Ícone do site Tribuna de Minas

UFJF tem projeto que otimiza uso da energia

pesquisador andre marcato mostra aglomerado de 250 processadores (cluster) que simula funcionamento de hidreletricas

pesquisador-andre-marcato-mostra-aglomerado-de-250-processadores-(cluster)-que-simula-funcionamento-de-hidreletricas

Pesquisador André Marcato mostra aglomerado de 250 processadores (cluster), que simula funcionamento de hidrelétricas
PUBLICIDADE

Pesquisador André Marcato mostra aglomerado de 250 processadores (cluster), que simula funcionamento de hidrelétricas

PUBLICIDADE

O Brasil vive hoje a maior crise hídrica dos últimos tempos. Córregos secos, mananciais e reservatórios com níveis críticos e consequente racionamento e falta d’água. A situação é agravada pelo fato de a geração de energia elétrica no país depender, predominantemente, das usinas hidrelétricas. Neste cenário, soluções para otimizar os trabalhos e minimizar os impactos da crise vêm sendo buscadas em Juiz de Fora, por um grupo do programa de Pós-graduação em Engenharia Elétrica da UFJF. Criadores de modelos computacionais capazes de simular o funcionamento de todas as usinas hidrelétricas e termoelétricas nacionais, os pesquisadores desenvolveram um método capaz de prever diferentes cenários, antecipar falhas e oferecer soluções. Em entrevista à Tribuna, um dos coordenadores da pesquisa, professor André Marcato, citou dados alarmantes. Segundo ele, os resultados analisados mostram que, caso não chova o suficiente nos próximos dias, o país vai enfrentar uma situação de calamidade ainda em meados deste ano, tanto no abastecimento quanto na geração de energia.

Este problema afeta justamente as regiões Nordeste e Sudeste, as maiores consumidoras e onde concentram-se 70% da população. Desde 2012, com a seca no semiárido nordestino e em outras regiões do país, a escassez de água ficou cada vez mais preocupante. Para Marcato, há grande possibilidade de o país enfrentar um sério racionamento a partir de abril. “Desde o ano passado, estamos observando que os reservatórios do sistema estão em níveis críticos. O Governo era para ter se preparado com antecedência, pedindo a economia e investindo em formas alternativas de energia. Isso teria nos dado uma situação mais confortável este ano. É necessário estabelecer metas de consumo e transferir um pouco da responsabilidade para o consumidor. Muito em breve, poderemos chegar ao ‘fundo do poço’, sem água nos reservatórios.”

 

Apagão

PUBLICIDADE

Reflexo do que vem acontecendo no país foi o apagão vivido no último dia 19, quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ordenou um corte de luz que atingiu 11 estados e o Distrito Federal. “Como tinha água concentrada apenas em poucas usinas e houve um consumo máximo de energia, que atingiu um pico histórico, a ONS percebeu que as linhas de transmissão não seriam capazes de levar energia destes locais até os consumidores. Para não derrubar o Brasil inteiro, eles desligaram algumas cargas, cerca de 5%, e houve o blecaute”, explica o professor.

Na última semana, pela primeira vez, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse que, caso os reservatórios das hidrelétricas cheguem a níveis menores que 10% da capacidade máxima, o país poderá ter problemas graves, que implicariam em medidas como o racionamento. “Mantido o nível que temos hoje nos reservatórios, temos energia para abastecer o Brasil. É óbvio que se tivermos mais falta de água, se passarmos do limite prudencial de 10% nos nossos reservatórios, estamos diante de um cenário que nunca foi previsto em nenhuma modelagem”, disse Braga. Segundo o ministro, esse é o limite estabelecido pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) para o funcionamento das usinas hidrelétricas.

