mesquita, a questão 144 do exame de matemática e suas tecnologias interliga conhecimentos da área de exatas e humanas ao falar do consumo de café no Brasil. O objetivo é avaliar a habilidade de os estudantes estabelecerem relação entre as unidades de medida de capacidade: litro e mililitro, exigindo, também, a capacidade de mobilizar os conhecimentos relativos ao cálculo com números racionais em sua representação fracionária, mas isso aparece em um texto falando sobre hábitos de consumo do brasileiro, portanto é preciso saber interpretar a informação.
Para o especialista em avaliação Cipriano Luckesi, ainda há discrepância entre a forma de avaliação proposta pelo exame e o que é ensinado nas escolas. O ensino médio brasileiro, nas últimas décadas, centrou-se na preparação dos jovens para o vestibular e menos na formação como cidadão. Esse fato traz a implicação de que há uma defasagem entre a plataforma que orienta o ensino médio no país e a plataforma que orienta o Enem.
