Entre as cinco maiores cidades do estado, Juiz de Fora foi a que apresentou, percentualmente, maior crescimento no número de homicídios entre os anos de 2011 e 2012. Estudo divulgado pela Secretaria de Estado e Defesa Social (Seds) mostra que, de um ano para o outro, o salto foi de 51,2%, o que significa aumento de 43 para 65 no número de assassinatos nos registros oficiais. Apesar disso, levantamento realizado pela Tribuna e divulgado no início deste mês aponta realidade ainda mais alarmante. Apenas em 2012, o jornal contabilizou 99 mortes violentas contra 52 no ano anterior, um aumento de 90%. A diferença entre os dois resultados, de 52% ocorre porque a Seds utiliza como fonte de dados apenas os boletins de ocorrências confeccionados pelas polícias Civil e Militar, enquanto que a Tribuna leva em consideração os óbitos ocorridos, também, após a conclusão do registro policial. Desde 2006, quando o jornal começou a acompanhar as mortes violentas, o número de vítimas cresceu 209% na cidade.
Se comparados os resultados entre 2004 e 2012, anos contemplados pelo levantamento da Seds, a evolução no número de assassinatos foi ainda maior, subindo de 34 para 65, o que representa salto de 91%. No entanto, a fonte de informação da secretaria mudou ao longo dos anos. Até 2010, era utilizada como referência pesquisa da Fundação João Pinheiro, e não os números registrados pelas polícias.
De acordo com o assessor de comunicação organizacional da 4ª Região de Polícia Militar (4ª RPM), major Paulo Alex Moreira Silveira, para analisar o resultado é necessário entender uma particularidade de 2012 quando, segundo ele, ficou evidente a falência da saúde social. "A inserção das drogas nas famílias, sobretudo o crack, contribuiu para aumento deste índice. Grande parte dos homicídios ocorridos tem relação com o tráfico de drogas. Também precisamos lembrar da situação das rixas entre jovens de bairros distintos, que acaba culminando com esta modalidade criminal. Muitas vezes, este fator também está associado ao tráfico", afirma.
O major informou que, para tentar reverter este quadro, será intensificado em 2013 a Patrulha de Prevenção a Homicídios. O objetivo é preparar equipes, de diversas companhias da PM, para estudar as causas que podem contribuir para os crimes. "Por exemplo, quando há um registro de ocorrência por ameaça de morte, a patrulha vai acompanhar os envolvidos com mais intensidade para evitar que eles se encontrem."
Procurada pela reportagem, a Polícia Civil, por meio da assessoria de imprensa, informou que a delegada Cristiane Maciel, que responde interinamente pela 1ª Regional, preferiu não comentar os números. Já o titular da Seds, Rômulo de Carvalho Ferraz, segundo sua assessoria, esteve em reunião interna durante todo o dia.
O estudo
O levantamento da Seds leva em consideração as 29 cidades do estado com mais de cem mil habitantes. Neste universo, Juiz de Fora aparece em 4º lugar na evolução no número de homicídios, ficando atrás de Araguari, Conselheiro Lafaiete e Poços de Caldas. Nestes municípios, porém, o índice de assassinatos é baixo. Poços de Caldas, por exemplo, teve aumento de 500%, mas com 12 mortes em 2012 e apenas duas em 2011. Em Conselheiro Lafaiete, os homicídios subiram de três para seis em igual período, e em Araguari, de 13 para 20, diferença de 53%.
Estudo aponta redução de crimes violentos
Conforme os dados oficiais, os registros de crimes violentos em Juiz de Fora reduziram 1,6% no ano passado, caindo de 1.122 para 1.104 em relação ao período anterior. São considerados crimes violentos os homicídios consumados e tentados, sequestro e cárcere privado, roubo, extorsão mediante sequestro, além dos estupros consumados e tentados. Já os dados relativos aos crimes violentos contra o patrimônio, que incluem os roubos e assaltos à mão armada, apresentaram redução de 6,2%, caindo de 887 para 832.
O assessor de comunicação organizacional da 4ª Região de Polícia Militar (4ª RPM), major Paulo Alex Moreira Silveira, atribui a queda nas taxas de crimes violentos em Juiz de Fora à conscientização da comunidade em tomar medidas protetivas e ao aumento do número de operações realizadas pela corporação. O oficial também falou da necessidade de aumentar a sensação de segurança entre a população. "Fazemos isto trabalhando com a presença real, por meio de ações preventivas e repressivas."
O oficial considera a divulgação dos crimes pela imprensa como um dos motivos para a sensação de insegurança percebida pela sociedade. "Não há como definir as causas e consequências disso. Porém, aumenta a sensação de insegurança se a mídia dá ênfase a um crime."
Entre as cinco maiores cidades do estado, somente Juiz de Fora e Uberlândia apresentaram redução no índice de crimes violentos entre 2011 e 2012, de 1,6% e 4,7%, respectivamente. Contagem foi o município que teve maior aumento nos crimes violentos, 14,6%, seguido por Belo Horizonte, com salto de 5,3%, e Betim, 2,6%.
Crescimento acentuado no interior
Publicado ano passado, o Mapa da Violência 2012, feito pelo Instituto Sangari, analisa os novos padrões dos homicídios no Brasil. Conforme o estudo, entre 2004 e 2010, houve aumento dos índices de homicídios no interior. Em Minas Gerais, o crescimento foi de 17,3%.
Para se ter uma ideia, enquanto o crescimento do número de mortes violentas, entre 2000 e 2010, subiu de 27,6 para 33,8 para cada cem mil habitantes na capital e região metropolitana, no interior, o índice saltou de 5,8 para 12,3.
Segundo o autor do estudo, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfiz, esta é uma realidade encontrada em todo o Brasil e se deve ao fato de investimentos na área de segurança terem ocorrido apenas em regiões consideradas as mais violentas há uma década. É o caso dos estados de Pernambuco, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Distrito Federal. "Nesta mesma época, houve mudança do modelo de desenvolvimento do país. Com uma verdadeira guerra fiscal entre municípios e estados, indústrias migraram para cidades que, até então, não tinham tradição neste tipo de investimento. O problema é que a circulação de dinheiro aumentou, mas o novo modelo de segurança pública não chegou a estas localidades. Com isso, há um processo de migração da violência para o interior do Brasil."
Outro fator considerado pelo especialista é a melhora nos sistemas de notificação das polícias e do Ministério da Saúde. Ou seja, mortes violentas passaram a ser contabilizadas com muito mais frequência, o que não ocorria há uma década.
