Rodovias que ligam Juiz de Fora a cidades da Zona da Mata dão sinais de esgotamento por não comportarem mais com segurança o fluxo intenso de veículos de passeio e caminhões, que disputam espaço em pistas simples, com trechos sinuosos e antigos e grandes segmentos sem acostamento. O problema atinge, principalmente, a BR-267, que liga Juiz de Fora à região de Leopoldina, e a MG-353, que dá acesso a cidades da região de Ubá, Viçosa e o Aeroporto Regional. Diariamente, milhares de pessoas utilizam estas rodovias por dependerem de serviços públicos ou de educação no município e precisam enfrentar os riscos das duas estradas, onde, devido aos traçados, são poucos os trechos onde as ultrapassagens podem ser realizadas com confiança. Além disso, são vias nas quais a velocidade máxima permitida não ultrapassa a 80km/h, havendo pontos em que não se pode dirigir a mais de 60km/h. Para verificar a situação, a Tribuna percorreu trechos das duas estradas .
Construídas para uma realidade diferente da atual, estas vias hoje se transformaram em palco de infrações. Em um intervalo de 60 minutos, dez ultrapassagens irregulares foram registradas na BR-267, entre Juiz de Fora e o trevo de acesso a Chácara, e outras sete na MG-353, entre o município e Coronel Pacheco. Os abusos foram observados em duas segundas-feiras, no mesmo horário, por volta das 15h. No caso da malha estadual, chovia no momento em que a reportagem trafegava, o que aumentou a situação de perigo. Em um dos flagrantes, um carro passou por um caminhão sobre uma ponte. A infração é prevista no artigo 32 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), com multa de R$ 272,40 e perda de cinco pontos na carteira de habilitação do condutor. Na malha federal, uma carreta ultrapassou outra, próximo a uma curva, colocando em risco um motociclista que seguia do lado oposto. O condutor da moto precisou desviar para não ser atingido, deixando o pneu dianteiro sobre a grama, já que não existem acostamentos naquele trecho. Vários outros flagrantes foram feitos no curto período (ver quadro), o que demonstra não só a imprudência, mas o fato de que as rodovias já não atendem a demanda.
Para o engenheiro José Ricardo Daibert, especialista em mobilidade urbana, os abusos presenciados são reflexo de um problema que começou há muitos anos no país. Ele explica que grande parte dos municípios cresceu ao redor das estradas, de forma desordenada. "Mesmo com o número de habitantes cada vez maior, faltava planejamento urbano, como saneamento e infraestrutura. O mesmo aconteceu com os acessos, que não acompanharam esta evolução."
Conforme Daibert, cerca de 60% do transporte de carga no país são realizados pelas rodovias. "O fluxo cresce a cada ano, mas a geometria segue a mesma de décadas atrás." Ele diz que falta organização para unir forças políticas da região com objetivo de cobrar dos governos melhorias das condições de segurança ou criação de novos traçados. "Os carros estão cada vez mais velozes, e as rodovias não melhoraram. Somando isso ao problema de educação dos condutores, os acidentes são inevitáveis."
Fiscalização
Segundo o comandante do Pelotão de Polícia Rodoviária Estadual, tenente Ricardo Brigatto, responsável pelo patrulhamento na MG-353, casos como os flagrados pela reportagem ocorrem em um percurso onde caminhões viajam em velocidade muito inferior à dos automóveis. "Os condutores não têm paciência e realizam a ultrapassagem. A condição é melhor entre as duas serras, onde existe a terceira faixa, que ajuda a desafogar o trânsito." O comandante afirma que diversas campanhas educativas e fiscalizações em pontos críticos são realizadas para tentar coibir os abusos.
