Quase um quarto da população brasileira, totalizando 45,6 milhões de pessoas, tem algum tipo de deficiência, de acordo com dados do Censo 2010. Apesar do considerável número de brasileiros nesta situação, o que ainda se percebe é um cenário de desrespeito à cidadania. Para suscitar a reflexão sobre o assunto e mobilizar a sociedade, foi comemorado, na última sexta-feira, o Dia Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência. A data também foi instituída em Juiz de Fora, com a celebração do Dia Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Como parte dos debates realizados na cidade, será lançado amanhã, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o livro Maria de Rodas – delícias e desafios na maternidade de mulheres cadeirantes. As autoras Tatiana Rolim, Flávia Cintra e Carolina Ignarra, que são cadeirantes, participam do debate, trazendo um pouco de suas experiências vivenciadas com a maternidade. Carolina Ignarra é escritora e formada em educação física. Ficou paraplégica aos 22 anos de idade em um acidente com moto. Logo após, casou-se e ficou grávida de Clara, hoje com 7 anos. Flávia Cintra é repórter do Fantástico, da TV Globo, e mãe de um casal de gêmeos, 4 anos. Ficou tetraplégica aos 18 anos em um acidente de carro. Foi consultora na novela Viver a vida, que teve a personagem Luciana, de Alinne Moraes, inspirada em sua história. O livro Maria de rodas foi idealizado por Tatiana Rolim, mãe de Maria Eduarda, 2 anos. Ela ficou paraplégica após um acidente. Escritora e psicóloga, Tatiana, juntamente com as demais autoras, quer mostrar a história de mulheres que conquistaram seu espaço na sociedade, rompendo inúmeros preconceitos e paradigmas que persistem acerca destes assuntos. Nesta entrevista à Tribuna, Carolina e Tatiana falam sobre o livro, as dificuldades enfrentadas e a experiência de cada uma.
Tribuna – Quais as barreiras que ainda precisam ser superadas pelas pessoas com deficiência?
Carolina Ignarra – Costumamos classificar as barreiras como físicas e atitudinais. Barreira física está relacionada à falta de acessibilidade. Barreira atitudinal, ao comprometimento da cultura de inclusão devido à falta de convivência. É comum pensarmos que a quebra da barreira física é mais fácil. Afinal, é mais simples quebrar tijolos ou cabeças? Porém, quem quebra o tijolo? Quem promove acesso? Precisamos da cultura de inclusão para que as barreiras físicas sejam quebradas. E, infelizmente, a falta de acessibilidade é o maior impacto na minha vida de cadeirante. Impacta na minha vida social, profissional, limita toda independência que me esforço muito para conquistar.
Tatiana Rolim – As demandas da pessoa com deficiência são um tema abordado constitucionalmente desde 1988. No entanto, parece ainda haver um descaso dos direitos e da cidadania da pessoa com deficiência. Não bastassem as barreiras físicas, arquitetônicas, enfrentamos ainda a barreira atitudinal, que, ao meu ver, é de fato a maior a ser superada. Por exemplo, quando há uma vaga reservada para carros de pessoas com deficiência, mas a vaga está ocupada.
– O preconceito diminuiu? A divulgação na mídia de temas relacionados às deficiências, assim como a presença de personagens com algum tipo de deficiência nas telenovelas, colabora para a mudança desse quadro? A divulgação do esporte realizado por pessoas com deficiência, como ocorreu nas Paralimpíadas, também ajuda na quebra dos preconceitos?
Tatiana – A formação do caráter de pessoas implica na existência de conteúdos informativos para que possam dar significados contextualizados. Assim, hoje temos a mídia com importante papel neste sentido. Os resultados dos Jogos Paralímpicos contribuem positivamente, sim, desde que esses atletas não sejam enaltecidos como super heróis olímpicos.
Carolina – Temos hoje mais exposição positiva da pessoa com deficiência nas mídias. Esse processo está diretamente ligado ao mercado de trabalho, pois as pessoas com deficiência têm acesso ao trabalho através da Lei de Cotas (8.213/91). Assim, somos público alvo das empresas e estamos cada vez mais presentes nos comerciais, telenovelas, noticiários. A questão dos atletas paralímpicos ajuda muito, pois traz a percepção de capacidade, o que é muito bacana, pois transforma a imagem de coitadinha e incapaz da pessoa com deficiência. Porém, temos que cuidar para não olharmos como super homens. São pessoas comuns, que superam desafios na vida, como todo e qualquer atleta, como todas as pessoas que enfrentam dificuldades na vida. E quem não enfrenta?
