
Milton era o único civil da Guerrilha do Caparaó (Arquivo Pessoal)
Caso da Cova 312 do Cemitério Municipal volta à tona com a investigação (Henrique Viard/Arquivo Tm)
A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar o assassinato do ex-militante político Milton Soares de Castro. Único civil da Guerrilha do Caparaó, Milton foi encontrado morto em uma cela da Penitenciária de Linhares em abril de 1967. A versão oficial era de que a morte dele havia sido causada por suicídio. No entanto, o corpo desapareceu por 35 anos. Somente em 2002, quando a Tribuna localizou o local onde o ex-guerrilheiro do Rio Grande do Sul foi sepultado – a cova 312 do Cemitério Municipal -, é que a farsa montada pelo Exército em torno do caso começou a ser desvendada.
Segundo o chefe da Polícia Federal em exercício, Carlos Henrique Macedo, a investigação, instaurada em outubro do ano passado, tem como objetivo apurar “o suposto homicídio cometido contra o guerrilheiro”. O inquérito está sendo conduzido pelo delegado Cleber de Oliveira Campos, que está em período de férias.
O caso de Milton voltou à tona no início de 2015, com a localização, no Superior Tribunal Militar, das fotos da necropsia do ex-militante. O material foi publicado em livro e permitiu constatar que os ferimentos no corpo do ex-militante do MNR são incompatíveis com suicídio.
A revelação levou o membro da Rede em Defesa da Humanidade, Betinho Duarte, a encaminhar ao Ministério Público Federal pedido de exumação da ossada do ex-guerrilheiro e realização de DNA. No requerimento enviado à Procuradoria Regional do Direito do Cidadão, em Belo Horizonte, Betinho cita o assassinato de Milton e pede o esclarecimento da verdade. Por se tratar de notícia de fato criminal, o caso foi enviado para a Polícia Federal. “A ditadura militar sempre usou artifícios visando a não apuração e identificação de militantes políticos assassinados pelos agentes da repressão. Muitos foram enterrados em valas comuns, outros estão desaparecidos até hoje, como também muitos corpos foram entregues aos seus entes queridos, mas vieram em caixões lacrados. Em relação a estes, sempre pairou a dúvida se o corpo estava mesmo dentro do caixão. Algumas famílias desconfiavam que poderiam ter sido colocadas pedras ou serragem no lugar dos corpos. Este dilema persiste até hoje. Para que não paire dúvida, torna-se necessária a exumação e o DNA dos restos mortais de Milton”, explicou Betinho.
Comissão da Verdade
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade, que apontou 434 mortos e desaparecidos políticos no Brasil, citou a investigação jornalística sobre o caso de Milton, mas optou por considerá-lo desaparecido por não ter sido feita a exumação da ossada. Em 2002, o Ministro da Justiça da época, Miguel Reale Júnior, autorizou o exame, porém os irmãos do guerrilheiro que residem em Porto Alegre (RS) foram contra, sob alegação de que a identificação não amenizaria o sofrimento imputado à família durante todo o período de silêncio do Exército e de desaparecimento do corpo de Milton. Do Rio Grande do Sul, Edelson Soares, irmão de Milton, mantém essa posição. No início deste mês, ele disse não precisar de mais provas sobre o assassinato de Milton. “Além de todo o levantamento recente, eu sempre tive a plena certeza de que ele não se matou. Faz quase 50 anos da morte dele, e acho que será muito difícil encontrar algum resto mortal na cova onde ele foi enterrado. Se tiver que ser colocada responsabilidade em alguém pelo que aconteceu ao meu irmão, ela deve ser colocada no Comando Militar”, afirmou.
O entendimento de Betinho, porém, é outro. Para ele, trata-se de um assunto cujo interesse é público, já que a identificação da ossada ajudará na compreensão daquele período histórico e no esclarecimento dos fatos.
Cova rasa
Na cova rasa onde Milton foi enterrado por um suposto sargento do Exército que, em 1967, já havia dado baixa da corporação, a identificação dos restos mortais pode ser dificultada pelo enterro de outros cadáveres no local. Até 2002, além de Milton, outras cinco pessoas estavam enterradas na mesma sepultura, localizada na quadra L do Cemitério Municipal em Juiz de Fora. Na época, o prefeito Tarcísio Delgado determinou a interdição da cova, no entanto, outros cinco corpos foram enterrados no local de 2002 para cá. Segundo a Secretaria de Obras, responsável pelo cemitério, os restos mortais do ex-guerrilheiro continuam naquele local.

