
Rodrigo acertou dois tiros em Giovanna, esposa de Gustavo
Após ataque, Gustavo desarmou o invasor e atirou contra ele
Reservado, recluso e estranhamente normal. Essa é a forma como Rodrigo Augusto de Pádua, 30 anos, é descrito por pessoas conhecidas do rapaz que tinha verdadeira obsessão pela apresentadora Ana Hickmann. Ele foi morto no último sábado, em Belo Horizonte, após render o cunhado da modelo e ameaçá-la com um revólver em um hotel cinco estrelas na capital mineira. Enterrado ontem, em Juiz de Fora, em cerimônia que contou com a presença de parentes e alguns amigos da família, Rodrigo foi descrito pela mãe, Wanda Simões de Pádua, como o “melhor filho do mundo”. No entanto, moradores do Bairro Manoel Honório, onde ele residia com os pais, citam o comportamento antissocial de um jovem solteiro, desempregado, que só saía de casa para fazer ginástica de segunda a sábado em uma academia localizada a poucos metros de sua casa.
Matriculado desde janeiro na musculação, Rodrigo, que tinha 1,81m e 73 quilos, apresentou-se na academia como “empresário” e declarou que seu objetivo era “ganhar massa muscular”. Durante avaliação para o início das atividades, feita em dezembro do ano passado, ele afirmou não beber, nem fumar e contou ter sido submetido a uma cirurgia de simpatectomia torácica, intervenção feita com objetivo de eliminar o suor excessivo em algumas partes do corpo, como face, couro cabeludo, pescoço, mãos, axilas. Pessoas que sofrem do problema de suor excessivo tendem a evitar o contato.
“Só eu conhecia meu filho. Não era ele que fez aquilo (sic), era outra pessoa”, disse Wanda, 70 anos. Muito abalada, ela quebrou o silêncio após o enterro do filho, ocorrido na manhã de ontem, no Cemitério Municipal. “Foi uma fatalidade o que aconteceu. Tenho certeza que ele não foi lá para fazer mal a ninguém, ele só queria conversar. Mas como o destino foi cruel, tirou meu filho, meu caçula, que eu amava tanto. Agora, ele vai ficar no meu coração junto com as lembranças”, lamentou.
O sepultamento de Rodrigo ocorreu às 9h50. Além de parentes e amigos da família, curiosos foram ao local motivados pela repercussão do caso. O corpo foi velado na capela 6 desde a tarde de domingo. No Cemitério Municipal, a mãe de Rodrigo falou em inimigos. “O inimigo é terrível, ele ataca mesmo a pessoa, 24 horas. Ele (Rodrigo) não fez nada com a intenção de nada. Ele era uma pessoa serena, ficava mais em casa, podem perguntar aos vizinhos. Nunca mexeu com droga, não fumava, não bebia. Era um menino muito educado, só ia da academia para a casa, da casa para a academia. Só saía comigo e, se quisesse ir num cinema, chamava a gente”, descreveu, acrescentando. “Era muito carinhoso com os irmãos e comigo. Vivia me abraçando, me beijando dentro de casa e dizia: ‘mãe, a senhora é a coisa mais importante desse mundo pra mim. Se a senhora morrer, eu vou junto'”. Sobre a ida até Belo Horizonte, a mãe informou que o filho teria viajado para conhecer a cidade. “Ele foi a BH pra conhecer a cidade, porque meu outro filho está lá. Ele formou, fez Enem, pretendia fazer medicina.”
Nas redes sociais, fascínio e ameaças
Apesar de descrever Rodrigo como educado e carinhoso, a família dele desconhecia a dimensão do fascínio do rapaz pela apresentadora Ana Hickmann. Nas redes sociais, Rodrigo dedicava todas as postagens que publicava à apresentadora, por quem ele parecia nutrir uma paixão obsessiva. Alguns textos de Rodrigo no Instagran tem conteúdos ameaçadores e pornográficos. Em alguns momentos, ele demonstra sentir raiva dela.
Em entrevista ao programa “Domingo Espetacular”, da Record, no domingo, a apresentadora contou detalhes sobre a situação vivida no quarto de hotel. Segundo ela, Rodrigo abordou seu cunhado, Gustavo Corrêa, no corredor e entrou no quarto do hotel apontando a arma para ela. Ana disse que o fã proferiu vários xingamentos contra ela e a ameaçou de morte. “Na hora que ele entrou e vi aquela cena, pensei que era assalto, arrastão. Estava esperando outras pessoas entrarem e levarem nossos pertences. Mas ele veio para cima de mim, para me ofender, me humilhar, falar que me conhecia e sabia quem eu era. Ele dizia que eu tinha acabado com a vida dele, veio determinado a me matar. Eu tinha certeza que ele veio para acabar comigo”, disse Ana. “Ele dizia que eu não prestava, que eu era mentirosa, que eu correspondi ao amor dele durante muito tempo e que, de repente, eu parei de falar com ele. Fazia menções de Instagram e do Facebook, principalmente”, completou.
