O que era Juiz de Fora? Para mim, uma cidade à beira de um jardim plantada. Quando retorno à minha infância, é assim que a vejo. Que jardim era esse? O bosque do Museu Mariano Procópio. E que bosque era esse? Muito parecido com aquele onde Deus plantou na cidade do Éden, o seu jardim fechado, e nele instalou os seres humanos que acabara de criar, na Bíblia chamada de Adão e Eva.
É assim que está escrito nas escrituras, cuja leitura inteira faço pela última vez, em meio a outras, como a Ilíada, de Homero, antes de deixar o mundo em que me foi dado viver. E por que começo assim esse texto de forma quase solene, a mim encomendado para falar do Museu Mariano Procópio, aos pés do qual, desde a minha infância, vejo plantada a cidade de Juiz de Fora? Porque foi assim que sempre a vi, sempre a senti, sempre a vislumbrei em sonhos.
Entre as coisas mágicas da infância: um carro azul marinho com o nome sonoro de Pontíac e que meu pai conduzia pelas ruas infinitas de uma cidade que me parecia sem limites. Para ir ao lugar chamado museu, o que acontecia nas manhãs de domingo, tínhamos que subir. Para nós, crianças, era o outro lado do mundo, as portas do paraíso. Rompíamos o portão milagrosamente aberto e através dele entrávamos. De um lado, a casa enorme, de tijolos vermelhos, saída de nossos livros de histórias, em frente à qual o carro se detinha imóvel. Chegávamos ao bosque. Ali inaugurávamos a manhã, o ar fino parado, purgado pela noite.
Em domingos especiais, havia algo especial: nas árvores todas iguais, de folhas miúdas de tronco alto, bolinhas brilhantes, translúcidas, negras, de absoluta redondez. Ao mordê-las, vimos a poupa branca, imaculada, e o gosto de tudo em forma de caldo entrava para dentro de nós. O que era aquilo? O gosto mágico da vida, o momento de eternidade, a redenção, a vitória contra a morte, a infância preservada. Ao contrário da maçã comida no paraíso, não era proibido e não nos conduzia ao pecado, mas à sensação corpórea da beleza, da degustação dela, sua apropriação.
Passados tantos anos, nessa releitura final da Bíblia, penso na expulsão de Adão e Eva dos jardins do Éden e faço uma estranha comparação com aquele jardim para onde subimos nas manhãs de domingo com sua casa vermelha, seus objetos pairantes no tempo, atravessando heras.
Das minhas longas leituras da Bíblia, procuro tirar material para o melhor conhecimento da vida. Não é só pela beleza do texto que a leio, pela riqueza dos personagens ou pelo sentido religioso que a inspirou. Procuro nela, entre outras coisas, símbolos, um deles é o jardim ao leste do Éden perdido. Na verdade, passamos a vida a perder paraísos, mas a do Éden foi definitivo. Compensaram-nos com outros jardins, como o do Museu Mariano Procópio, com sua casa, seus objetos, sua cidade embaixo. Que fizeram com ele os habitantes da cidade? Que fizeram com a sua expressão máxima no mundo, seu apogeu, seu instante de glória, sua marca, seu selo de origem, sua história, sua aliança com Deus, sua garantia de eternidade? Nas noites de estrelas, luzeiros de Deus, como diz a Bíblia, debaixo do sol, da chuva, da neblina, das quatro estações, das manhãs de domingo, como está o nosso jardim suspenso? Que fez com ele a cidade aos seus pés plantada? Que fizemos nós ao leste do Éden com o jardim ao pé do qual pendemos sustentados por frágeis fios esgarçados de eternidade? Que somos nós sem ele?
Rachel Jardim: Romancista e memorialista nascida em Juiz de Fora e radicada no Rio de Janeiro. Autora de vários livros, entre eles, "Os anos 40" e "O penhoar chinês". Formada em direito, colaborou recentemente com jornais como "Jornal do Brasil" (RJ) e "Correio do Povo" (RS).
