A juiz-forana Julia Passarini, de 16 anos, participou de uma expedição científica ao Polo Norte após vencer a etapa brasileira da 7ª edição do concurso internacional “Quebra-Gelo do Conhecimento”, promovido pela estatal russa de energia nuclear Rosatom. Durante 10 dias, ela esteve a bordo do navio quebra-gelo de propulsão nuclear 50 Let Pobedy (“50 Anos da Vitória”), ao lado de estudantes de outros 22 países, em uma viagem pelo Oceano Ártico com atividades sobre tecnologia nuclear, além de aulas, palestras e workshops com pesquisadores e especialistas.
À Tribuna, Júlia conta que realizou a inscrição para a competição sem muitas expectativas: Apesar da vontade de pesquisar sobre energia nuclear, esse era um assunto ainda pouco explorado por ela. No entanto, a estudante se viu atraída pela possibilidade de explorar novos horizontes nas ciências exatas, área pela qual ela diz ser apaixonada.
“Para essa competição, como era uma muito nova pra mim, eu pensei ‘vou fazer pela diversão mesmo, pra tentar descobrir um pouco mais sobre energia nuclear também. Se eu não passar, tá tudo bem’”, relembra.
O processo de seleção envolveu três fases. Júlia revela que não se saiu tão bem na primeira etapa, que envolveu um quiz científico. Para essa fase, seu treinamento consistiu em estudar perguntas e respostas sobre o Ártico e sobre energia nuclear. Apesar de não ter tido um “desempenho excepcional”, como afirmado por ela, a juiz-forana conseguiu avançar até a terceira e última etapa, ficando entre as dez finalistas do Brasil.
Para a etapa final, os candidatos precisaram produzir um vídeo sobre o tema “Como as tecnologias nucleares estão mudando o mundo?”. Durante a preparação, Júlia pesquisou principalmente sobre o uso da energia nuclear no Brasil e descobriu aplicações que vão além da geração de energia, como na medicina e na pesquisa.
Apesar de ter se sentido à vontade durante o processo, Júlia narra que continuou sem muitas esperanças de que seria selecionada: “Quando eu fui pra etapa do vídeo, eu estava em sétimo lugar, então eu pensei: ‘nossa, se qualquer pessoa que tá na minha frente fizer um vídeo tão bom quanto o meu, eles vão passar, e eu não’”.
Porém, ela recebeu a notícia que a surpreendeu. Ela afirma que estava no colégio e, ao checar o e-mail, percebeu que havia uma mensagem com o título “You are the winner”, que em português significa “você é a vencedora”. Sem conseguir acreditar, Júlia chegou a pensar que a mensagem poderia ser apenas um agradecimento pela participação na competição. Mas, ao entrar no site e ver seu nome entre os selecionados, ela pôde confirmar sua classificação para a expedição, com direito a um acompanhante.
“Eu lembro que mandei mensagem para a minha mãe e falei: ‘Mãe, eu vou pra Rússia, e você vai junto’”, conta.
A mãe também demorou a acreditar e chegou a desconfiar que pudesse ser um golpe.
“Ela ficou muito feliz, e eu acho que não conseguiu acreditar até o dia da viagem. E nem eu”, relembra Júlia.
Rotina no navio: muitas aulas, mas também momentos de lazer e convívio
Durante a expedição, Júlia descreve a rotina como muito boa, mas também intensa. Depois de acordarem, os participantes faziam exercícios do lado de fora do navio. No restante da manhã e à tarde, os estudantes participavam de aulas, palestras e workshops com pesquisadores.
Entre os conteúdos que mais chamaram sua atenção estava a relevância da rota do Ártico, principalmente nas discussões sobre sustentabilidade. Ela também se interessou pela importância dos navios quebra-gelo, responsáveis por abrir passagem em áreas cobertas por gelo e permitir a navegação em condições extremas na região.
À noite, os estudantes tinham momentos de lazer, com karaokê, churrasco, competição de música e “muita dança”. A dança, inclusive, também fazia parte da rotina antes das aulas. “Antes da aula começar tinha dança, a gente ficava dançando. Era muito legal”, relembra a brasileira.
Conviver com outras nacionalidades também resultou em novos aprendizados. A brasileira disse que o que mais chamou sua atenção em relação às diferenças culturais foi o contato com religiões diversas.
“Eu tive contato com todo tipo de religião diferente. Então, eles contarem sobre as religiões eu achei muito interessante. […] Acho que o jeito de ser também é diferente, as danças também, a gente aprendeu um pouco da dança um do outro”, elenca.
No último dia de expedição, Júlia viveu um momento que ficou guardado em sua memória e marcado por muita emoção.
