
“Meu pai era muito forte.” É assim que Tainá Ribeiro descreve o pai, Raimundo Evangelista de Almeida, 69 anos, que morreu nessa segunda–feira (25) no Hospital de Pronto Socorro (HPS) Dr. Mozart Geraldo Teixeira após supostamente receber dipirona – medicamento ao qual, segundo a família, ele tinha alergia.
Raimundo estava internado na unidade desde sábado (23), após ter sido vítima de um atropelamento por moto na Rua José Lourenço, no Bairro Borboleta, na Cidade Alta. Segundo a filha, ele teria sofrido fratura no tornozelo direito, luxação no ombro esquerdo, provável fratura de coluna cervical e um corte na testa que necessitou de seis pontos. Raimundo estava em observação, aguardando uma ressonância magnética para confirmar se seria necessária cirurgia no tornozelo.
Na noite de domingo, ele teria recebido dois medicamentos: um comprimido para pressão e uma injeção administrada pela enfermagem. Após a medicação, segundo Tainá, o pai começou a passar mal. “Estava do lado da cama. Na mesma hora, meu pai começou a tremer muito, com falta de ar. Falei: ‘Calma, pai’, e levantei a cabeceira da cama. Ele começou a ficar pior, tentando me dizer que tinha algo errado”, relatou.
A filha pediu ajuda à equipe de enfermagem. “O enfermeiro que estava em outra cama veio correndo, a enfermeira também. Fui até meu pai e falei ‘pai’ – quando olhei no rosto dele, os olhos já estavam virados para cima, só via o branco. Me afastaram, a médica veio, fizeram massagem cardíaca e levaram ele do quarto para a sala de emergência.”
Alergia à dipirona
Durante o atendimento, Tainá afirma ter conversado com a enfermeira responsável pela medicação. Segundo ela, a profissional teria perguntado por que não foi avisada sobre a alergia. “Apontei para a placa em cima da cama do meu pai, estava escrito ali ‘alergia dipirona’. E disse também que desde o dia anterior ele estava tomando paracetamol, que ele não podia tomar dipirona.” A enfermeira teria respondido que o medicamento constava no prontuário.
Tainá afirma que ela e a irmã solicitaram acesso ao documento. A médica teria autorizado, mas, ao procurarem na recepção, foram informadas que não seria possível retirá-lo naquele horário, por volta das 23h, e que precisariam retornar durante o expediente.
Após os primeiros socorros, a família foi informada que Raimundo havia sofrido uma parada cardíaca, mas que havia sido ressuscitado. Ele foi entubado e encaminhado em estado grave à UTI. Na manhã de segunda-feira, o idoso não resistiu.
Para Tainá, não há dúvidas sobre a causa da morte. “Ele estava bem, conversando comigo minutos antes de aplicarem a dipirona. Lúcido, conversando, comendo. Meu pai não morreria pelo acidente, ele era muito forte”, disse.
Prefeitura investiga caso
Em busca de respostas, Tainá retornou ao HPS na terça-feira (26) para solicitar explicações, mas foi informada que o prontuário só estará disponível 15 dias após o óbito.
A filha também tentou registrar boletim de ocorrência na delegacia no domingo e na terça, mas foi orientada a procurar primeiro a Secretaria de Saúde. O registro só foi feito na tarde de terça. Na secretaria, Tainá afirma ter recebido a informação de que o caso já era de conhecimento do órgão, que havia entrado em contato com a direção do HPS e estava reunindo informações para abertura de investigação. Um prazo de até 15 dias foi dado à família para uma resposta.
Em nota enviada à Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou estar consternada com o falecimento de Raimundo e confirmou que já abriu procedimento administrativo para apurar o ocorrido e tomar as providências cabíveis.
A Tribuna enviou questionamentos à PJF acerca da presença do registro de alergia à dipirona no prontuário, de como o medicamento foi administrado caso a informação constasse no documento, do protocolo de checagem de alergias do HPS, da confirmação de que o medicamento injetado era dipirona, do prazo de 15 dias para disponibilização do prontuário e da causa registrada no atestado de óbito. A reportagem também questionou a Polícia Militar sobre a negativa inicial de registrar o boletim de ocorrência e se o caso foi encaminhado à Polícia Civil, além de questionar a corporação sobre o recebimento da ocorrência e a abertura de investigação. Até a publicação desta matéria, nenhum dos órgãos havia respondido. Os espaços seguem abertos.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
