Ainda que a busca pela abertura de novos leitos esteja ocorrendo para mitigar os efeitos do agravamento da pandemia de Covid-19 em Juiz de Fora, infectologistas da cidade afirmam que a medida não resolve o problema. De acordo com texto publicado pela Prefeitura de Juiz de Fora na tarde desta terça-feira (23), a ação seria como ‘enxugar gelo’, diante do crescimento no número de infecções. No momento, o imperativo, que foi destacado no manifesto das entidades médicas do município publicado na segunda-feira (22), é a necessidade de controle da transmissão do vírus por meio, sobretudo, do distanciamento social e da vacinação.
A preocupação de médicos da cidade está nos flagrantes de pessoas que desrespeitam as orientações de autoridades sanitárias nas ruas todos os dias, além de demonstrações de descrença do vírus. Como pontuou o médico e chefe da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI-Covid) da Santa Casa de Misericórdia, Eduardo Borato, a atual fase é a pior desde o início da pandemia. No momento, segundo ele, ainda vivemos as consequências do Natal e do Ano Novo, quando ocorreu relaxamento das medidas entre a população. Ele ainda ressalta que tanto a enfermaria quanto a unidade de tratamento intensivo do hospital estão trabalhando no limite.
Há ainda, de acordo com Borato, um agravamento do estado em que os pacientes chegam no atendimento e a mortalidade na terapia intensiva é alta, assim como a ocorrência de sequelas permanentes, alongando o tempo para que o paciente possa alcançar a qualidade de vida e a condição clínica que tinha antes da Covid.
A Prefeitura também reforça que a P1, uma das variantes do coronavírus detectada em Juiz de Fora por uma pesquisa da UFJF, possui maior potencial de transmissão. O infectologista Guilherme Côrtes Fernandes pontua que o protocolo sanitário adotado pelo Governo não é suficiente para controlar o avanço desse vírus e reitera que as orientações sobre higiene, uso da máscara e distanciamento de mais de dois metros entre as pessoas são as principais medidas de combate às infecções.
Ele afirma que outras ações de vigilância precisavam ter sido tomadas, como a detecção de casos e quarentena dos contactantes para quebrar a cadeia de transmissão. Além disso, ele explica que não há flexibilização segura sem evidências claras de diminuição do contágio.
Sobre os danos na economia, Guilherme avalia que, se os esforços para o controle da transmissão tivessem sido tomados, os reflexos negativos seriam menores.
Mortalidade e preocupação com a falta de insumos
O texto publicado pela Prefeitura também menciona a mortalidade nas UTIs, porque a dinâmica da infecção pela doença implica em queda da oxigenação com complicações respiratórias. De acordo com o infectologista Marcos Moura, da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde (SS), 10% dos contaminados se transformam em casos graves que necessitam de intubação em UTIs, onde a mortalidade é altíssima.
Os leitos de UTIs, também de acordo com o médico, são escassos, e aproximadamente 80% dos destinados à Covid-19 são pactuados, o que quer dizer que não são permanentes. A grande ocupação de vagas pelos contaminados faz com que faltem vagas para pacientes, como vítimas de acidentes de trânsito, por exemplo. Ele anda considera um dado publicado por uma matéria da BBCNews de 19 de março, na qual havia a afirmação de que 80% dos pacientes brasileiros que precisam de ventilação mecânica invasiva – ou intubação – morrem. Os dados foram obtidos pelo sistema SIVEP-Gripe do Ministério da Saúde (MS).
Por fim, a Prefeitura também expôs a preocupação com o risco de falta de insumos para a intubação de pacientes. Com o avanço da epidemia, cresceu a demanda pelo chamado kit-intubação e há receio da falta, principalmente, de sedativos. A Secretaria de Saúde municipal afirmou que monitora constantemente os produtos médicos e farmacêuticos para o combate da Covid-19, usados pelo SUS. “A Secretaria de saúde está atenta à situação e de forma semelhante ao externado pelos órgãos e autoridades nacionais, vê com preocupação o atual cenário. A dificuldade para aquisição desses insumos no mercado nacional pode ocasionar o desabastecimento em curto prazo”, informou.

