
O enterro ocorreu no Parque da Saudade
A dona de casa Maria de Lourdes Silva Estevam, 51 anos, baleada na cabeça, no último dia 5, morreu no Hospital de Pronto Socorro (HPS), na noite de quinta-feira. Ela foi atingida por um tiro de pistola 380, disparado por um cabo da Polícia Militar, 47, no Bairro Ipiranga, na Zona Sul. A vítima foi alvejada na região frontal do crânio em frente a um bar, na presença do marido e da filha. Desde o dia do crime, a mulher permaneceu em estado grave na sala de urgência, sedada e respirando com a ajuda de aparelhos. Nesta semana, ela foi transferida para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI), onde faleceu. O corpo deu entrada às 22h30 no Instituto Médico Legal (IML) para exame de necropsia. O policial, lotado na 32ª Companhia (Zona Sul), estava afastado das atividades por licença médica e fugiu após atirar. Ele se apresentou à Polícia Civil três dias depois e não chegou a ser preso, mas pode responder por homicídio qualificado.
O marido de Maria de Lourdes, Flávio Lúcio Estevam, 53, contou que a mulher deixou duas filhas, de 17 e 28 anos. "Ela piorou e parece que teve uma parada cardíaca. Estava muito preocupado com ela esses dias. Agora, com certeza, vou lutar por justiça." O crime ocorreu após um desentendimento de trânsito na porta de um estabelecimento comercial na Avenida Darcy Vargas. Pelo menos sete tiros teriam sido disparados na via pública, onde havia crianças. Uma casa próxima também foi atingida pelas balas. "Minha esposa fazia parte da Associação dos Moradores, e não havia uma pessoa que não gostasse dela no bairro."
De acordo com o titular da 1ª Delegacia Distrital e responsável pelo caso, delegado Rodrigo Rolli, 12 pessoas já foram ouvidas durante a investigação, entre elas o suspeito, familiares da vítima e testemunhas. Ele aguarda o resultado da necropsia e o laudo de local feito pela perícia, além do prontuário médico do HPS, para concluir o inquérito. "Só farei o indiciamento após as provas materiais. Se ficar comprovado que a morte foi em decorrência da gravidade da lesão, o policial será indiciado por homicídio qualificado por motivo fútil."
O cabo da PM se apresentou no dia 8, acompanhado de uma advogada, e alegou fazer tratamento psiquiátrico desde 1995, motivo pelo qual estaria constantemente de licença da corporação, estando sem trabalhar desde janeiro de 2010. "Ele relatou que, no dia dos fatos, efetuou os disparos para se defender de um tumulto. Mas as outras pessoas ouvidas contaram que ele atirou sem qualquer ameaça à integridade física dele." O suspeito declarou não ter encontrado a pistola usada na ação, que estaria em seu carro. Conforme Rolli, ele também pode responder por porte ilegal de arma. "Ainda vou confirmar se o porte dele estava suspenso."
A PM também vai instaurar procedimento administrativo para apurar a conduta do homem como militar. Segundo o assessor de comunicação do 27º Batalhão, tenente Flávio Luiz de Campos, o policial continua de licença médica. "Estamos aguardando a conclusão do inquérito e o retorno dele (ao setor administrativo), para iniciarmos a apuração interna."
Sepultamento
Estevam contou que o crime aconteceu a cerca de cem metros da casa onde morava com a esposa. "Eu estava de costas quando ele começou a atirar. Já o tinha visto, mas não o conhecíamos e não sei por que fez isso." Maria de Lourdes foi velada e sepultada na tarde de ontem no Parque da Saudade. "Tinha muita esperança de que ela se recuperasse. Já tínhamos até pensado em uma festa para quando ela voltasse para casa. Agora o tempo vai passando, e a gente tem que aprender a viver de novo", desabafou o marido.

