O mundo a um clique de distância. Se a internet figura como verdadeira revolução social ao permitir a interação de pessoas de vários países, o que se percebe como tendência atual, no entanto, é uma preocupação cada vez maior em usar essa tecnologia global para promover debates sobre problemas locais. Em Juiz de Fora, multiplicam-se blogs, sites, comunidades e perfis em redes sociais que buscam, de alguma forma, modificar – para melhor – a realidade do município. Ainda que de forma tímida, internautas do município têm experimentado também fazer parte da rota de mobilizações nacionais, como "Na mesma moeda" (protesto contra os preços dos combustíveis), "Marcha da maconha" (pede a legalização da droga) e "Marcha da liberdade" (defende a livre expressão de ideias), movimentos cuja principal plataforma de organização das ações é o ambiente virtual.
No Facebook, perfis, como "Buracos de Juiz de Fora" e "Bairro Três Moinhos", reúnem centenas de juiz-foranos que buscam debater os problemas da cidade e cobrar soluções das autoridades. Os espaços são democráticos e recebem opiniões de todos que se dispõem a dar as caras – ou nem tanto, nos casos dos fakes (termo usado para denominar contas ou perfis usados na internet para ocultar a identidade real de um usuário).
"Inicialmente tentei fotografar, mas são tantos buracos, lombadas, remendos, imperfeições de toda espécie que somente um vídeo para ‘tentar’ mostrar a dificuldade e o desgaste que é transitar por esta via (Rua Francisco Cerqueira Cruzeiro)", diz uma recente publicação no "Buracos de Juiz de Fora", perfil no Facebook que reúne imagens e vídeos dos problemas no asfalto no município.
Já na comunidade "Juiz de Fora", no Orkut, entre dezenas de anúncios publicados, joguinhos propostos e tópicos curiosos, como "onde tem máquina de refrigerante aqui em JF?", os internautas também fazem, do espaço digital, uma verdadeira ágora contemporânea e promovem embates ideológicos sobre temas efervescentes na cidade. Sobre o aumento da passagem de ônibus, que passou a valer no dia 14 deste mês, e os protestos de um grupo de estudantes durante audiência pública na Câmara, por exemplo, um dos internautas opina: "É triste, mas nunca adianta nada esse tipo de manifestação boazinha com cartazes e tal. Tem que radicalizar para eles entenderem." Logo após, outro membro dá seu parecer: "Não precisa quebrar os ônibus, basta não utilizá-los, dói mais no bolso deles do que quebradeira."
Informações sobre cães abandonados
Há quase um ano, a veterinária e diretora técnica da Aliança Juiz-forana pela Defesa dos Animais (Ajuda), Neísa Teixeira Lourenço, criou o blog "Animais carentes em Juiz de Fora" (animaiscarentesjf.blogspot.com), que reúne informações de bichos antes abandonados e que estão disponíveis para apadrinhamento e adoção. Atualmente, 17 cães estão hospedados na casa da veterinária, e, desde que o blog entrou no ar, dois deles foram adotados e três apadrinhados. Quando são resgatados das ruas, os animais são atendidos, castrados e, após recuperarem a saúde, colocados para adoção. Neísa ressalta, no entanto, que a maioria das doações que recebe para manter os cachorros vem de internautas de outras cidades. "Em termos de ajuda, Juiz de Fora ainda está aquém. Tenho a impressão de que a população aqui não tem essa cultura de ajudar animais abandonados."
A estudante de medicina Louise Gracielle de Mello e Costa também abraça a causa dos animais abandonados e utiliza seu e-mail e contas em redes sociais para encontrar soluções. Há várias semanas, ela encabeça uma campanha on-line para que um cão achado na Rua Visconde de Mauá, no Bairro Santa Helena, ganhe abrigo. "Fiquei preocupada e, como não recebi ajuda de clínicas veterinárias próximas, reforcei a divulgação do cãozinho, abrindo um Twitter @CaoEmBuscaDeLar e colocando a foto dele no Facebook, com a mensagem de ajuda. Daí foram surgindo os replies e as pessoas foram reproduzindo a informação em seus perfis."
Por enquanto, o cão ainda não ganhou um lar, apesar de internautas já terem oferecido cuidados para o bicho. Em experiências de divulgação semelhante, a universitária garante que tem obtido resultados positivos. "Espero que dê resultado para esse também. É como usar o spam para uma boa causa."
