
João Marcos assiste às aulas da própria casa
A produção de videoaulas postadas na internet e disponibilizadas aos alunos a qualquer hora do dia está conquistando espaço na UFJF. A maioria dos mais de 15 mil estudantes da instituição ainda frequenta as aulas regulares em salas físicas, mas os vídeos têm servido cada vez mais como complemento dos estudos regulares. Já há inclusive casos experimentais em que o quadro negro foi substituído pelas telas de computadores, tablets ou smartphones. O estudante do 5º período do curso presencial de engenharia computacional João Marcos de Oliveira, 19 anos, por exemplo, está fazendo a disciplina de Circuitos Digitais em sua própria casa, na hora mais conveniente para ele. "Os horários dessa matéria estavam batendo com os de outra disciplina que eu precisava fazer. Então, o professor me propôs assistir às videoaulas que ele tinha gravado." Nas duas provas presenciais a que foi submetido junto com sua turma, o rendimento alcançado superou os 90%.
"Só o deixamos fazer a disciplina assistindo às videoaulas porque sabemos que ele é um bom aluno. No curso a distância, o estudante precisa de uma certa responsabilidade para encarar os estudos", diz o professor Luciano Jerez Chaves, do Departamento de Ciência da Computação. No ano passado, o docente resolveu gravar, com o próprio celular, o áudio de todas as 30 aulas da disciplina de Circuitos Digitais. Depois disso, ele editou e sincronizou sua voz com as apresentações de slides que costuma usar em sala de aula. O material, livre para o acesso de qualquer pessoa, foi hospedado nos servidores da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
Das mais de 30 entidades clientes da RNP, a UFJF é a segunda que mais disponibiliza videoaulas: 123. Mais da metade foi elaborada por professores do Instituto de Ciências Exatas (ICE), a partir de 2011, com média de 3,5 mil acessos por mês (http://www.ufjf.br/ice/video-aulas/). A UFJF fica atrás apenas do Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro (Cederj), com 463 vídeos.
O responsável pelo sistema de videoaulas da RNP na UFJF, professor Eduardo Barrére, é outro entusiasta dos materiais audiovisuais para seus alunos dos cursos presenciais e a distância do Departamento de Ciência da Computação. A produção feita por ele é simples, porém objetiva. Utilizando uma câmera amadora, um tripé, um microfone e um programa simples de edição, o próprio docente filma suas aulas, edita e as disponibiliza na plataforma. Ele ainda auxilia professores de outros cursos a elaborarem produções do mesmo tipo. "Qualquer coisa que fuja do giz e do quadro negro terá resistência de alguns professores, mas as dinâmicas precisam ser revistas. Essa revolução precisa ser encarada como um desafio para nós, docentes, aprendermos a disponibilizar conteúdo de formas diferentes."
Reforço
Os materiais produzidos recentemente no ICE buscam ser um reforço às aulas presenciais ou às apostilas dos cursos a distância. "Não adianta fazer um vídeo que é exatamente igual à aula dada na sala. Conforme o andamento da turma, gravo uma videoaula diferente. Estamos produzindo materiais de geração e acesso rápido", diz Barrére. Recentemente, o professor levou apenas dois dias para gravar, editar e disponibilizar cinco videoaulas de dez minutos cada. "O tempo para essa produção tem que ser curtíssimo, coisa que gravações mais profissionais não permitem, porque demoram muito."
Quanto ao formato, tem-se buscado, cada vez mais, produzir vídeos curtos. "Aulas com menos de 15 minutos têm mais chance de serem assistidas por inteiro. Se não, viram material de consulta. Não que elas percam a validade, mas os vídeos mais curtos facilitam até mesmo o acesso em tablets e smartphones."
As ferramentas do RNP são livres e podem ser usadas gratuitamente por qualquer instituição. A ideia é mais do que simplesmente disponibilizar vídeos educativos na internet. O aluno tem acesso ainda a uma apresentação explicativa, que pode ser criada no PowerPoint ou outro programa de fácil uso, além de um índice pelo qual o internauta pode acessar pontos específicos da videoaula. Já o professor pode atualizar, aprimorar e corrigir o material quando quiser.
Aula em vídeo pode ajudar professora tetraplégica
A professora Luciana de Lima Santana, 32 anos, graduou-se em pedagogia pela UFJF, em 2011, mesmo estando a 400 quilômetros de Juiz de Fora, no pequeno município de Ilicínea, no Sudoeste de Minas. No curso a distância, ela teve acesso a diversas videoaulas que considerou fundamentais. "Cria uma aproximação maior entre professor e aluno; me sentia mais segura assistindo os vídeos. É um processo menos mecanizado do que só as apostilas virtuais", avalia.
Hoje, já formada e atuando como professora particular para alunos do ensino básico, Luciana planeja produzir suas próprias videoaulas. A ferramenta seria a possibilidade de ampliar sua atuação profissional, uma vez que a professora ficou tetraplégica após sofrer um acidente. "Para mim, facilitaria muito, principalmente pelas limitações que eu tenho para trabalhar com as mãos." Com a experiência de quem já estudou com o auxílio de videoaulas, Luciana garante que o aluno não sai prejudicado com o método.
O diretor do Centro de Educação a Distância (Cead) da UFJF, Flávio Takakura, avalia que essa ferramenta ainda tem uma função importante dentro da modalidade de estudos a distância, mas pondera que o crescimento das aulas em vídeo tende à estagnação. "As pessoas ainda estão muito acostumadas com a imagem do professor em aulas expositivas. No futuro, quando a nova geração de jovens estiver na universidade, acredito que o uso da videoaula vai diminuir, pois eles estão mais acostumados a obter informações na internet, sem precisar recorrer necessariamente a isso."
O Cead, que conta com um estúdio de gravação, já produziu 442 videoaulas desde 2009. O material está disponível a cerca de oito mil estudantes presenciais ou de cursos a distância da UFJF.
Tablets e smartphones
Para os próximos anos, portanto, a aposta é no desenvolvimento de aplicativos para que os alunos possam acessar conteúdo em tablets e smartphones. Ainda em fase experimental, técnicos do Cead estão sendo capacitados para a produção desses softwares. No Departamento de Ciência da Computação também há esse interesse. O formato da tela onde são mostradas as videoaulas já está sendo flexibilizado para se adaptar aos dispositivos móveis.

