Ícone do site Tribuna de Minas

A história por trás da história

PUBLICIDADE

‘Que Deus nos livre de nós mesmos’

Cheguei a ouvir a crítica de que denunciar o Holocausto brasileiro seria como uma exumação. Respondi que a história precisa ser desenterrada todas as vezes que a indiferença ameaçar passar uma borracha sobre ela. Quando o genocídio da colônia veio à tona, descobri que milhares de pessoas não tinham perdido a capacidade de se indignar. Holocausto brasileiro foi uma das matérias mais acessadas no site do jornal nos últimos tempos. Nas bancas de jornal, leitores passaram a fazer reservas da edição para não ficar sem o exemplar da série. Recebi dezenas de comentários sobre a descoberta do destino de familiares após a publicação da série. Blogs do país a reproduziram.

PUBLICIDADE

O fotógrafo Roberto Fulgêncio confidenciou ter chorado.Estive lá com você, mas o que li nas matérias superou tudo o que eu já vivi na rotina da profissão.

Por e-mail, o psiquiatra juizforano Uriel Hecket considerou a série um alerta. O benefício maior que antevejo nesta iniciativa jornalística é o de alertar-nos para o que se está praticando hoje sob o respaldo dos proclamados avanços científicos e dos novos dispositivos assistenciais. A experiência pretérita deve nos alertar para os riscos inerentes a todas intervenções humanas; e isso não só no campo da saúde, mas também nas demais áreas do saber. Até os bons projetos e as boas intenções tendem a deturpação, em decorrência da miserável condição de nós humanos. Que Deus nos livre de nós mesmos.

‘Sorôco, sua mãe, sua filha’

É de Guimarães Rosa a expressão trem de doido incluída no conto Sorôco, sua mãe, sua filha, do livro Primeiras Estórias. Ali o autor resume a situação dos trens que chegavam a Barbacena apinhados de gente em busca de tratamento psiquiátrico. Ele conta a angústia do personagem Sorôco na despedida das únicas pessoas que tinha no mundo e que partiriam no trem da solidão coletiva. O escritor, aliás, morou em Barbacena, em 1933, quando foi oficial médico do 9º Batalhão de Infantaria. O simbolismo da loucura em seus contos são indício de que Guimarães Rosa conhecia a realidade da Colônia. O psiquiatra Francisco Paes Barreto entra no mundo ficcional de Guimarães Rosa e consola Sorôco em carta endereçada ao personagem. Meu querido Sorôco, esteja onde estiver, quero que ouça o que tenho a lhe dizer. Visitei hoje o lugar onde morreu sua mãe, onde morreu sua filha, onde morreram as mães, os pais, os filhos e os irmãos de um incontável número de pessoas. Sabe o que encontrei lá? Um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Um hospital regional de clínica médica e cirúrgica. Um centro social urbano. Uma escola. (…)Do que havia do antigo hospital resta apenas um edifício imponente, que é a principal atração turística da cidade. Chama-se Museu da Loucura. Está aí exatamente para não deixar esquecer, para registrar uma época. É um templo dedicado à loucura. Não à loucura de pessoas como sua mãe, sua filha, mas a nossa loucura, Sorôco, à loucura dos chamados normais.

PUBLICIDADE

Em outubro deste ano, iniciei, na companhia do fotógrafo Roberto Fulgêncio, uma viagem a abril de 1961, ocasião em que o fotógrafo Luiz Alfredo, da então revista O Cruzeiro, entrou no hospício de Barbacena. Decidi procurar os sobreviventes daquela tragédia silenciosa, a partir dos flagrantes feitos pelo repórter fotográfico. Cinco décadas depois, existiria alguém vivo? O próprio Luiz Alfredo estaria com quantos anos, já que meio século havia se passado a partir do mais dramático flagrante de sua carreira?

Minhas perguntas começaram a ser respondidas aos poucos. Primeiro em Belo Horizonte. Foi lá que fiz a pesquisa inicial, a fim de obter mais informações sobre a colônia, já que o livro do mesmo nome havia sido viabilizado pela Secretaria de Estado da Saúde, na gestão do secretário Marcus Pestana, em 2008. De lá, parti para Barbacena, onde tudo havia se passado. Após contato com o psiquiatra Jairo Toledo, diretor do atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) e idealizador do Museu da Loucura, eu e Roberto entramos na antiga Colônia e na vida de José Machado, Marlene Laureano, Maria Aparecida de Jesus, Antônio Sabino, Sônia Aquino e um mundão de gente. Foi com a ajuda dos funcionários do hospital que localizamos os personagens que resistiram a meio século de internação. Cada rosto reconhecido nas fotos de 1961 fazia o coração descompassar. Quando fazia estágio, em 1978, vi muitos pacientes deitados sobre colchões de capim. Tinha medo deles, revelou Serly Maria da Silva, 61 anos, auxiliar de enfermagem do CHPB, há 21 anos, e que contribuiu com a localização de alguns sobreviventes. As páginas da Colônia foram folheadas centenas de vezes por pelo menos uma dezena de pessoas até que chegássemos aos personagens que resistiram ao holocausto e as testemunhas daquele tempo de horror. O ritual se repetia em cada pavilhão do hospital.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile