Mais do que garantir acesso a benefícios sociais, o Cadastro Único (CadÚnico) tem exposto dificuldades enfrentadas por famílias em situação de vulnerabilidade para entender, acessar e atualizar seus dados na plataforma. Em Juiz de Fora, onde mais de 70 mil famílias estão registradas no sistema e mais de 150 mil pessoas são beneficiadas por programas vinculados ao cadastro, o problema aparece no baixo número de cadastros regularizados entre quem tem direito a descontos nas contas de energia elétrica e água, por exemplo. A situação também expõe um debate mais amplo sobre desinformação, exclusão digital e a capacidade da estrutura pública de garantir que esses direitos cheguem, de fato, a quem precisa.
Enquanto especialistas apontam que a digitalização dos serviços pode aprofundar barreiras de acesso para a população mais vulnerável, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) afirma que tenta reduzir esse impacto por meio de atendimento presencial, visitas domiciliares e reforço da rede de assistência social. Conforme a Cemig, das 20.835 famílias que têm direito ao Desconto Social na conta de energia elétrica em Juiz de Fora, apenas 8.070 estão com os dados atualizados no CadÚnico, menos da metade do total.
Gerido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), o CadÚnico identifica e caracteriza famílias de baixa renda em todo o país e permite o acesso a diferentes programas sociais, como Bolsa Família, Auxílio Gás, Benefício de Prestação Continuada (BPC), tarifas sociais, entre outros. Nesse cenário, a desatualização cadastral, a falta de informações sobre os critérios de acesso e as dificuldades de uso da plataforma acabam dificultando a chegada desses benefícios a quem tem direito.
Além das barreiras para acessar e atualizar o cadastro, a própria complexidade das regras de alguns programas também dificulta a compreensão da população sobre quem tem direito a cada benefício. O Desconto Social é um novo tipo de benefício lançado pelo Governo Federal em 2026. Diferentemente da Tarifa Social de Energia Elétrica (TSEE), o Desconto Social beneficia famílias que possuem renda média entre meio e um salário-mínimo entre os titulares de contas de energia da Cemig, enquanto o TSEE é concedido para as famílias com renda de até meio salário mínimo por pessoa. Como os critérios entre os dois benefícios são semelhantes, muitas pessoas ainda encontram dificuldades para entender em qual modalidade se enquadram. A falta de informação sobre as regras e sobre o próprio funcionamento do CadÚnico é apontada como uma das barreiras para quem depende desses programas sociais.
Além da energia elétrica, o problema também se reflete no acesso à Tarifa Social de água. Segundo a Cesama, apenas 9.077 das mais de 20 mil famílias com direito ao benefício estão com o cadastro atualizado no CadÚnico em Juiz de Fora. Os dados indicam que, embora existam mecanismos para aliviar despesas básicas das famílias de baixa renda, parte do público elegível ainda enfrenta obstáculos para acessar os descontos, o que evidencia gargalos de informação, atualização cadastral e alcance das políticas públicas.
Exclusão digital e acesso ao CadÚnico
A discussão sobre o acesso ao CadÚnico, no entanto, vai além da atualização cadastral e dos critérios de enquadramento nos benefícios. Para especialistas, a própria digitalização dos serviços públicos tem criado novos obstáculos para parte da população vulnerável. Na avaliação da doutora em serviço social e professora da Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Ana Luiza Avelar, esse processo tem aprofundado a exclusão digital e dificultado o alcance das políticas sociais. “As recentes transformações tecnológicas, marcadas pela crescente digitalização dos serviços, têm impactado diretamente o alcance de políticas sociais. Esse movimento é apresentado como uma forma de facilitar o acesso a benefícios, mas na prática ele tem aprofundado um processo de exclusão digital.”
Criado em 2001 na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o CadÚnico foi revitalizado em março de 2025 com a premissa de que a nova plataforma permitiria uma maior integração online de diferentes dados do Governo e a automatização de processos, agilizando a inserção de informações e a atualização dos dados das famílias em um só local. No entanto, na prática, a evolução tecnológica do CadÚnico não foi suficiente para evitar o processo de exclusão digital que parte da população vulnerabilizada no país vem sofrendo ano após ano, agravando aquilo que a plataforma surgiu para combater: a desigualdade social.
Um levantamento de 2021 realizado pelo Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que 20% da população pertencente à faixa mais vulnerável economicamente não possui celular para solicitar o benefício no CadÚnico. O percentual sobe para 22% quando considerada a ausência de acesso à internet no país. A esse cenário soma-se o chamado “analfabetismo digital”, que, segundo Ana Luiza, está associado à dificuldade em realizar tarefas básicas exigidas pelas plataformas online, como o reconhecimento facial ou a verificação em duas etapas.
Traçado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o perfil de quem busca programas sociais mostra que a dificuldade de acesso a direitos básicos atinge de forma mais intensa grupos historicamente vulnerabilizados. Segundo o órgão, mulheres pretas ou pardas, com baixa escolaridade e em situação de desemprego estão entre as mais afetadas.
Para Ana Luiza, não dá para falar sobre a dificuldade no acesso a programas sociais no país desconsiderando que historicamente um recorte específico do povo brasileiro tem suas demandas esquecidas ou pouco valorizadas. “São fatores profundamente vinculados ao desenvolvimento sócio-histórico da nossa sociedade e explicam como algumas desigualdades persistem no acesso a direitos básicos.”
Esse cenário se reflete também na experiência de famílias que precisam recorrer a apoio externo para conseguir acompanhar as exigências do cadastro e o acesso aos programas sociais.
“É muita burocracia. São muitas informações concentradas em só um lugar. Por isso deixamos a nossa advogada cuidar do CadÚnico. Muita gente tem dificuldade em entender o que fazer para solicitar os benefícios”, relata a técnica em enfermagem Ister Nascimento, de 23 anos. Filha mais velha de uma família de cinco pessoas, sendo ela, seus três irmãos e a mãe, ela tinha a responsabilidade de acompanhar a situação dos cadastros dos programas sociais em que a família está registrada. Porém, Ister explica que a família encontrou dificuldades em entender a plataforma online e, desde então, escolheram deixar essa função com a defensora pública.
Atendimento presencial é aposta da PJF para ampliar acesso
Diante desse quadro, a Prefeitura afirma que tenta compensar as barreiras tecnológicas com atendimento presencial e acompanhamento direto das famílias em situação de maior vulnerabilidade. Em exclusiva à Tribuna, a secretária de Assistência Social da PJF, Malu Salim, disse que está ciente das dificuldades que muitas famílias encontram para compreender o funcionamento do CadÚnico e acessar os benefícios vinculados ao cadastro. Ela afirma que, diante desse cenário, a Secretaria de Assistência Social (SAS) tenta acompanhar a situação das mais de 70 mil famílias registradas no município, o que exige estrutura e equipe para dar conta da demanda. “A política de assistência ainda é pequena. Somos municipalistas, então, quem banca a assistência social em Juiz de Fora é a Prefeitura e o povo”, explica. De acordo com a secretária, o município banca 85% da verba da SAS.
“As pessoas têm acesso à internet, mas usam para outras coisas. Muitos são analfabetos digitais. Para acabar com essa condição, não basta só o Município, mas sim uma política de Estado”, argumenta Malu. Apesar de reconhecer esse cenário, a secretária sustenta que a barreira tecnológica do CadÚnico pode ser reduzida em Juiz de Fora por meio da rede de atendimento presencial mantida pelo município.
Para facilitar o acesso, a SAS disponibiliza a maioria dos serviços nos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras). Atualmente, o município conta com três Creas e 11 Cras. Em cada centro de referência há três entrevistadores preparados para atender demandas diversas e, caso solicitado, realizar o cadastramento em programas sociais, de acordo com os parâmetros exigidos por cada benefício. Segundo a secretária, a proposta é justamente permitir que dificuldades com a plataforma, com a atualização cadastral ou com o entendimento das regras sejam solucionadas presencialmente nos equipamentos da assistência social.
Fora isso, a pasta também direciona servidores para estarem em contato direto e presencial com as famílias vulnerabilizadas. Malu explica que a PJF recebe mensalmente uma lista do Governo federal com o registro de pessoas que precisam receber visitas para atualizar a situação cadastral no CadÚnico.
Essas visitas domiciliares acontecem principalmente em situação famílias unipessoais – núcleos compostos de uma única pessoa, ou seja, indivíduos vulnerabilizados que se sustentam sozinhos. Juiz-foranos que estão nessa condição não atualizam o cadastro nos centros de referência, mas sim com profissionais da assistência social da PJF. “Enquanto não visitamos unipessoais que foram bloqueados pelo CadÚnico, o dinheiro que eles recebem fica retido. Temos que fazer mais de seis mil visitas no mês, mas não conseguimos atingir isso”, reconhece.
Sobrecarga e falta de pessoal desafiam assistência social
Embora a Prefeitura aponte a rede presencial como alternativa às barreiras digitais, a própria gestão reconhece que a estrutura da assistência social opera sob pressão. Ao comentar a estrutura da assistência social no município, Malu enfatiza: “Não cuidamos só do CadÚnico. Trabalhamos com pessoas em situação de rua, adolescentes que sofreram abuso e muitos outros serviços.” A fala reforça que a assistência social em Juiz de Fora acumula diferentes frentes de atendimento, o que amplia a pressão sobre a estrutura da rede. A secretária também informa que o orçamento destinado à assistência social em Juiz de Fora quase triplicou desde a sua chegada à PJF, em 2021, e reforça que a SAS vem sendo cada vez mais valorizada na cidade: “Atualmente, temos um orçamento que gira em torno de R$ 54 milhões, mas quando chegamos era de R$ 20 milhões.”
Para a especialista Ana Luiza Avelar, a falta de trabalhadores também colabora com a sobrecarga do Poder Público. A doutora em serviço social entende que, além de um quadro de profissionais compatível com a realidade do município, é essencial que o ingresso ocorra por meio de concursos públicos, com transparência, estabilidade e continuidade no acompanhamento dos casos atendidos pela assistência social em Juiz de Fora. Sobre essa necessidade, Malu informa que a SAS adotou medidas para reforçar a equipe e efetivou 90 pessoas por meio de concursos entre janeiro e fevereiro deste ano.
“Paralelamente, a capacitação permanente das equipes é indispensável, tanto para promover a inclusão digital quanto para nivelar informações e qualificar o atendimento. Também é imprescindível assegurar condições adequadas de trabalho, disponibilização de equipamentos, campanhas informativas e estratégias para ampliar o acesso da população aos serviços e direitos”, completa Ana Luiza. Na avaliação da especialista, ampliar o acesso aos benefícios sociais depende não apenas de tecnologia ou cadastro ativo, mas também de estrutura pública, qualificação das equipes e atendimento direto à população. Para garantir que barreiras históricas, sociais e econômicas não sejam obstáculos para que os benefícios sociais cheguem a quem mais precisa, a especialista reforça que é necessário informação, comunicação e atendimento direto ao público.
*Estagiário sob supervisão da editora Carolina Leonel

