Ao longo da vida, Maria Geralda Rosa trabalhou como empregada doméstica. Foi com esse trabalho que construiu, aos poucos, a casa na Rua São Tarcísio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida, na Zona Leste de Juiz de Fora, enquanto criava sozinha os quatro filhos. Hoje, aos 80 anos, já aposentada e com os filhos adultos, ela ainda lava roupas para complementar a renda. O lar onde criou a família, pintou as paredes de salmão, cultivou plantas e imaginava viver a aposentadoria, porém, foi interditado, após as consequências das chuvas na cidade. Mais do que a perda temporária de um imóvel, a interdição expõe um dilema vivido por moradores de áreas de risco: a dificuldade de se afastar de espaços erguidos ao longo de décadas, carregados de esforço, memória e pertencimento.
O imóvel foi comprometido por um deslizamento de terra que atingiu o meio-fio da Rua São Pancrácio, via localizada acima da São Tarcísio. Com isso, as casas do lado direito da Rua São Tarcísio precisaram ser evacuadas. “É muito dificil, tanto para mim quanto para todos os moradores que tiveram que se retirar. A gente trabalha a vida toda, para quando chegar nesse ponto a gente quase que perde a casa”, relata Maria. Desde a interdição, ela está na casa da filha e espera poder retornar ao imóvel assim que a situação for resolvida pela Prefeitura, na expectativa de voltar ao lugar onde construiu a própria trajetória.
Um bambuzal que dá acesso ao quintal passou a representar mais um risco para a edificação onde Maria viveu por 58 anos. Parte da vegetação já se soltou, enquanto outra permanece pendurada. A idosa pede que o Poder Público intervenha no local para evitar que os bambus se desprendam e destruam, de vez, tudo o que levou uma vida para construir.
Procurada pela Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora foi questionada sobre a situação das áreas de risco nas ruas São Tarcísio e São Pancrácio, incluindo a possibilidade de obras de contenção e estabilização do solo, as causas do desabamento de parte do passeio, os riscos relacionados ao bambuzal, o número de imóveis interditados, a previsão de intervenções, a realização de vistorias pela Defesa Civil e a queda de um muro na Rua Paraisópolis, no Bairro Manoel Honório.
Em nota, o Executivo municipal informou que a “Defesa Civil e a Secretaria de Obras já realizaram levantamento técnico nas ruas São Pancrácio e São Tarcísio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida, para viabilizar recursos federais destinados a obras de estabilização do talude e recomposição da via e do passeio atingidos.” A nota completa está ao final da matéria.
Dificuldade em deixar a moradia em áreas de risco
A dificuldade de deixar as casas construídas com muito trabalho tem sido uma realidade para outros moradores do bairro e de diferentes regiões da cidade, visitados pela Tribuna desde o dia 23, quando a chuva provocou uma série de desabamentos de casas e deslizamentos de terra em Juiz de Fora, além de deixar mais de oito mil pessoas desabrigadas. A questão econômica aparece com maior frequência como motivação para a resistência em deixar os imóveis, mas também pesam o receio, a incerteza, a expectativa por uma solução e as memórias ligadas a esses espaços.
De acordo com a doutora em psicologia Maira Leon Ferreira, a casa não é apenas um espaço físico, mas um lugar de segurança psicológica, que carrega estabilidade emocional e sensação de proteção. A perda do lar em um desastre também representa a ruptura dessa base de apego seguro. “Essa situação de a pessoa deixar a própria casa por risco ou desastre não envolve apenas um luto não reconhecido, mas também um processo traumático”, explica.
É o caso enfrentado pelos pais de Cintia Rosalina Barbosa Viana, 45 anos. A família composta por ela, uma irmã, a mãe de 76 e o pai de 85, morava na Rua São Tarcísio. Até que a casa da irmã foi atingida por um deslizamento. Ela conseguiu fugir pela janela e logo em seguida se mudou. Cintia também foi morar em outro lugar. Mas os pais não querem deixar o local. “Ontem (quinta-feira, 19) estava chovendo muito e eu fui até lá para eles irem dormir na minha casa, mas eles não quiseram. Todo dia eu venho, olho eles e vou embora. A mãe responde que não vai sair porque a casa dela não vai cair”, conta Cintia.
Para os idosos, a psicóloga explica que deixar suas casas pode ser um processo ainda mais complexo. “Eles já estão em uma posição de vulnerabilidade cognitiva e, muitas vezes, também física”, afirma, citando a presença de doenças crônicas e dificuldades de locomoção. Além disso, o vínculo emocional com a casa tende a ser mais profundo. Trata-se de um espaço atravessado por trajetórias de vida, memórias e construção de identidade. Muitos idosos participaram da construção do próprio lar ou o herdaram de familiares, o que reforça esse apego simbólico – e também monetário, uma vez que eles compartilharam das dificuldades para se conseguir ter uma casa.
