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Deslizamentos estão relacionados com abalo sísmico? Especialista responde sobre Juiz de Fora

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Até o momento, são 59 pessoas mortas e milhares de desabrigados devido aos deslizamentos que ocorreram em Juiz de Fora nesta semana. Esse forte impacto foi percebido pela população, que ainda busca entender o quê, exatamente, levou a essa tragédia. Diante desse cenário, populares se perguntam se ao menos parte das ocorrências atendidas pela Defesa Civil estão relacionadas com o abalo sísmico que também acometeu a cidade no sábado (21), quando as estações sismográficas registraram um tremor de 2,1 graus na escala Richter. Especialista explica que essa relação faz sentido pela cidade estar em uma região com muitos falhamentos tectônicos, mas volumes pluviométricos e condições sociais podem ter papel maior.

A Tribuna conversou com o professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Roberto Marques Neto, que reconhece que a hipótese faz algum sentido. Isso porque, embora esteja arraigada a ideia de que o território brasileiro é desprovido de atividade tectônica, isso não é verdade. “A nossa tectônica é mais branda, chamada de intraplaca, mas existe. Ela quase nunca se materializa em sismos perceptíveis, mas seguramente todos os dias os sismógrafos registram atividades sísmicas. E Juiz de Fora está em uma área de muito falhamento, chamada de ‘faixa móvel’, correspondente a antigos encontros de placas tectônicas”, diz. 

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No entanto, ele acredita que essa condição é acessória para a tragédia. Isso porque existe uma relação entre a atividade sísmica e movimentos de massa (como escorregamentos), especialmente pela influência de falhas geológicas e linhas de fraqueza. Entre as hipóteses que poderiam levar a isso, ele entende que uma atividade sísmica mais branda, como a que ocorreu em Juiz de Fora, pode desencadear movimentos de massa e favorecer deslizamentos, mas trata-se de uma situação muito menos provável. Além disso, a atividade sísmica em si também pode estimular um movimento de massa, mas, normalmente, isso ocorre quando a magnitude é mais elevada. “Acima de 5 graus na escala Richter é um limiar mais preocupante nesse tipo de relação”, explica.

Para ele, é necessário que a população entenda a atividade sísmica como um componente de risco, mas ainda assim acessório dentro de uma hierarquia de fatores. “Eu colocaria à frente, e de forma enfática, a relação entre as chuvas concentradas — como foi o caso deste fevereiro em Juiz de Fora — e um relevo com altas declividades”, esclarece. Até porque os movimentos de massa não ocorrem apenas por causa da atividade sísmica. “As chuvas tiveram um volume pluviométrico anômalo, exacerbado. A água vai se infiltrando nos solos, nas coberturas de alteração que ainda nem se transformaram em solo, e, quando isso encontra terrenos com declividade mais acentuada, como é o caso de Juiz de Fora, os movimentos de massa acontecem”, explica. Ele ressalta, ainda, que as tragédias se substanciam na medida que esses fenômenos encontram seres humanos. 

‘Demografia do risco ambiental bem marcada’

Além dos fenômenos naturais, há explicações sociais que ajudam a compreender o que aconteceu. “É preciso sublinhar que existe uma demografia do risco ambiental muito bem marcada em Juiz de Fora, de maneira que há um corte de classes muito explícito nisso. Na vasta maioria dos casos de lugares que são acometidos por esse tipo de processo geológico e geomorfológico, é a população de mais baixa renda que é afetada, porque é ela que efetivamente ocupa os terrenos mais inapropriados e as áreas de risco. Existe um controle do capital financeiro e imobiliário que sempre vai estar empurrando os grupos sociais de renda mais baixa para essas áreas de risco”, destaca. 

Ele entende, portanto, que foram três fatores principais: o encontro entre um volume pluviométrico anômalo, um relevo movimentado e com declive, e ainda a ocupação desse relevo sobretudo por uma população de renda mais baixa. Esse tipo de ocupação também está relacionado, como ele explica, aos municípios dos chamados planaltos cristalinos, sobretudo do planalto atlântico, que têm histórias ambientais semelhantes. “As cidades começam a se instalar no fundo de vales, que são áreas suscetíveis a enchentes, e posteriormente começam a ocupar os morros e encostas mais declivosas. A expansão urbana acaba se disseminando para essas áreas, e encontrando um relevo mais movimentado e mais declivoso”, diz.

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Neste momento, ele entende que, mais que compreender a dinâmica natural dos fenômenos, é preciso entender os que geram o que chamamos de tragédia. “É necessária a percepção da condição socio-histórica que faz com que essas pessoas ocupem essas áreas. Esses sujeitos envolvidos e afetados por essas mazelas precisam ser emancipados dentro de programas educacionais que desvelem a eles, de fato, os condicionantes históricos e sociais que determinam essas iniquidades que estamos vendo”, ressalta.

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