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Inclusão distante para cadeirantes

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Um olhar atento. É o que basta para perceber a dificuldade enfrentada diariamente pelas pessoas com deficiência, principalmente os cadeirantes, no deslocamento urbano. Engana-se quem pensa que os principais obstáculos são encontrados apenas nas calçadas malconservadas, nos locais sem rampas ou nos impedimentos que surgem nos trajetos. As viagens nos ônibus urbanos adaptados revelam que a inclusão ainda não está tão perto quanto parece.

Juiz de Fora tem 241 coletivos adaptados no transporte público urbano, o que corresponde a 43,2% da frota, atualmente com 557 veículos, segundo a Settra. Até dezembro, 52% circularão com o sistema "apoio", e, desde 2008, todos os ônibus acrescentados ou substituídos nas linhas são adaptados. Apesar disso e de os instrumentos desses coletivos serem voltados para a melhoria do acesso das pessoas com deficiência, cadeirantes e passageiros denunciam que nem sempre ela ocorre. Casos de defeitos no sistema, de impedimento no embarque e de despreparo dos profissionais para lidar com os equipamentos são recorrentes, segundo usuários.

A Tribuna acompanhou a rotina de cadeirantes nas últimas semanas e flagrou circunstâncias que dificultam a acessibilidade e colocam passageiros em risco. Além de constatar campainhas que não funcionam, elevadores enferrujados, travas de segurança com defeito e cintos que não prendem as cadeiras, a freada brusca dos veículos e a parada longe da calçada comprometem a utilização do serviço. Em 30 minutos no ponto de ônibus da Avenida Rio Branco próximo à Rua Agassis, foram identificados problemas nas rampas elevatórias de cinco coletivos.

A situação mais preocupante ocorreu no último dia 14, com um ônibus da linha 218 (Centro-Graminha), cujo elevador já havia apresentado falhas em dias anteriores. Apesar de enferrujado e com a trava de segurança emperrada, o instrumento foi capaz de proporcionar o embarque do aposentado José Wilson Almeida Macêdo Júnior, 38 anos. No entanto, as barras de apoio – usadas para que os cadeirantes se segurem enquanto o elevador sobe – estavam bambas, e a porta, danificada, quase se fechou antes do fim do procedimento. Já dentro do ônibus, o cinto de segurança não se adaptou à cadeira de José Wilson, e o usuário precisou fazer força segurando as barras do coletivo, para evitar que a cadeira se movesse. "Defeitos podem ocorrer com qualquer veículo, mas a situação desse coletivo foi de assustar", completou o cadeirante.

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Em 31 de agosto, a coordenadora do balcão de empregos do Núcleo de Atendimento Especializado à Pessoa com Deficiência (Naepd), Maria Angela Fróes, 51, que é cadeirante e usuária frequente do transporte público, enfrentou empecilhos até conseguir chegar ao ponto de ônibus em frente à Praça do Riachuelo, na Avenida Rio Branco, mas embarcou com tranquilidade no coletivo da linha 608 (Milho Branco). Contudo, no veículo, surgiram problemas. Tanto a trava quanto o cinto, que deveriam prender a cadeira, não se adaptaram ao modelo elétrico usado por Maria Angela. Ela viajou por quase 30 minutos balançando no veículo, correndo o risco de a cadeira se soltar. "Uso até um pequeno travesseiro, para evitar fazer muita força com o pescoço e bater a cabeça. Já cheguei a ter fortes dores por causa disso e, uma vez, até desci do ônibus antes do destino. A maioria dos motoristas dirige com cautela, mas alguns esquecem e usam o freio ou manobram de forma brusca. Se a cadeira não estiver bem presa, viajamos sendo jogados de um lado para o outro", conta Maria Angela.

O músico Fernando Littieri, 46, já caiu duas vezes do elevador de cadeirantes. O último acidente ocorreu há cerca de um ano. "Na hora em que eu ia descer, o trocador se confundiu e fez com que o sistema fechasse. "Quando vi que ia cair, me joguei, porque se a cadeira caísse em cima de mim seria pior." Conforme a assessoria de comunicação da Astransp, a responsabilidade pela manutenção é de cada empresa, e a reclamação pode ser feita a elas ou à Settra. De acordo com levantamento do mês de julho, a Astransp apurou que os problemas atingem 0,2% das viagens. "Considerando que o sistema realiza, em média, 300 mil viagens por mês, estes problemas são relativamente pequenos, mas há atenção constante das empresas", ressalta a assessoria.

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A Viação Norte, responsável pela linha 608, prometeu verificar os cintos de segurança e as travas destinadas à adaptação da cadeira nos ônibus, assim como realizar manutenção, se for preciso.

 

Impedimento do embarque é considerado incorreto

Entre as situações vivenciadas pelos usuários do sistema adaptado estão coletivos que não param no ponto devido a problemas com o elevador, profissionais que impedem o acesso das pessoas com deficiência pelo mesmo motivo, ou alegando que, apesar de ser adaptado, o ônibus está em substituição a outro veículo. "O caso mais absurdo ocorre quando as empresas substituem coletivos convencionais que quebraram pelos adaptados. Nem sempre o trocador tem boa vontade e aceita nosso embarque", diz a coordenadora do balcão de empregos do Núcleo de Atendimento Especializado à Pessoa com Deficiência (Naepd), Maria Angela Fróes.