Conhecidos de Rodrigo mostraram-se assustados com o episódio. Uma funcionária da academia onde ele se exercitava afirmou que ele chegava sozinho, todos os dias, e não conversava com ninguém. “Fiquei muito surpresa. A gente lida com muitas pessoas, mas não sabe o que elas são capazes de fazer. Na hora que vi a foto dele na televisão, o reconheci”, comenta a secretária Natália Rodrigues, 25 anos. Dono de uma loja de suplementos, o homem que mora no mesmo prédio da família de Rodrigo, disse ter se mudado há cerca de cinco meses para o local e ter conhecido o rapaz por causa do seu ramo de negócios. “Ele comprou suplementos comigo duas vezes. Quando soube pela televisão, não acreditei no que estava acontecendo. Um cara novo, com uma vida inteira pela frente. Isso tudo acabou com a família dele. Logo depois da morte dele, muita gente começou a chegar no prédio”, contou.
Psiquiatra fala sobre obsessão
Para o psiquiatra Bruno Cruz, é difícil traçar um perfil psicológico de Rodrigo sem conhecer a vida prévia dele, sua história familiar e de vida. Sobre as circunstâncias em que a morte dele se deu, o médico diz que é preciso verificar se o rapaz tinha algum pensamento delirante, algum quadro psicótico que o levasse a ter uma atitude tão drástica. “Outra possibilidade seria ele ter um amor obsessivo por ela, não conseguir deixar de pensar nela e, em cima desse amor sem limite, sem correspondência, ter praticado um ato tão drástico. Tem algumas possibilidades que a gente pode ter como hipótese, mas antes de saber o real histórico da vida dele e o que estava passando no momento, qualquer afirmação seria precipitada.”
O fato de Ana Hickmann ter bloqueado o rapaz na sua rede social também pode ter sido um gatilho para o ato de Rodrigo. “Quando o indivíduo tem uma ideia obcecada em cima de uma figura, passa a viver aquilo como o centro da vida dele. Tudo na vida dele representa aquela pessoa, tudo que vê, lembra, tudo que interessa a ele, que dá prazer, como se fosse uma droga. Então, ele vive aquilo de uma forma tão absoluta que só aquilo é valor na vida dele. Quando sente que perdeu aquilo, pode ser capaz realmente de vir a agir de uma forma tão extrema. O fato de ele ter supostamente sofrido esse rejeição pode ser um dos motivos que o levou a esse fechamento e ficar cada vez mais enclausurado, vivenciando essa ideia de uma forma ainda mais obsessiva até chegar no ponto extremo que chegou, com esse fechamento trágico.”
Assessora está lúcida e estável
O juiz-forano Rodrigo Augusto de Pádua foi morto, no último sábado, no quarto da apresentadora, no Hotel Caesar Business, no Bairro Belvedere, na Zona Sul de Belo Horizonte. Em nota, o hotel confirmou que Rodrigo também era hóspede lá. Segundo o boletim de ocorrência da Polícia Militar, Rodrigo abordou o cunhado da apresentadora dentro do hotel e o obrigou a levá-lo até o quarto de Ana Hickmann. No quarto, além da apresentadora – que ainda tentou conversar com Rodrigo -, estava a mulher de Gustavo. Neste momento, o juiz-forano obrigou os três a ficarem de costas, mas o cunhado de Hickmanm resistiu. O fã, então, disparou atingindo Giovana Oliveira com dois tiros. Gustavo entrou em luta corporal com o atirador e conseguiu desarmá-lo. Ainda segundo a PM, o cunhado da apresentadora teria atirado no suspeito em sequência.
Ferida no ombro e na barriga, Giovana Oliveira foi submetida a cirurgia de emergência ainda no sábado, conforme a assessoria do Instituto Biocor, para tratar lesões intestinais e vasculares. Segundo o último boletim hospitalar, ela está lúcida, consciente e respira sem a ajuda de aparelhos. A vítima ainda permanece no CTI, pois inspira cuidados. Ela está com dados vitais estáveis e já recebe visita de familiares.
Em nota, a Rede Caesar Business confirmou que Rodrigo era hóspede do hotel e afirmou que a reserva foi realizada com os dados pessoais dele. “A unidade segue todos os protocolos de segurança do setor hoteleiro, e a revista nos pertences dos hóspedes não faz parte dessas determinações. O hotel lamenta o ocorrido e afirma que está contribuindo para as investigações junto às autoridades.”
Já a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Minas Gerais (ABIH-MG), por meio da presidente Patrícia Coutinho, se solidarizou pelo incidente. “A presidente lamenta que o hotel tenha sido local do ocorrido e faz questão de destacar que o mesmo foi um fato isolado e que os hotéis de Belo Horizonte prezam pelo zelo e segurança de seus hóspedes, seguindo todos os protocolos cabíveis”, informa a nota.