“Sempre de noite, a gente tinha uma reflexão sobre o dia […] o que a gente estava sentindo, e o que a gente queria compartilhar. E no último dia, todo mundo estava chorando […] e a gente foi agradecendo a cada um. […] Foi muito emocionante […]. Eu não imaginava ter criado uma conexão tão grande em dez dias, com pessoas de países tão longes e diferentes, e a gente estava chorando e pensando: ‘meu Deus, a gente nunca mais vai se ver, quando é que a gente vai se ver? A gente tem que marcar um encontro de dez anos’”, reflete.
O caminho estudantil até as Olimpíadas
A expedição pelo ártico não foi a primeira conquista de Júlia. A estudante tem um histórico de destaque em competições nesta disciplina: Em 2024, ela foi bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e, no ano passado, conseguiu a classificação para integrar a equipe brasileira na Pan-American Girl’s Mathematical Olympiad (Pagmo), competição voltada exclusivamente para o público feminino, que reúne jovens das Américas Latina e do Norte.
“Eu estudo muito para olimpíada, minha vida é meio que moldada ao redor disso”, afirma a juiz-forana.
Foi na Pagmo que Júlia conquistou a medalha de prata, ficando em quinto lugar. Além disso, através da competição, ela garantiu uma bolsa de estudos em uma escola de Fortaleza, no Ceará, onde o ensino é focado na matemática.
“Quando eu fui classificada para a equipe brasileira, eles me mandaram mensagem falando sobre a bolsa em Fortaleza e eu acabei decidindo vir pra cá”, cita.
Hoje, a matemática é uma das grandes paixões de Júlia, mas nem sempre foi assim. Ela começou a disputar competições aos 12 anos, inicialmente com o objetivo de conquistar uma medalha e conseguir uma bolsa no Programa de Iniciação Científica (PIC). No começo, acreditava que o caminho seria mais simples, mas logo percebeu o nível de dificuldade das provas.
Mesmo sem se considerar uma boa aluna na escola naquele período, Júlia passou a se interessar pelo formato das Olimpíadas, marcado por questões que exigem raciocínio lógico e diferentes caminhos para chegar às respostas. Depois do primeiro resultado, vieram a vontade de continuar e a busca por novas conquistas.
Júlia é engajada em projetos voltados para equiparação de gênero e iniciativas sociais
Júlia atualmente é coordenadora da equipe de Matemática do projeto “Sem Parar”, que é voltado para a preparação de meninas para olímpiadas científicas. O objetivo da iniciativa é equiparar a questão de gênero em um ambiente predominantemente masculino. Sobre essa desigualdade, Júlia indica que consegue enxergar um certo tipo de discriminação, pricipalmente no ramo das Olímpiadas.
“Às vezes quando eu entro numa sala de aula, eu sinto que os meninos acham que eu sou inferior a eles só por ser uma menina […] mesmo que eu tenha, talvez, o mesmo conhecimento que eles”, desabafa.
Como uma tentativa de mudar esse cenário, o “Sem Parar” oferece, de forma gratuita e on-line, materiais didáticos, cursos e simulados para o público feminino. No Instagram @sempararprojeto, é possível ficar por dentro da programação do projeto e as orientações para se inscrever.
Júlia também faz parte do clube “Interact” de Fortaleza, um programa de voluntariado voltado para jovens de 12 a 18 anos, com foco em projetos sociais na comunidade e desenvolvimento de liderança.
Além disso, junto com outras três estudantes, a juiz-forana desenvolve um projeto para uma competição voltada à criação de startups. Ainda em fase inicial e sem previsão de lançamento, a proposta é criar um aplicativo de conscientização sobre educação financeira, tema que, na avaliação de Júlia, ainda recebe menos atenção do que deveria.
Mesmo longe de casa, Júlia não quer desistir
Hoje, morando em Fortaleza, longe dos amigos e da família, Júlia diz que a saudade é grande, mas que mantém o contato frequente por meio de ligações.
A estudante ainda não decidiu qual profissão pretende seguir, mas tem certeza de que quer continuar no campo das ciências exatas. Entre as possibilidades, pensa em cursar Ciência da Computação ou Economia.
Por trás das conquistas e medalhas, Júlia diz que gostaria de ser vista como alguém “que tem determinação pelo que quer e uma pessoa que genuinamente gosta do que faz”. Mesmo quando a rotina pesa e o cansaço aparece, ela se apoia justamente nesse vínculo com os estudos.
“É algo que eu penso todos os dias e que realmente faz parte da minha vida […] Eu penso que é tarde demais para desistir […] Eu me mudei de cidade, deixei minha família, deixei meus amigos para poder estudar. Então, assim, é algo que realmente importa muito para mim. Não tem como só desistir agora”, finaliza.
*Estagiária sob supervisão do editor Arthur Raposo Gomes.