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Por ser cadeirante e atuar na ONG Somar Brasil, a jornalista Thaís Altomar conhece os direitos e as normas que envolvem a questão. Ela é enfática em dizer que, independente das circunstâncias, o ônibus precisa parar sempre que o passageiro fizer sinal. "Essa negativa não pode ocorrer, porque, mesmo que o instrumento esteja com defeito, a pessoa tem a opção de querer embarcar, contando com ajuda de alguém."

E-mails enviados por leitores da Tribuna confirmam os casos. Em um deles, o leitor conta o que presenciou no ponto da Rio Branco, em frente ao Parque Halfeld. "Um cadeirante se preparou para ser içado no elevador, manobrando sua cadeira de rodas. Entretanto, o trocador informou que o equipamento estava com defeito, embora o veículo fosse do ano de 2011. O ônibus seguiu, e o cidadão ficou no ponto." Segundo ele, o ônibus era da linha 211 (Rio Branco). Já outra pessoa denuncia que uma usuária da linha 525 (Universidade). Segundo ela, a estudante com deficiência não pôde embarcar porque o trocador não sabia manusear o aparelho.

Multa

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De acordo com o subsecretário de Mobilidade Urbana da Settra, Carlos Eduardo Meurer, tais situações são inadmissíveis e devem ser denunciadas à Supervisão de Orientação ao Usuário da Settra (Rua Maria Perpétua 72, Bairro Ladeira) ou pelo telefone 3690-8218. É indicado que sejam repassados os dados do veículo e o horário. Ainda conforme a Settra, o veículo que fizer viagens com problemas no equipamento, sem justificativa, deve pagar multa de R$ 71,08 por dia. A presidente do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência, Lenir Quetz, diz que o órgão também está aberto para receber, orientar e encaminhar as reclamações.

A Tusmil, responsável pela linha 525, informa que nenhuma reclamação do tipo foi formalizada recentemente. "Caso seja por negligência do trocador, a empresa pode adotar correção, já que todos os funcionários recebem treinamento. Se houver problema com a rampa de acesso, eles estão aptos, inclusive, a auxiliar em outra forma de embarque, além de avisar à empresa que, imediatamente, promove a substituição do veículo e realiza o conserto", explica o encarregado de tráfego Cleyson Dilly.

A Viação Norte informa que os funcionários que atuam nos adaptados são treinados, e que, quando há necessidade de substituir ônibus de linha convencional, a empresa orienta que trocadores que ainda não passaram por treinamento não embarquem cadeirantes, para evitar acidentes. "Mas já estamos adequando e, em breve, todos os funcionários terão passado pelas instruções", afirma o encarregado de pessoal da Viação Norte, Valdeir Geraldo do Nascimento. A Tribuna entrou em contato com a Ansal, responsável pela linha 211, mas não houve resposta aos questionamentos ou retorno às ligações.

 

Problema em horários alternativos

Tanto o aposentado José Wilson Almeida Macêdo Júnior quanto o músico Fernando Littieri dizem não ter mais problemas para embarcar nos ônibus que os atendem nos bairros onde moram, porque costumam ir e voltar no mesmo horário, já são conhecidos pelos motoristas e trocadores e fizeram muitas reclamações até que as condições fossem melhoradas. Contudo, quando precisam embarcar em horário diferente e utilizar outros coletivos, a situação é bem diferente.

A Tribuna flagrou essa dificuldade ao acompanhar José Wilson percorrendo o Centro de ônibus em horários e linhas não habituais para ele. Enquanto em alguns casos os motoristas fizeram a parada do veículo longe do meio-fio, o que dificulta a adaptação do elevador para cadeirantes, em outros, os dispositivos de segurança não funcionaram. A falha no funcionamento das sinetas instaladas para alertar ao motorista que o cadeirante vai desembarcar também exigiu que os usuários tivessem que informar de outra forma o desejo de descer, o que é complicado se os veículos estão cheios.

"Quase todo cadeirante já passou por alguma situação constrangedora, que vai desde ter que esperar outro ônibus, porque o que precisamos está com o elevador quebrado, a precisar ensinar o funcionário como manusear o sistema", enfatiza Littieri. "Tenho um amigo que já teve as duas rodas da cadeira cortadas pela estrutura enferrujada do sistema adaptado de um ônibus", diz José Wilson.

Por lei, todos os funcionários das empresas de transporte público precisam passar por treinamento para aprender a manusear o sistema e oferecer o atendimento adequado aos usuários com deficiência e, tanto Settra e Astransp quanto o Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência e a ONG Somar Brasil afirmam que o serviço tem sido oferecido pelas empresas. Mas os cadeirantes questionam a eficácia do treinamento e alegam que, apesar de ter representado melhorias, e a maioria dos trocadores já se mostrar mais solícita, ainda há despreparo. A presidente do conselho municipal, Lenir Quetz, acredita que o ideal seria que os cadeirantes fossem convidados a participar do treinamento, para que pudessem demonstrar as necessidades. A representante da Somar, Thaís Altomar, concorda e diz que "muitos já demonstraram interesse em colaborar nesse sentido".

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