Atualizada às 21h30
Uma trabalhadora de 37 anos que voltava para casa após o serviço foi atingida por uma bala perdida no fim da tarde desta sexta-feira (27) próximo à linha férrea, na interseção das ruas Benjamin Constant, Francisco Bernardino e José Calil Ahouagi, no Centro. A vítima saía de uma fábrica de roupas, na região do Vitorino Braga, quando foi baleada na perna. O tiro teria sido disparado durante uma briga envolvendo jovens próximo ao posto de combustível. A situação levou pânico a quem estava nas proximidades e é mais um episódio que revela a insegurança crescente na região central, que desafia o trabalho de prevenção e repressão policial. Nem mesmo uma operação conjunta das polícias Civil e Militar em praças e principais avenidas do Centro na véspera foi capaz de evitar o grave delito. Nesta semana, a Tribuna já havia denunciado o cenário de duas importantes áreas do Centro, o Parque Halfeld e a Praça do Riachuelo, que vêm sendo palco de livre comércio de drogas e brigas entre grupos rivais, situações que impactam todo o entorno dos espaços públicos. Quem circula ou trabalha no Centro acredita que operações pontuais não são suficientes, porque falta policiamento diário. Além disso, outras situações, como abandono das áreas públicas, corroboram para a violência. Somente na Praça do Riachuelo, nesta sexta-feira, a Tribuna contabilizou 15 lâmpadas queimadas. Por volta das 21h, a PM foi chamada ao Parque Halfeld, onde havia denúncia de uma briga generalizada entre cerca de 20 jovens. Pedestres se assustaram com a correria das galeras até mesmo pela Avenida Rio Branco.
Quem presenciou a ocorrência desta sexta-feira relatou o temor. "Foi desesperador. Ouvimos três disparos. Todo mundo saiu correndo para se esconder como dava. Estou tremendo até agora", contou uma comerciante de 27 anos. Outra comerciante, também 27, completa: "Não sabemos mais o que fazer. A situação está complicada aqui. Foram três tiros. Na hora passaram jovens correndo na direção do Vitorino. O pior de tudo é que a vítima é trabalhadora, funcionária de uma fábrica aqui perto e, mesmo com a mulher sangrando muito, o Samu demorou bastante." Um gerente comercial, 33, confirma. "Ela estava sangrando, e fui ajudar a cortar a calça dela para estancar o sangue, pois o socorro não chegava." A vítima foi encaminhada para o HPS, sendo levada, em seguida, para a Santa Casa de Misericórdia.
Quando a Tribuna chegou ao local, o Samu ainda realizava o atendimento da mulher na viatura. Uma colega de trabalho, uma debruadeira de 36 anos, ficou chocada. "A fábrica era aqui na rua, mas mudou para o Vitorino. Passar aqui é um horror. Sempre tem confusão nessas imediações. Hoje estava voltando e me deparei com ela baleada na perna. Fiquei assustada. Ela saiu um pouquinho antes de mim."
O suspeito foi levado para o antigo posto da polícia na Praça do Riachuelo, chamando a atenção de comerciantes e pedestres. Comandante da 30ª Companhia da PM, responsável pelo policiamento na região central, capitão Marcelo Monteiro de Castro, diz que ainda é preciso levantar a motivação dos tiros. "Vamos trabalhar na autoria para confirmar o que ocorreu. O que sabemos até agora é que a mulher atingida não tem ligação com a briga. Não podemos ainda titular a confusão à rivalidade de bairros. Pode ter sido provocada por acerto de contas, tráfico de drogas ou outra coisa." Policiais civis da Delegacia Especializada em Homicídios também estiveram no local para coletar dados e dar prosseguimento às investigações.
Centro é área mais difícil e vulnerável
Os episódios de violência no Centro não são isolados e têm se tornado cada vez mais frequentes. No fim do mês passado, em um dia, foram registradas ocorrências de disparos de arma de fogo em via pública, esfaqueamento em coletivo e conflito entre grupos rivais com uso de facas e revólver, tudo em plena luz do dia. Os casos também levaram pânico à população, que ficou no meio do fogo cruzado, e chamaram a atenção pela ousadia dos criminosos. Essa violência crescente na área preocupa lojistas e instituições ligadas ao comércio. "Tivemos que instalar câmeras 360 graus para garantir mais segurança e lutamos para conseguir implantar o Centro de Registro de Ocorrências Policiais (Crop) dentro do shopping. Estamos preocupados com a situação, tanto que marcamos uma reunião, junto com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), para o próximo dia 3 para pedir ações da Prefeitura e polícias", informa a gerente de marketing do Santa Cruz Shopping, Ana Lívia Delgado Sagioro.
As autoridades responsáveis pela segurança pública também demonstram preocupação, mas garantem que estão priorizando a área central. "O Centro é a menina dos olhos da PM, é uma área onde todos precisam ir. E sempre foi a mais difícil de atuar, já que, por receber pessoas de todos os locais, é vulnerável e ocorre todo tipo de ação criminosa. Estamos fazendo uma reestruturação das ações do 2º Batalhão, no Centro, visando a diminuir a criminalidade e ampliando o policiamento", diz o assessor de comunicação organizacional da Polícia Militar, major Jeferson Ulisses Pires. O oficial acrescentou que está sendo feito um trabalho de mapeamento das gangues que se enfrentam no Centro, mas que as operações pretendem coibir a prática de todos os tipos de crimes, não somente as rixas.
O delegado regional, Paulo Sérgio Virtuoso, afirmou que "não é só o Centro que preocupa, mas a cidade como um todo. Temos um aumento efetivo da violência. A cidade está crescendo muito e desordenadamente. O efetivo da Polícia Civil não acompanha isto. Temos feitos diversas operações e prisões, mas não é mais só questão de polícia, os outros setores precisam participar mais ativamente, senão não vamos dar conta." Sobre o uso do efetivo de policiais civis, que é escasso na cidade, para participar de constantes operações na região central, o delegado afirmou que as investigações de crimes não será comprometida. "Desta forma, evita-se que o problema ocorra, e, em consequência, teremos menos crimes para apurar."
