O incêndio registrado ontem, um dos maiores já ocorridos na região Central de Juiz de Fora, expôs o atendimento do Corpo de Bombeiros na cidade e apontou para fragilidades que já haviam começado a ser descortinadas no último período de estiagem intenso em Juiz de Fora – quando foram registradas mais de 523 ocorrências de incêndio em vegetação. Fragilidades que se devem, principalmente, ao efetivo reduzido da corporação. Diante da demanda, muitas vezes, havia sido preciso optar por qual caso atender, não por falta de viaturas, já que hoje são 45 veículos para a cidade e região, mas pelo quadro enxuto de pessoal. Na área do 4º Batalhão de Bombeiros Militar (BBM), responsável por 145 cidades da Zona da Mata e Vertentes, são 558 homens. Na sede, em Juiz de Fora, 307 se desdobram para atender a 30 municípios do entorno, enquanto o número considerado ideal, pela Organização das Nações Unidas (ONU), é de um bombeiro para cada mil habitantes. Portanto, só no município, deveriam estar em atuação 517 militares, já que a cidade possui 517 mil habitantes, segundo o Censo 2010. Se for considerado somente o efetivo operacional, o número é ainda menor, porque, dos 307, 53 trabalham apenas no setor administrativo, sobrando 254 em atuação nas ruas.
Déficit em MG
A defasagem, que atinge todo o estado, é confirmada pela Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares (Aspra-MG). Enquanto Rio de Janeiro e São Paulo, com áreas territoriais menores que a de Minas possuem, respectivamente, 16.500 e 8.500 bombeiros militares, em Minas, com 853 municípios e 586 mil quilômetros quadrados de extensão, são 5.600 homens, sendo a maioria concentrada na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O mínimo necessário seria de oito mil militares. O resultado é a sobrecarga de trabalho, o comprometimento no atendimento de ocorrências e reclamações das comunidades. A preocupação é com catástrofes e situações emergenciais, como a ocorrida na noite de segunda. Por conta da proximidade das edificações e do material em estoque nas lojas, o fogo se propagou rapidamente, ameaçando até mesmo prédios residenciais e o Mister Shopping.
Para garantir o combate, os bombeiros precisaram da ajuda de outros órgãos públicos e até empresas privadas, que cederam guincho, carros e caminhões-tanque. A demora para evacuar as lojas próximas à Tete Festas foi criticada por comerciantes. "Eles estavam despreparados. Desde a hora que começou o incêndio, não fomos informados sobre a possibilidade de as chamas se alastrarem para outras lojas. Eles não estão preparados para lidar com um incidente dessa dimensão. Agora, a gente é que vai arcar com os prejuízos", desabafou o proprietário da Dornellas Multi-mídia, Adilson Dornellas.
‘Não adianta ter equipamento e não ter homens’
Em todo o ano passado, foram 16.413 chamados para o Corpo de Bombeiros em Juiz de Fora, o que representa uma média mensal de 1.367 ocorrências atendidas. Neste ano, já são 10.667 atendimentos, de janeiro até a primeira quinzena de outubro. Com a chegada do período chuvoso, quando os bombeiros são acionados para atender casos de deslizamentos de encostas, alagamentos, entre outros, o número pode ser ainda mais elevado.
Bombeiro da reserva e blogueiro, com grande número de acesso em sua página na internet, por profissionais de segurança pública do estado, cabo Fernando teme o resultado do quadro atual. "Havia uma promessa de que, em 2010, o efetivo iria para 10.500 homens, mas não foi cumprida. Em relação aos equipamentos, estamos mais tranquilos, mas não adianta ter equipamento, carros e não ter homens. O quadro atual é caótico, desumano para os militares. Enquanto a Polícia Militar tem 47 mil homens, os bombeiros, um pouco mais de cinco mil. A corporação não atende aos anseios da população. Em fase de queimadas, os militares ficam sacrificados. E, com a fase da chuva, a preocupação é ainda maior."
Assessor de comunicação social do 4º BBM, capitão Marcos Santiago garante que, em casos de tragédias e acidentes de massa, o Corpo de Bombeiros trabalha com plano de chamada, ou seja, todos os militares são acionados. No caso do incêndio no Centro, segundo o capitão, além dos profissionais do setor administrativo para apoio à ala operacional, os militares de sobreaviso, que estavam de folga e férias, foram acionados.
A diretoria de Assuntos Institucionais do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais informou que seria necessário aumentar o número do efetivo, a médio prazo, para oito mil homens. O setor ainda destacou que um planejamento já foi apresentado ao governador Antonio Anastasia, que acenou com mudanças no efetivo da corporação. Além disso, estão abertas as inscrições, até o próximo dia 30, para preenchimento de 83 vagas para oficiais de saúde, bombeiro militar e praças especialistas.