Blogs e redes sociais também têm sido utilizados pelo Grupo de Ativistas Independentes Animais Abandonados JF. Como descreve a própria coordenadora, Márcia Ribeiro, "o grupo já nasceu na internet, e ela é a nossa arma e único meio de divulgação. Temos conta no Twitter, Facebook, Orkut e uma lista de três mil contatos de e-mail". Embora a função primeira do grupo seja a castração de animais abandonados, a mobilização on-line, como a criação do perfil @sosanimaisjf no Twitter, permite que o grupo vá além e, com a ajuda de internautas, resgate bichos que necessitam de cuidados emergenciais.
Da rede para as ruas
Vislumbrar Juiz de Fora no cenário cultural brasileiro. Esse é um dos objetivos do "Coletivo sem Paredes", um grupo de jovens artistas e intelectuais "em constante diálogo sobre possibilidades de atuação e de como tornar as coisas melhores (e elas podem ser melhores)", conforme sugere a descrição no blog coletivosemparedes.wordpress.com, principal meio de divulgação do projeto. Mais do que filosofar na internet, em cerca de um ano de existência, os "coletivados" têm transportado suas ideias para as ruas, através de ações, como festivais de música, exibição de materiais audiovisuais e organização de eventos artísticos. "Nossa mobilização tem crescido na internet. Pelo blog, é muito mais fácil divulgar materiais, receber informações de forma rápida e chegar até as pessoas, principalmente as mais jovens, que já nasceram na época da hipermídia", constata o gestor do núcleo de comunicação do "Coletivo sem Paredes", Gustavo Araújo.
Necessidade de falar
Blogueiro há pelo menos dez anos, o ator Gueminho Bernardes utiliza o endereço gueminho.blogspot.com como uma oportunidade de manifestar – sempre que possível com boas doses de humor – opiniões sobre os mais variados assuntos, principalmente os relacionados à cidade. "Sou uma pessoa que tem necessidade de falar. O blog me dá chance de organizar pensamentos, trocar ideias, é um instrumento de provocação. Nunca escrevo uma coisa morna. Gosto de provocar, estimular, mesmo que as ideias não estejam bem resolvidas."
Temas locais mais perceptíveis
A capacidade do indivíduo em participar de um projeto coletivo que muda a sociedade em que vive é classificada como "micropoder" pelo advogado espanhol e especialista em liberdade de expressão e meios de comunicação Javier Cremades. "Graças às novas tecnologias e ao uso da internet, telefones celulares e outras fantásticas formas de comunicação, o indivíduo está recuperando cotas de poder e de influência que, durante séculos, foram subtraídas pelo Estado e pelas instituições. O micropoder, precisamente, é apenas o poder individual de manifestar sua opinião e decidir como votante, consumidor, acionista, etc, o que era preterido ao poder institucional ao longo da história", relata em seu livro "Micropoder – a força do cidadão na era digital".
O doutor em ciência política e professor da UFMG, Marcus Abílio Pereira, parece concordar, mas vai além: "A questão ainda em aberto é saber se as manifestações on-line estão reverberando no mundo off-line, se os objetivos do ativismo on-line estão ou não sendo alcançados. Há indícios, em situações específicas, de que isto esteja acontecendo."
Para ele, mais do que tentar sugerir que questões locais, nacionais ou globais sejam mais ou menos discutidas na rede mundial, o fato é que os temas locais são naturalmente mais perceptíveis pelos cidadãos. "Um buraco na rua, uma região sem energia, uma praça abandonada, uma escola pública sem professores. Todos estes temas são percebidos no dia a dia das pessoas. Nesse sentido, a internet favorece a conexão entre aqueles que estejam interessados em discutir e se articular para modificar algo que esteja acontecendo no seu bairro, na sua cidade."
Ainda conforme o professor, pelo fato de a internet ser "um oásis para boatos, denúncias infundadas e intrigas, dado que não há muitos mecanismos de controle que favoreçam o reconhecimento da veracidade das informações", ainda temos um longo caminho até que os internautas saibam separar "o joio do trigo" das informações entornadas na web diariamente.
Sobre a reação dos gestores públicos às mobilizações na internet, Marcus Abílio Pereira ressalta que os políticos também passam hoje por um processo de aprendizado em relação à rede. "Entre os obstáculos, estão as restrições de orçamento para o desenvolvimento do e-gov; a falta de recursos humanos capacitados e, por último, a própria vontade política de se apropriar da internet com o intuito de construir relações mais horizontalizadas entre gestores e cidadãos, com mais transparência e accountability (termo relativo à obrigação de membros de um órgão de prestar contas a instâncias controladoras ou a seus representados) e, num estágio mais avançado, o desenvolvimento de espaços virtuais de partilha decisória."