Sobre a BR-267, o inspetor Wallace Wischansky, da Polícia Rodoviária Federal (PRF), diz ser difícil evitar as infrações porque os agentes não são onipresentes. "Acredito que o problema seja de educação. Fazemos o possível dentro das nossas limitações, mas os abusos são uma questão de formação do condutor." Conforme o representante da PRF, mesmo que a BR-267 represente apenas 20% da responsabilidade da delegacia na região, as fiscalizações e campanhas educativas são realizadas frequentemente no local.
Intervenções maiores não estão previstas
As diretrizes básicas que caracterizam ações para que o trânsito flua com segurança são conhecidas pelos especialistas por um tripé, em que devem ser adotadas soluções de fiscalização, educação e engenharia. Pelo menos na situação das duas rodovias visitadas pela Tribuna, o engenheiro Guilherme Facio, especialista em transporte, afirma que as intervenções necessárias são financeiramente inviáveis. "Apenas a duplicação resolveria, de fato, o problema. Mas as estradas estão em topografias que dificultam a realização das obras." Uma alternativa mencionada por ele, na malha estadual, é a construção de uma nova estrada, que ligaria a BR-040 ao trevo de acesso a Coronel Pacheco, na MG-353, diminuindo o tráfego de caminhões naquele segmento. Este traçado está previsto dentro do conjunto de obras relacionado ao Aeroporto Itamar Franco (antigo Aeroporto Regional da Zona da Mata). Segundo a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop), o Departamento de Estradas e Rodagens (DER)-MG já licitou a obra, mas não divulgou prazos e o valor do orçamento.
Sobre a MG-353 entre Juiz de Fora e Coronel Pacheco, o diretor de operações do DER-MG, Luiz Alberto Mendes, por meio da assessoria de comunicação, informou que não há intervenções planejadas atualmente. Segundo ele, o Governo estadual não vê como prioridade a realização de obras para construir acostamentos ou duplicar estradas porque "os recursos investidos hoje, no estado, são para recuperar a pavimentação". A assessoria também reforça que a MG-353 está em bom estado de conservação e lembra que são quatro radares instalados no trecho nos km 55, km 64, e dois no km 111.
Já o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) executa, atualmente, na BR-267, obras de revitalização do asfalto com recursos do projeto Crema 1ª etapa. Segundo a assessoria de comunicação, outras intervenções, como restauração de toda a estrada e construção de acostamentos devem acontecer com a segunda etapa do projeto, com início previsto para o fim do ano, após publicação do edital e licitação pública. O contrato será de cinco anos, mas ainda não tem previsão de qual será o custo.
‘É muito fácil culpar sempre o condutor’
O mestre em sociologia pela Universidade Federal de Brasília (UnB) e especialista em segurança no trânsito, Eduardo Biavati, defende que o problema das infrações não é apenas de educação. "É uma meia verdade porque precisamos observar que, no fundo, a gravidade das infrações em ambientes rodoviários tem a ver com a transgressão da regra, como o excesso de velocidade. Geralmente, os acidentes ocorrem acima do limite de velocidade, e, se isso está acontecendo, é porque falta uma fiscalização mais presente. Uma rodovia não é perigosa do início ao fim. Existem picos de insegurança. Se houvesse monitoramento das polícias e intervenções de engenharia nestes trechos, não haveria acidentes."
No livro "Rota de colisão", de autoria de Biavati, ele aborda a violência do trânsito nas ruas e estradas. Entre os jovens, segundo o especialista, os acidentes são a segunda causa de morte e a primeira de incapacitação física permanente. "É muito fácil culpar sempre o condutor pelas tragédias que ocorrem, e isso não está correto. Errar é humano. O que deve ser feito é criar barreiras e mecanismos para que a velocidade não seja excessiva." O especialista afirma que, para diminuir as imprudências, é necessário adotar soluções de curto, médio e longo prazo. "Imediatamente deveria aumentar a fiscalização e buscar recursos de engenharia, o que também pode ser feito em médio prazo. Mas também precisamos pensar na educação da nova geração. A preocupação com o trânsito deve ser incorporada à formação do ser humano."