Há, ainda, aqueles que não contam com uma família extensa, rede de apoio e não têm para onde ir. O que segundo Maira, corrobora para que sentimentos de solidão e desamparo diante da incerteza sejam ainda mais intensificados. De todo modo, ela explica que do ponto de vista psicológico, há ainda uma maior dificuldade em lidar com mudanças nesta fase da vida. “O envelhecimento pode implicar menor flexibilidade diante de rupturas e situações de risco, o que torna deslocamentos forçados, especialmente os repentinos, ainda mais difíceis. “Por isso, os idosos são uma das populações que mais sofrem nesse contexto.”
No caso de Ana Maria Campos, de 65 anos, que vive com o marido e dois cachorros em outra casa no mesmo lado da rua onde moram Maria e os pais de Cíntia, a permanência no local se dá principalmente pela falta de respostas e pela condição econômica. Ana conta que, quando a Defesa Civil esteve na rua, não estava em casa e deixou a chave com a vizinha para que a vistoria fosse feita, mas os agentes não entraram no imóvel e não retornaram desde fevereiro. Assim, o casal segue morando na residência à espera de uma resposta definitiva, já que o imóvel — localizado no trecho interditado — não foi vistoriado. A permanência, porém, não é tranquila. Ela e o marido se revezam para dormir e permanecem atentos a qualquer barulho.
‘Ninguém está seguro’: deslizamento após queda de muro preocupa moradores no Manuel Honório
Também na Zona Leste, no Bairro Manuel Honório, a Tribuna esteve na Rua Paraisópolis, onde um muro de mais de 20 metros de extensão cedeu após as chuvas do último dia 23. Com a queda, a terra antes contida pela estrutura também deslizou. O que era limite virou uma encosta exposta — e, durante a presença da reportagem no local, novos trechos de terra se desprenderam. Um poste de iluminação, que ficava no passeio, também caiu com a força do deslizamento e atingiu o telhado de uma casa.
Quem contou sobre a sequência de desastres foi a moradora Maria das Graças, 68 anos. A casa dela e a da filha, que ficam ao lado do barranco, foram comprometidas. Segundo ela, a Defesa Civil orientou que, em caso de nova chuva, o melhor seria sair. A casa é onde Maria viveu com o marido, que morreu durante a pandemia — o mesmo lugar onde criou a filha e onde vive há 28 anos. “Ninguém está seguro aqui. Se a chuva continuar, vou ter que sair. Mas não sei para onde vou”, desabafa, deixando claro que pretende permanecer no local caso as chuvas cessem.
Além dela, outros moradores também demonstram preocupação com a situação e se perguntam se algo poderia ter sido feito antes que o problema chegasse a esse ponto. Segundo relatos, a Defesa Civil informou que não é possível remover, por agora, a terra que tomou o passeio do outro lado da rua, já que ainda há risco de novos deslizamentos. A orientação teria sido de que a manutenção caberia ao proprietário do terreno — que, conforme os vizinhos, se recusou a realizar a intervenção. A reportagem não conseguiu contato com o responsável.
O que diz a Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que a Defesa Civil e a Secretaria de Obras já realizaram “levantamento técnico nas ruas São Pancrácio e São Tarcísio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida”, com o objetivo de viabilizar recursos federais para obras de “estabilização do talude e recomposição da via e do passeio atingidos”.
Segundo o Executivo, o deslizamento foi provocado pelo “volume extremo de chuvas registrado na região”. A Administração municipal destacou ainda que, de acordo com a estação meteorológica do Bairro Marumbi, foram acumulados “194 mm de chuva em aproximadamente seis horas”, cenário que favoreceu o movimento de massa.
A Prefeitura afirmou também que há previsão de obras de estabilização na Rua São Pancrácio, atualmente “em fase de projeto”. Já na Rua São Tarcísio, os imóveis localizados abaixo da encosta “permanecem interditados por segurança e seguem sob monitoramento, sem liberação para retorno neste momento”.
Como medidas emergenciais, o Município informou ter solicitado “isolamento e sinalização da área, desvio de águas pluviais, avaliação de poste inclinado e desobstrução da via”. Sobre o bambuzal, a avaliação técnica, segundo a nota, é de que ele “ajuda na proteção superficial do solo, mas não estabiliza a encosta”.
Ainda conforme a Prefeitura, na Rua São Tarcísio foram registrados 31 chamados, com 22 vistorias concluídas e 9 tentativas sem sucesso devido à ausência de moradores. Nesses casos, a Defesa Civil deverá fazer novo contato para agendamento. A orientação do Executivo é que os moradores “permaneçam em local seguro até a vistoria”.