– Para o cadeirante, a falta de estrutura arquitetônica, sem acessibilidade, ainda é empecilho para inclusão social de fato?
Carolina – Quanto menos acesso, mais limitação temos.
Tatiana – A falta de acessibilidade é um entrave para a promoção da igualdade de estarmos na sociedade, limita o direito de ir e vir, tolhe a liberdade e exclui as possibilidades.
– E o mercado de trabalho, como tem assimilado a diversidade e a inclusão das pessoas com deficiência?
Tatiana – De maneira geral, podemos dizer que houve uma mudança positiva nos paradigmas associados à pessoa com deficiência e à inclusão no mercado de trabalho. Há 15 anos, falávamos da Lei de Cotas (8.213/91), (que determina que a empresa com cem ou mais funcionários está obrigada a preencher de 2% a 5% dos seus cargos com pessoas que tenham alguma deficiência), como algo tão distante. Hoje parece algo mais próximo, mas há muito a se fazer ainda.
Carolina – A inclusão através do mercado de trabalho é a grande porta para a sociedade. Foi assim para mim. Fiquei cadeirante devido a um acidente de moto em 2001 e, três meses depois, já estava trabalhando. Com o trabalho, me reintegrei na sociedade, e pude conquistar todos os meus sonhos.
– Vocês são cadeirantes e mães também. Qual foi o maior incentivo para se reunirem e escrever Maria de rodas?
Tatiana – O maior incentivo, de fato, foi ter me tornado mãe e ter registrado algumas emoções e situações desde o período gestacional, com o nascimento e a chegada da minha filha Maria Eduarda. No auge dos quatro meses de gravidez, eu me dei conta de que tinha praticamente dois filhos: uma bebê e páginas de um livro, que, ao meu ver, naquele momento, estava incompleto porque faltavam respostas como, por exemplo, de como seria a rotina, a fase das perguntas, os cuidados com uma criança de 2, 3, 4 anos de idade. Foi aí que convidei as outras Marias e, assim, fecundamos a ideia de um projeto em conjunto. Juliana Oliveira e Kátia Hemelrijk foram convidadas para compor o relato e também contam suas histórias.
Carolina – Inicialmente minha ideia era escrever um diário que eternizasse minha vida com a minha Clara. Depois que dividimos conteúdos, percebemos que poderia ajudar outras mulheres cadeirantes e encorajar muitas pessoas, com ou sem deficiência, para os desafios da vida. Hoje tem sido tão legal! As pessoas se emocionam, se divertem e agradecem por termos dividido nossas vidas.
– A gravidez da cadeirante é mais complicada?
Tatiana – As orientações clínicas concedidas pelo obstetra à gestante com lesão medular são basicamente as mesmas para todas as mães. No entanto, algumas questões devem ter um respaldo técnico, considerando tipo e nível de lesão, que resultam em alterações sensitivas, motora, esfincterianas. O inchaço nas pernas da gestante cadeirante é ainda mais recorrente. Há ainda o risco dobrado de infecção urinária. Com o livro, promovemos a extensão do conhecimento a todos os leitores, incluindo a categoria médica.
– Qual a vivência mais emocionante pela qual vocês passaram durante a gravidez e nesse processo da maternidade? Qual o maior desafio que a maternidade trouxe?
Tatiana – Durante a gravidez, todos os dias foram de alegrias. Já tive o desafio do banho, que achava super difícil por nunca ter tido uma postura realmente confortável para dar banho. Agora, o desafio é passar segurança das coisas que faço. Quando vou descer um degrau, minha filha se assusta porque já me viu caindo da cadeira. Então, diz: Dado mamãe, ou seja, cuidado mamãe!
Carolina – Quando gestante, eu me sentia a mulher mais linda e feliz do mundo, foi o momento mais pleno e marcante da minha vida. Uma experiência que passei como mãe da Clara foi quando, após o lançamento do Maria de rodas, mandei um exemplar para a professora da minha filha. A diretora me chamou para conversar com as crianças. E lá fui eu para a escola, conversar com umas cem crianças, de 7 a 8 anos de idade, sobre deficiência. Foi o máximo. Elas perguntaram tudo que tiveram curiosidade, com a maior naturalidade do mundo. A máxima foi: Tia, como você faz o número 1 e o número 2?. Foi muito legal!
> O lançamento do livro Maria de Rodas será às
19h de amanhã, no auditório da OAB, localizado na
Av. dos Andradas 696, Jardim Glória. As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo telefone 3690-5900.