PUBLICIDADE

Sistema monitora 300 usinas do país

Segundo o coordenador da pesquisa da UFJF, André Marcato, a ideia do projeto surgiu em 2008, quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), vislumbrando um futuro problema de falta d’água, convocou universidades para analisar quais seriam capazes de desenvolver o modelo de otimização. A Federal foi contemplada, em uma parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Desde então, o projeto vem sendo desenvolvido sob gerenciamento da Aneel e financiamento de 20 empresas do ramo, como Cemig e Energisa. Os recursos, que incluem compra de material e pagamento de pessoal, são da ordem de R$ 8 milhões. “Durante este tempo, nosso sistema está auxiliando as empresas sobre a decisão do quanto ela vai gerar de energia hidráulica e termoelétrica, com base em nossos cenários hidrológicos. Todos os códigos desenvolvidos são de domínio público e podem ser usados por qualquer empresa.”

O programa simula todo o sistema de transmissão de energia brasileiro, que inclui cerca de 150 hidrelétricas e 150 termoelétricas, e dá suporte às empresas e à ONS. “As usinas são dispersas e distantes dos locais de consumo, mas 98% da carga energética usada no Brasil estão inseridos neste sistema. Nosso projeto é capaz de reproduzir fenômenos que acontecem em todo o país.” Para isso, eles utilizam um cluster, aglomerado de 250 processadores, que roda softwares de simulação. “Este modelo otimiza a utilização dos recursos hídricos e pretende diminuir o consumo de combustível (usado nas térmicas). O problema é que, com a falta d’água, esta medida fica mais complicada.” Além disso, ele explica que o sistema é capaz de antever problemas, ou seja, as probabilidades de ocorrerem falhas nos próximos anos, para que o Governo busque soluções. “E é isto que nos leva a crer nas possíveis medidas, como o racionamento.” O projeto será encerrado em setembro deste ano.

Custo alto de fontes alternativas

Uma das conclusões da pesquisa da UFJF é a necessidade do país em investir em novas fontes de energia, caminho pouco trilhado até então. Atualmente, segundo o coordenador da pesquisa André Marcato, nossa energia é proveniente das usinas hidrelétricas (60% a 70%) e das termoelétricas (30% a 40%). “Como o Brasil sempre teve a dádiva de possuir recursos hídricos, nunca houve a preocupação no investimento em fontes alternativas, como eólica (vento), solar e de biomassa (matéria orgânica). Agora, a necessidade é urgente.” Ele lembra, ainda, como o problema do desabastecimento está intimamente ligado à falta de energia. “Os mesmos rios que abastecem as usinas são os que deságuam nos mananciais de abastecimento. E todos eles estão extremamente secos. Se aumentar o volume de chuvas consideravelmente e isso perdurar até março, pelo menos, poderemos conseguir atravessar 2015 sem maiores problemas. Mas vamos arriscar? Deveríamos estar tomando iniciativas há muito tempo para que não precisássemos chegar a uma situação tão crítica.”

PUBLICIDADE

Painéis solares

Uma das principais fontes de energia alternativa que o Brasil pode investir é a solar. André lembra que, desde 2012, é permitida a instalação de painéis solares fotovoltaicos, geradores deste tipo de fonte, nas residências do país. Quem tiver o sistema, será incorporado ao complexo de energia brasileiro. “A energia excedente gerada durante o dia, quando as pessoas ficam menos em casa, vai ser utilizada por outros consumidores. À noite, quando as pessoas chegam do trabalho e acabam consumindo mais, haverá uma retribuição.” O problema, segundo André, é o alto custo necessário para o investimento, algo em torno dos R$ 25 mil para um consumidor doméstico. “O material utilizado é importado, e por isso é muito caro. Seria interessante que o Governo federal criasse subsídios para que as pessoas pagassem menos nesses painéis, por exemplo, com o abatimento no imposto de renda, como acontece na Alemanha. Lá, eles fabricam mais energia do que precisam, e o excesso acaba sendo perdido, já que a bateria necessária para armazenar também é muito cara.”

Também na UFJF, outro projeto da Pós-graduação em Engenharia Elétrica trabalha buscando o barateamento destes materiais. No local, existe uma usina de energia solar, que gera energia para a rede universitária a uma potência de 40kw. “Os trabalhos são voltados para desenvolver formas para produzirmos nossos próprios equipamentos, de armazenamento e conversão.” A pesquisa, desenvolvida há mais de dez anos, é realizada com recurso federal.

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile