As taxas de mortalidade materna e infantil tiveram queda nos últimos anos, em Juiz de Fora, segundo dados divulgados pela Secretaria de Saúde. No primeiro caso, o indicador baixou de 111 óbitos por cem mil nascidos vivos, em 2009, para 30,5, em 2011. O resultado obtido pela cidade é melhor que a média do estado, no mesmo período, que foi de 32,09 mortes por cem mil nascidos vivos. No que diz respeito à mortalidade infantil, a queda foi mais modesta. Depois de um aumento de 15,7 para 17,6 casos por cada mil nascidos vivos, na comparação de 2009 com 2010, no ano passado foi observado índice de 13,4 óbitos. Neste caso, a média ainda é maior que a de 12,65, registrada no estado. Embora reconheçam que as reduções são positivas, especialistas recomendam cautela nas comemorações, já que os índices só podem ser considerados estáveis após cinco anos e, historicamente, Juiz de Fora sofre oscilações contínuas (ver quadros).
Para a secretária adjunta de Saúde, Marilene Fabri, a melhoria do desempenho aferida nos dois índices está atrelada a medidas que alteraram as condições de atendimento, tanto para mães, quanto para os recém-nascidos, no que diz respeito à infraestrutura e à ampliação no número de unidades de atendimento. Entre os exemplos, ela cita o reforço em equipes que garantem a vacinação e o monitoramento da saúde das crianças. De acordo com Marilene, é possível cadastrar o endereço dos responsáveis para que, durante o período puerperal (pós-parto), equipes de saúde possam fazer uma busca ativa da mãe, caso ela não retorne às unidades de saúde. "Se mãe e filho estiverem em risco, podemos encaminhá-los para o atendimento adequado", afirma, acrescentando que a mulher deixa a maternidade com a primeira consulta do filho agendada para os 15 dias seguintes.
Na lista de melhorias, a secretária adjunta também inclui o aumento da integração entre as unidades de atendimento em saúde, o que ainda precisa ser aprimorado. "Está programado para meados de março um seminário com médicos da atenção primária, junto com profissionais das maternidades, no qual estaremos avaliando protocolos e padrões que vamos adotar, além de referências para que seja identificada a gestante de alto risco." Ela acrescenta que está sendo planejada uma maneira para que os cadastros dos pacientes sejam unificados, o que deve facilitar o intercâmbio de informações. "Os registros são precários, um não ‘conversa’ com o outro."
Metas
Marilene Fabri antecipa que, em 2012, o objetivo é reduzir em 10% os índices já alcançados. Se a meta for atingida, a taxa de mortalidade materna seria de 27,45 por cada cem mil nascidos vivos, e a infantil de 12,06 por cada grupo de mil. "A gente tinha níveis classificados como ‘muito altos’ e conseguiu baixar para ‘médios’", observou, referindo-se aos dados de óbitos maternos.
Marilene avalia que o objetivo agora deve ser a manutenção das políticas já adotadas, para que haja estabilidade nesses indicadores. "Estamos montando um sistema para reduzir ainda mais a mortalidade materno-infantil."
O coordenador do Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais da UFJF, Luiz Fernando Soares, explica que esses indicativos influenciam o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). "A queda na mortalidade tem impacto positivo nos anos de vida da população."
Estabilidade precisa ser mantida por cinco anos
Integrante dos comitês municipais de Prevenção à Mortalidade Materna e Combate à Mortalidade Infantil, a enfermeira obstetra Bettina Koyro explica que os dados relacionados aos indicativos são delicados. Segundo ela, a cidade precisa manter a tendência de queda dos índices por, pelo menos, cinco anos, antes que o cenário seja considerado estável. Entretanto, historicamente, acontece exatamente o contrário em Juiz de Fora, com registro de oscilação, com picos como o de 2009, quando a mortalidade materna chegou a 111 casos por cada cem mil nascidos vivos. "Isso é preocupante, visto que a morte materna é um indicativo importante para a saúde da mulher e para a sociedade como um todo, já que traz à tona diversas falhas no sistema de saúde."
Bettina destaca que entre os problemas responsáveis pelo quadro estão falhas na gestão dos encaminhamentos relacionados ao monitoramento da saúde da mãe. Ela explica que a entrada das gestantes deve ser sempre feita pela unidade de atendimento primário à saúde que cobre o bairro onde moram. Mas, em casos que demandam tratamentos de alta complexidade, as pacientes devem ser rapidamente direcionadas para os setores responsáveis, como o Hospital Therezinha de Jesus, o Centro Viva a Vida do Hospital Universitário (HU/UFJF) e o Departamento de Saúde da Mulher. "Muitas vezes, a gestante já está no oitavo mês e apresenta problemas que vêm se arrastando durante todo esse tempo, como anemias mal curadas".
Ainda de acordo com Bettina, quando os encaminhamentos são feitos da forma esperada, as mães conseguem, por exemplo, ter resultados mais rápidos de exames. Esse é um diferencial importante face à rapidez com que um problema pode se propagar. "Às vezes, uma doença é detectada em uma semana e, na outra, a mãe morre. Não dá para esperar dois meses para ter acesso ao resultado de um exame."
Número de cesáreas ainda é alto na cidade
A professora do Curso de Enfermagem da UFJF e membro do Comitê Municipal de Prevenção à Mortalidade Materna, Maria das Dores de Souza, aponta o excesso de cesarianas como um problema recorrente em Juiz de Fora, chegando a corresponder a 90% dos partos em determinados hospitais. "Esse índice não deveria ser superior a 50%, já que a maioria das mulheres tem condições de ter um parto normal." Segundo ela, essa realidade influi tanto na mortalidade de mães quanto na infantil, já que a cesariana é uma cirurgia de grande porte e, consequentemente, traz todas as implicações envolvidas nesse tipo de procedimento, com possibilidade até mesmo de reflexos a longo prazo. "Há, inclusive, o risco de a criança não estar totalmente preparada para o nascimento."
O médico João Manoel de Almeida, que tem doutorado em pediatria pela UFMG, também recomenda cautela na análise dos dados de mortalidade infantil. Ele afirma ainda que esse tipo de informação, fundamental para a medição da qualidade de vida, é subestimada no Brasil, "já que está nas mãos do próprio Governo".
Na avaliação do médico, o principal caminho para que sejam alcançados bons indicadores é uma intervenção direta em atendimentos de pré-natal, já que "uma das principais causas dessa mortalidade são os nascimentos prematuros". Ele relata haver casos em que as mães chegam para o parto sem ter passado por qualquer tipo de atendimento dessa natureza. "Essa alteração passa pela criação de uma maternidade administrada diretamente pelo Poder Público, para que haja total controle sobre os serviços oferecidos."
